Família diz que guarda foi morto por ser negro

    “Meu irmão não morreu. Meu irmão foi assassinado quando estava no estrito cumprimento do dever por uma Polícia Militar infelizmente despreparada, negligente, preconceituosa e racista”

    Familiares do cidadão negro Roberto Carlos Ribeiro dos Santos, guarda civil metropolitano de Itaquaquecetuba, morto pelo policial militar Domingos Dias de Sousa, não têm dúvida: “Foi imperícia aliada ao racismo! Neste país, basta a polícia ver um negro correndo e já acham que é bandido. Atiram primeiro para perguntar depois”, disse Osvaldo Ribeiro, irmão do guarda morto.

    “Meu irmão não morreu. Meu irmão foi assassinado quando estava no estrito cumprimento do dever por uma Polícia Militar infelizmente despreparada, negligente preconceituosa e racista. É mais um jovem trabalhador negro da periferia que foi assassinado pela PM”, denunciou Osvaldo que é professor e ator amador.

    Na semana passada, os parentes do GCM, que foi morto no dia 9 de setembro ao ser confundido com um ladrão, estiveram na Assembléia Legislativa, para discutir o caso com o S.O.S Racismo da Assembléia Legislativa de S. Paulo –que tem como objetivo o combate à discriminação e à intolerância racial– e com o deputado Adriano Diogo (PT/SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos. Querem que o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, assuma a frente nas investigações sobre a ocorrência.

    “Um GCM, um agente da lei, foi morto pela Polícia Militar por ter sido confundido com um ladrão, quando, na verdade, perseguia ladrões. Trata-se de algo muito grave, que evidencia o viés racista da Polícia Militar, que considera os negros como os suspeitos-padrão”, avaliou o deputado Adriano Diogo.

    Às 19h50, o GCM Roberto Carlos estava na Câmara Municipal de Itaquaquecetuba, município da Grande São Paulo, onde participava de um evento da secretaria de cultura, quando escutou um grito de socorro –uma mulher estaria sendo assaltada na rua.

    “E então, meu velho! Te deixaram nu e sem escamas? Sem espinhas, sem dentes?. Exposto ao riso de toda a gente? Não vão te esquartejar? Te exibir como palhaço? O tronco disforme, teu túmulo será o mar; as águas da Guanabara, o teu caixão… E as ondas do mar, o seu manto”, trecho do musical “João Candido do Brasil – A Revolta da Chibata

    O guarda (vestido à paisana) saiu em disparada para ajudar a vítima, e pediu que seu companheiro de corporação, o GCM Raulino Nunes de Azevedo Filho, o acompanhasse. Os dois deixaram o prédio da Câmara e rumaram em direção a uma pequena aglomeração de pessoas, na rua vizinha.

    Foi quando chegou a viatura da PM, com o sargento Thadeu Magno Silva Souza e o cabo Domingos Dias de Sousa. Ao ver o GCM Roberto Carlos, o cabo Dias disparou um único tiro de sua arma, uma pistola Taurus .40.

    Atingido na parte posterior no tronco, conforme mostram as fotos tiradas no Instituto Médico Legal (embora tenha sido divulgado erroneamente que foi na parte da frente), o guarda Roberto Carlos ficou jogado na calçada durante 30 minutos. Sem socorro algum.

    O hospital mais próximo, o Santa Marcelina de Itaquaquecetuba, fica a menos de 5 minutos de carro.

    Foto: Caio Palazzo/Ponte Jornalismo
    Familiares de Roberto Carlos na ALESP | Foto: Caio Palazzo/Ponte Jornalismo
    Nu e sem escamas

    Durante a meia hora que permaneceu no chão, o guarda sofreu hemorragia interna, que lhe causou a morte por anemia profunda. Morreu ao dar entrada no hospital.

    “E então, meu velho! Te deixaram nu e sem escamas? Sem espinhas, sem dentes?. Exposto ao riso de toda a gente? Não vão te esquartejar? Te exibir como palhaço? O tronco disforme, teu túmulo será o mar; as águas da Guanabara, o teu caixão… E as ondas do mar, o seu manto.”

    O trecho do musical “João Candido do Brasil – A Revolta da Chibata”, do Teatro União e Olho Vivo, foi lembrado por Osvaldo , o irmão do GCM morto. Ator amador, ele há tempos revolta-se com a permanência do racismo no Brasil. “E agora, infelizmente, a vítima foi alguém com meu próprio sangue. Meu irmão”, disse.

    João Cândido, o “navegante negro”, foi o líder e herói da Revolta da Chibata, de 1910m quando 2.400 marinheiros negros e mulatos rebelaram-se contra a aplicação de castigos físicos e torturas pelos oficiais brancos da Marinha. No auge do confronto, os amotinados ameaçaram inclusive bombardear a cidade do Rio de Janeiro, como forma de luta.

    Segundo um outro irmão, Vivaldo Ribeiro, que é guarda civil metropolitano em São Paulo, a abordagem dos PMs foi “obviamente errada em termos técnicos”. “Se antes de atirar eles o tivessem abordado, é claro que Roberto Carlos teria se identificado como GCM. O tiro nas costas demonstra que ele não oferecia nenhum risco aos policiais militares”, diz.

    Na versão dos PMs, eles estavam no plantão policial da Delegacia Central de Itaquá apresentando um flagrante, quando receberam a informação de que havia dois indivíduos armados roubando nas proximidades da Câmara Municipal. Saíram no encalço dos bandidos e cruzaram com o GCM Roberto Carlos. Armado, correndo, o GCM teria sido confundido com os ladrões e ele acabou morto –“infelizmente”, como registra o boletim de ocorrência assinado pelo delegado Eduardo Boigues Queiroz.

    “Trata-se de um caso de legítima defesa putativa, que é quando o indivíduo imagina estar em legítima defesa, reagindo contra uma agressão inexistente”, argumentou o advogado de defesa dos PMs.

    Casado há um ano e meio, alegre, entusiasta do futebol de várzea, Roberto Carlos era, além de GCM, professor de matemática em uma escola pública da cidade. “Ele tinha o sonho de crescer na vida”, lembra Vivaldo. “Falta humanidade na Polícia Militar. É preciso que a PM encontre os meios de tratar as pessoas de uma forma digna”, diz o irmão.

    Mais de 1.000 amigos compareceram ao enterro do GCM, querido em Itaquá. O pai é quem está mais devastado pela perda. Todos os dias, chorando, faz questão de esperá-lo no portão, mesmo sabendo que Roberto Carlos não chegará.

    O advogado Dojival Vieira disse que “o que houve aconteceu em Itaquaquecetuba foi um assassinato. Não foi um acidente. Quem atirou, no mínino, agiu com dolo eventual, que é quando se assume o risco de matar”, afirmou o advogado.

    Segundo a família do GCM morto, os dois PMs envolvidos na ocorrência não foram presos e encontram-se agora desempenhando “trabalhos internos”.

    Outro lado:

    No dia 26 de setembro, a reportagem da Ponte enviou à assessoria de imprensa da Polícia Militar o seguinte e-mail, solicitando informações sobre o caso. O número de protocolo da solicitação é o 9305. Até o momento, não houve resposta às oito perguntas.

    1. Em que pé está a investigação dessa ocorrência?

    2. Os dois PMs envolvidos na morte estão presos?

    3. Os dois PMs envolvidos na ocorrência já estiveram envolvidos em outros casos de “morte decorrente de intervenção policial”?

    4. Por que demorou tanto o atendimento médico à vítima?

    5. Por que o SAMU não foi acionado?

    6. Investiga-se a hipótese de omissão de socorro à vítima?

    7. O orifício de entrada da bala encontra-se na região posterior do corpo, logo, ainda que tenha sido confundido com ladrão, a vítima não ameaçava a integridade física dos PMs. Por que, então, ocorreu o disparo?

    8. Quando será feita a reconstituição dos fatos?

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