A guerra silenciosa na Zona Leste de São Paulo

 

Levantamento feito pela Ponte mostra que entre janeiro e abril a zona leste foi palco de quase metade dos supostos confrontos com mortos envolvendo policiais na cidade de São Paulo. Desde o início do ano, a região vive uma guerra silenciosa que expõe a população civil ao medo e policiais ao desamparo

A zona leste foi palco de quase a metade dos 85 supostos confrontos com mortos envolvendo policiais entre janeiro e abril na capital paulista. O mapa da letalidade, elaborado pela reportagem da Ponte, mostra que os bairros de Itaquera, Guaianases, Itaim Paulista, Cidade Tiradentes e Sapopemba registraram 42 casos que terminaram em morte —como comparação, no centro expandido foram apenas dois. Desde o início do ano, a região vive uma guerra silenciosa que expõe a população civil ao medo e policiais ao desamparo. Nesses casos, foram 48 mortos até o registro dos boletins de ocorrência. Seguramente, o número é maior —por causa dos que morreram depois.

Em meio à violência generalizada, policiais afirmam que recebem com frequência comunicados de que estariam na mira do crime organizado. É o caso de um informe do dia 26 de maio, divulgado em redes sociais e atribuído ao centro de inteligência da corporação, que diz que criminosos teriam uma lista com nomes de PMs que deveriam ser assassinados na zona leste. “Favor tomarem providências enérgicas”, encerra o texto.

Na linha de fogo ou acuada, o fato é que a PM bateu recorde de violência entre janeiro e abril deste ano.

As “providências enérgicas”, motivadas pelo clima de tensão, podem ser justamente o combustível necessário para uma resposta violenta durante qualquer abordagem. Segundo o deputado estadual Major Olímpio, (PDT),  que representa PMs na Assembleia Legislativa, o sentimento de parte da tropa é de abandono e a situação nas ruas é preocupante, porque mais de 59 integrantes da corporação foram mortos somente neste ano —todos soldados, cabos ou sargentos, os praças. “Traz insegurança, sujeição ao erro de avaliação e também outra coisa muito perigosa para a sociedade: quando os homens da lei não acreditam mais nela, já que não funciona, procuram muitas vezes estabelecer a lei do cão”, afirma.

Na linha de fogo ou acuada, o fato é que a PM bateu recorde de violência entre janeiro e abril deste ano. Segundo dados publicados pela própria corporação no Diário Oficial, 206 pessoas foram mortas no Estado de São Paulo por policiais militares em serviço no primeiro quadrimestre, maior número dos últimos 11 anos para o período. Em março, foram 63 mortos, o terceiro mês mais violento desde 2004 (atrás somente de maio de 2006, marcado pelos ataques do Primeiro Comando da Capital, e de novembro de 2012, auge da crise que terminou com a queda do então secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto).

Ondas de violência

O mapa da letalidade policial em São Paulo foi traçado a partir de dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, complementados pela Ouvidoria das Polícias. Eles mostram também que parte desses supostos enfrentamentos aconteceu em ondas bem características. Foram períodos de no máximo três semanas, com no mínimo quatro casos, registrados em raios de até 6 km, embora os crimes contra o patrimônio (roubos e furtos) aconteçam de maneira uniforme durante todo os quatro primeiros meses do ano.

Os casos tiveram como protagonistas principalmente policiais militares —a participação da Polícia Civil da Guarda Civil Metropolitana é mínima.

A primeira leva de confrontos registrados como “morte decorrente de intervenção policial” teve início com o assassinato do PM Fernando Neves da Cunha, 29 anos, baleado durante perseguição a um carro roubado, na primeira madrugada do ano. Os tiros que mataram o policial partiram de uma praça onde jovens ouviam música, perto da avenida Doutor Guilherme de Abreu Sodré, quase na divisa com Ferraz de Vasconcelos (Grande São Paulo).

A partir daí, entre o assassinato de Cunha e 13 de janeiro, outros oito confrontos envolvendo PMs em serviço terminaram com pessoas mortas em locais próximos, como Itaquera, Guaianases, São Miguel e Itaim Paulista. Mais cinco ondas com supostos embates mortais envolvendo a PM foram registradas na região nos quatro primeiros meses de 2014.

Nesse período sangrento, o protagonismo não ficou a cargo do Comando de Policiamento de Choque (do qual faz parte a Rota), como costuma acontecer.

“Esse país não é para pobre. Eu me sinto um lixo pelo jeito que tratam a gente”,  T.L, moradora da zona leste.

A violência policial veio principalmente de PMs de batalhões de área. São eles que convivem no a dia a dia com os moradores e conhecem bem os bairros onde atuam —assim como também são bem conhecidos pelos criminosos da região e, por isso, se sentem mais ameaçados. Nesse cenário sinistro, eles participaram de ocorrências que terminaram com 88 mortos entre janeiro e abril em toda a capital. Somente em março, 36 pessoas morreram em supostos confrontos com esses policiais em serviço. Mais até do que em maio de 2006 (32).

Inimigo mora ao lado

Gente pobre, fardada ou não, se viu no meio de 42 tiroteios com morte envolvendo a polícia entre janeiro e abril. Isso tudo fora os assassinatos durante assaltos, execuções e vinganças as mais variadas. Assim como as balas, a insegurança pública é distribuída entre todos e ninguém anda tranquilo na zona leste.

Com tantos tiros trocados, há alguma forma de a polícia conquistar a confiança da população? “Nenhuma, nenhuma”, diz M.D., 18 anos, desempregado. Ao lado da estação Guaianases da CPTM, ele espera um ônibus em direção à Cidade Tiradentes. Está acompanhado da promotora de vendas T.L., 20 anos. Os dois topam conversar sobre as angústias do dia a dia e a presença violenta do Estado na região.

Ainda é meio da tarde, são 15h30, mas os ônibus já passam lotados, levantando poeira na rua Salvador Gianeti. Muita gente desce da estação e espera no ponto mais uma condução para chegar em casa —talvez a segunda ou terceira, na longa jornada de quem mora longe do centro. É véspera da abertura da Copa do Mundo, que aconteceu na Arena Corinthians, a 6 km dali.

A promotora de vendas parece não engrossar o coro de muito orgulho e amor que se ouviria no dia seguinte nas arquibancadas do estádio. “Esse país não é para pobre. Eu me sinto um lixo pelo jeito que tratam a gente”, afirma T.L.

O abandono é evidente, segundo relata. Ela diz, por exemplo, que teve problemas de relacionamento com o pai de sua filha e que procurou uns rapazes ligados ao crime organizado, “os irmãos”, para resolver a situação. “Funcionou melhor do que se tivesse corrido atrás da Justiça. Juiz demora muito e não resolve nada.”

Sobre a polícia, T.L. conta que uma amiga grávida já foi agredida por PMs com tapas na cara e que toda vez que é abordada acontece a mesma coisa. “Já chegam chamando de vagabunda. Não têm respeito nenhum”, diz. E essa polícia pode te proteger? “Não garantem nem a segurança deles mesmos”, fala.

“Olha, sei que não é fácil para eles, mas você tem que entender o nosso lado também… Eu sou polícia”.

Já a falta de confiança de M.D. na polícia é embasada nas vezes em que esteve frente à frente com o poder repressivo do Estado. Uma delas foi em um “fluxo”, um encontro de jovens na rua para ouvir música, uma variação de baile funk. “Sou homossexual e eles ainda tiraram uma com a minha cara. Falaram que o meu jeito não era atitude digna de homem, que não era coisa de Deus”, diz. O enquadro, por pouco, não terminou em agressão física. “Só não me bateram porque tinha muita gente por perto.”

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Fotos: Caio Palazzo

Tão perto

A conversa com os jovens é acompanhada com atenção por um homem de cerca de 40 anos, vestindo camiseta e moleton pretos, com uma sacolinha na mão. Sentado em uma mureta, ele aperta os olhos contra o sol, coloca a mão sobre a testa e só se aproxima quando os outros dois se despedem.

“Olha, sei que não é fácil para eles, mas você tem que entender o nosso lado também… Eu sou polícia. Vem cá, que a minha mulher está ali me esperando”, diz, enquanto caminha para a rua lateral. Quando ele se aproxima do carro, a filhinha de dois, três anos pula no colo do pai, sorridente, cheia de beijos e abraços. A mulher parece preocupada.

“A gente ficou abandonado aqui. Você pensa que é fácil? Ninguém se importa com a gente…”, cabo da PM.

“Este ano está pior. Eles não se contentam mais em levar o carro, a moto. Querem matar também. E é tudo moleque. A polícia atira porque não é amiga de bandido. Quer dizer, tem uns que são, mas a gente sabe quem é e não quer se envolver com isso”, fala o policial, que mora em uma cidade vizinha na região metropolitana.

O PM continua. “Ouvi o que eles estavam falando. Trabalho bem naquela área onde eles moram e é um lugar complicado. A gente corre risco o tempo inteiro ali”, diz.

Dias antes, um cabo do 39º BPM já havia relatado o clima de insegurança até mesmo para quem anda com uma pistola .40, cheia de balas. “A gente ficou abandonado aqui. Você pensa que é fácil? Ninguém se importa com a gente e, se bobear, ainda criticam o nosso trabalho.”

Falta de investigação

Coordenador do Observatório de Segurança Pública da Unesp, Luís Antônio Francisco de Souza afirma que a investigação de homicídios é prejudicada no Brasil por dificuldades na preservação de local do crime, no trabalho pericial e na coleta de provas e testemunhos. Segundo ele, a situação piora quando são ações praticadas pela própria polícia.

Souza diz que confrontos deveriam resultar em mais feridos do que mortos, o que não costuma acontecer. “Acrescentando esse achado de que as mortes são sucessivas e não são distribuídas de forma uniforme, tem-se um quadro em que elas podem estar relacionadas às respostas violentas ao crime, parte da chamada cultura policial”, diz. “Ou seja, as mortes seriam parte de um vigilantismo de certos grupos no interior da polícia (atitude de fazer justiça com as próprias mãos, como forma de vingança por um crime)”, completa.

 Outro lado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que as polícias Civil e Militar têm trabalhado constantemente na capacitação dos policiais e na reformulação de procedimentos. “A Secretaria da Segurança Pública tem promovido inequívoco fortalecimento das corregedorias das polícias para apurar possíveis desvios de conduta”, afirma, em nota.

Ponte enviou à SSP o mapa dos confrontos envolvendo policiais civis e militares, o período e abordagem retratados na reportagem, mas a secretaria não respondeu por qual motivo as mortes decorrentes de intervenção policial ocorreram majoritariamente na periferia da capital, principalmente na zona leste.

A pasta alega que as informações são públicas e estão disponíveis em seu site: “Quanto à letalidade, a Secretaria da Segurança Pública reafirma seu compromisso com a transparência e lamenta que o site Ponte tenha se recusado a fornecer as informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação, impossibilitando que tais dados pudessem ser comentados. Lembra, ainda, que as estatísticas sobre o tema são públicas. Estão disponíveis no site da SSP e também são publicadas mensalmente no Diário Oficial do Estado”, diz a nota.

Porém, os endereços, datas e horários dos locais onde policiais se envolveram em ocorrências com morte não são divulgados pela SSP.

Sobre mortes decorrentes de intervenção policial, a SSP diz que todas as ocorrências “são sucedidas de reuniões de análise, com o claro objetivo de buscar medidas que possam ser empregadas para evitar que fatos semelhantes voltem a ocorrer. Os resultados dessas reuniões subsidiam estudos para a redução da letalidade futura.”

Questionada sobre o sentimento de abandono dos policiais, a secretaria diz que, “desde 2011, o governo paulista implantou um conjunto de ações que comprovam seu compromisso de investir na valorização e na reestruturação da carreira policial”. De acordo com a secretaria, “nesta terça-feira, foi anunciado o quarto reajuste salarial: 8% para a Polícia Militar e 6% para as Polícias Civil e Técnico-Científica, além de novas medidas de valorização dos policiais, que seguem nesta quarta-feira (25) para a Assembleia. A soma dos reajustes dará à Polícia Militar 47,5% de aumento, bem acima da inflação de 19,8%, segundo o IPCA, com aumento real de 23,2%”. Para a Polícia Civil, o aumento acumulado para os delegados é de 72,8% e de 55,5% para investigadores e escrivães. O ganho real é de, respectivamente, 44,3% e 29,9%”, complementa.

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5 Comentários

  1. Boa noite,

    Hoje uma menina de 9 anos fui morta na zona leste, e os moradores queimaram 4 ônibus. Não encontrei nenhuma entrevista com os moradores daquela região, então não sei dizer o que provocou essa reação, que num primeiro momento, parece estranha.

    Porque queimar os ônibus parece uma atitude contra o Estado, e ninguém sabe quem matou a menina, e não parece que tenha sido algum agente do Estado. Então parece um protesto contra algo a mais.

    Lendo a matéria de vocês, e vendo a reação das pessoas, parece que qualquer coisa que aconteça naquela região poderá ser razão de reações cada vez mais violentas _ que vai instigar mais violência policial…

    Notícia no G1
    http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/05/menina-e-morta-na-zona-leste-de-sp-e-moradores-queimam-onibus.html

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