Jovem é preso após pedir ajuda de PMs na avenida Nove de Julho


Vítima contraria delegada e alega não ter reconhecido na delegacia o jovem que está preso no CDP do Belém
I. G. S., 19 anos

I. G. S., 19 anos

Uma noite de diversão de um menino caseiro, trabalhador e estudioso tem custado o sono de uma mãe e interrompido momentaneamente o sonho do garçom I. G. S., de 19 anos, em cursar engenharia no Mackenzie, uma das maiores universidades da capital. Preso no CDP (Centro de Detenção Provisório) do Belém há mais de um mês, a vontade em estudar na tradicional faculdade tem prazo: 19 de novembro, quando encerram-se as inscrições para 2016.

A mãe do garçom, que pediu que seu nome fosse preservado, afirmou à reportagem da Ponte Jornalismo que seu filho foi preso após pedir ajuda a policiais militares para encontrar ladras que o teriam roubado momentos antes. A versão oficial acusa I. de, junto com mais três adolescentes, armados com uma faca, roubarem um trio de jovens na rua Frei Caneca.

Uma das vítimas teria negado que I. tenha participado do roubo e desmentido a versão apresentada por PMs do 7° Batalhão da Polícia Militar de que todos foram detidos juntos.

Câmeras de segurança de uma casa noturna em que o garçom estava podem ajudar a provar que ele estava no local no momento do roubo. A presença de I. junto a seus amigos também é confirmada por um garçom, que os teria atendido no segundo andar da boate e que registrou em cartório o seu depoimento. A reportagem teve acesso a todos os documentos.

Prisão de I. pela versão oficial

Pela versão presente no Boletim de Ocorrência, número 7567/2015, elaborado às 3h35 do dia 5 de setembro, I. é acusado junto a uma dupla de adolescentes de roubo com uma faca e de corrupção de menores. O horário do roubo é uma incógnita, já que as vítimas relatam ter sido por volta da 1h, porém no registro do BO aconteceu às 2h18, ou seja, mais de uma hora de diferença. I. alega que entre à 1h e 2h20 estava em uma casa noturna no bairro do Bixiga. Além do horário, uma das vítimas alega que os PMs não falaram a verdade na produção do BO e que se sentiu pressionado na delegacia.

Na elaboração do documento, os PMs não mencionam o momento em que foram acionados pelo Copom. Não há também menção se a tal faca foi encontrada e apreendida. Segundo os policiais militares Ricardo Araujo de Lima, de 36 anos, e Rodrigo Marcolino Siqueira, de 30, lotados na 1° Companhia do 7° BPM/M, eles foram chamados pelo Copom para atender um registro de roubo na rua Frei Caneca, 720, na Consolação. Chegando ao local, as vítimas D. e R., ambos de 25, e C., 24, informaram que haviam sido assaltados por quatros homens, sendo um armado com uma faca.

Os PMs teriam colocado o trio na viatura e passado a percorrer vias da região central em busca dos assaltantes, até que, ao avistar um quarteto no cruzamento da rua Acaraú com Nove de Julho, as vítimas teriam apontado aqueles como os autores do roubo. Os PMs teriam encontrado junto ao quarteto o RG e o cartão bancário em nome de Rafaela. Após reconhecimento feito ali mesmo, contrariando normas legais, apenas o porteiro E., amigo de I., teria sido liberado depois de não ter sido reconhecido.

D. nega que a abordagem tenha sido feita dessa maneira. A vítima relata que os PMs teriam abordado os dois adolescentes em um ponto e posteriormente I. e Erisvaldo na rua Acaraú. “Os três não foram encontrados juntos, foram em ruas próximas”, disse Daniel, em mensagem que teria sido enviada para a advogada de I., Diana Cabral, desmentindo o B.O. elaborado com relatos dele próprio, das amigas e dos PMs Lima e Siqueira.

Daniel coloca a culpa por um provável erro no reconhecimento de I. por pressão do delegado e demora na confecção do Boletim de Ocorrência. “Esse realmente foi o cara q eu n. reconheci. Dificilmente alguém vai peitar um delegado e ficar mais de 4h na DP como ficamos”. A vítima informou que pretende ajudar a desfazer o erro. “Eu vou te ajudar Diana mas vou falar com o pai da minha amiga q é advogado e se for td bem eu te mando o email ainda hj. Ele não merece isso de forma alguma, deve ser uma das piores coisas”, finaliza. (A reportagem manteve o conteúdo original enviado por Daniel).

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Ao ser procurado pela reportagem, Daniel disse que havia sido orientado por um advogado a não fornecer detalhes sobre o ocorrido, mas confirmou que conversou com a advogada de I. e que espera pela audiência marcada para o dia 30 de novembro.

Vizinhos e colegas de trabalho, inclusive o gerente da churrascaria atestaram em documentos e disseram para a reportagem que o jovem é um “menino de ouro”, um bom rapaz, trabalhador e educado, não merecendo passar pelo que está vivendo. I. já teve um pedido de liberdade provisória negado e um habeas corpus ainda não analisado. Para a reportagem, a Polícia Militar informou que não faz reconhecimento. “Se houver solicitação de uma eventual vítima, num caso de flagrante delito e indicação de possível criminoso, apenas conduz as partes a uma delegacia, para que o reconhecimento seja feito lá. A elaboração do auto de prisão em flagrante depende da convicção do delegado.”

De acordo com a SSP (Secretaria de Segurança Pública), “a delegada Victoria Lobo Guimarães, titular do 78º DP, informa que o rapaz foi preso em flagrante após ser reconhecido com certeza por uma vítima. O preso foi levado para audiência de custódia na 17ª Vara Criminal e o juiz o manteve preso”.

Segundo o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, a prisão em flagrante de I. G. S. “foi convertida em prisão preventiva porque o juiz entendeu estarem presentes os requisitos que justificam a medida, entre os quais a garantia da ordem pública. Outro pedido para a revogação da prisão preventiva foi negado no dia seguinte, desta vez por uma juíza, pois, segundo a decisão, o acusado foi reconhecido pela vítima. Essas duas decisões foram proferidas pelos juízes do Plantão Judiciário. Depois o processo foi distribuído para a 17ª Vara Criminal central e foi marcada uma audiência para o dia 30 de novembro”.

Para a reportagem, a mãe de I. disse que recebeu a informação dos responsáveis pelos dois menores acusados pelo roubo, de que eles foram liberados após uma audiência no final da última semana. As vítimas teriam entrado em contradição e um dos PMs afirmado que eles não estavam juntos no momento da apreensão. A Ponte Jornalismo não conseguiu confirmar a veracidade das informações em virtude de processos envolvendo menores de idade ocorrerem em segredo de Justiça.

Coração de mãe

Pela versão do jovem e do porteiro E., I. foi preso após pedir ajuda a policiais militares após ser atacado por ladras, que eram travestis, na avenida Nove de Julho. A versão dos jovens não consta no Boletim de Ocorrência. O jovem sorridente em fotos, nem ao menos conhecia os adolescentes que foram detidos consigo e estão na Fundação Casa.

I. morava com os avós em José Gonçalves de Minas, no interior de Minas Gerais, e está há sete meses na capital para trabalhar e cursar o ensino superior. Zelosa pela integridade do filho, D. conta para a reportagem da Ponte Jornalismo que não deixava o menino sair sozinho, principalmente pela violência na cidade e em virtude da sua cor de pele: I. é negro.

O coração de mãe não se enganou em relação à injustiça. Justamente em um final de semana que G., uma enfermeira e cuidadora de crianças e idosos estava em viagem a trabalho, seu filho logo após sair da churrascaria Tendal Grill, em que trabalha como garçom, aceitou o convite de um funcionário do prédio onde mora, para ir até uma casa noturna, a Kibexiga Show, na avenida Nove de Julho, 1.380, na Bela Vista, a poucos quilômetros de sua casa. Tímido, I. havia conhecido uma menina pela internet, e aquela ocasião seria a deixa para encontrar com a garota.

Segundo o relato da mãe do garçom e da advogada Diana Cabral, as câmeras de edifício mostram a hora exata em que o jovem deixa o prédio e se dirige até a casa noturna, 0h14. Junto com as meninas, Thaís e Claudiceia, e o porteiro E., I. deixa a balada por volta da 1h17 e segue para outro local, o Terraço Bis, na Praça Quatorze Bis, a menos de 200 metros do primeiro ponto; de lá, ele sai pouco depois das 2h.

Para a mãe e para a advogada, I. contou a mesma versão dada por E., inclusive, com seu amigo reconhecendo em cartório seu depoimento, que não foi levado em consideração pelos PMs e delegado.

Pela versão dos jovens, eles seguiam pela avenida Nove Julho próximo à rua Acaraú, quando foram abordados por duas ladras. O porteiro teria ajudado o colega a desvencilhar-se dos agressores e, quando já estavam próximos à rua Avanhandava, constataram que I. estava sem o celular. Com medo de contar para a mãe sobre a perda do aparelho, eles teriam ido atrás das ladras. Foi quando encontraram com a viatura dos PMs Rodrigo Marcolino Siqueira e Ricardo Araujo de Lima, lotados no 7° BPM/M (Batalhão de Polícia Militar Metropolitano). Os jovens teriam acenado para pedir auxílio quando, os PMs já teriam descido da viatura com arma em punho e acusando os jovens pelo roubo contra Daniel, Rafaela e Camilla.

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