Quantos Ricardinho são mortos pela PM?


Um ano depois, parentes e amigos ainda esperam justiça para o campeão de surfe Ricardinho, assassinado por um policial militar em Santa Catarina

Ricardinho

Ricardinho da Guarda, campeão catarinense de surfe. Foto: Facebook

Aline Torres (*), especial para a Ponte Jornalismo

Na casa de Luciane há um canto vazio.

Porção de quarto, antes dividida com os dois irmãos. Agora espaço de memórias, santuário de pranchas. Dizem alguns, quarto de filho morto deve ser desocupado! Mas o que fazer quando há vida pela casa? Nem é preciso fechar os olhos. Nas grades do portão enxerga o moleque arteiro, cinco, seis anos no máximo, a gritar, “ei moço, moço, vai surfar? Me leva também?” Menino danado se deixava levar por qualquer um! Mas também quem lhe faria mal? Não para o Ricardinho da Guarda! Nascido e criado num pequeno paraíso catarinense, a Guarda do Embaú, talhado pelo Rio da Madre, entre o mar e a Serra do Tabuleiro. Balneário do município de Palhoça, com menos de 400 moradores. Artesãos, pescadores, surfistas, pequenos comerciantes, gente que escolheu viver em paz.

Luciane pensa mais longe, no mar. Na lembrança, Ricardinho sendo levado pelo primo para as primeiras ondas. O menino com sua bodyboard queria prancha maior. Nasceu para provar valentia, era o primogênito. Sendo o orgulho da família, tentava suprir a ausência do pai, não que o pai estivesse morto, apenas não o quis. Nunca o procurou. Na verdade, o pai o procurou quando o filho estava em coma no hospital. Era tarde.

Se não tivesse abandonado o filho, teria ouvido uma porção de glórias. Desde 2008, Ricardinho participava da Liga Mundial de Surfe. Queria as ondas gigantes pesadas tubulares. No mar, Andy Irons foi o modelo. Na vida, a mãe, Luciane.

A carreira começou para valer em 2012. Em Teahupoo, no Taiti, eliminou Kelly Slater — 11 vezes campeão mundial –, o australiano Taj Burrow e só caiu diante de Mick Fanning. Terminou na quinta posição, mas levou para casa o prêmio Andy Irons Forever, por ter feito a apresentação mais inspiradora. Honraria tão importante, troféu com nome do ídolo. No ano seguinte, foi o primeiro brasileiro premiado no Wave Of The Winter pela melhor onda surfada durante a temporada havaiana. Em 2015 foi selecionado entre centenas para competição de abril em Carcavelos, Portugal.

No quarto, troféus, fotografias, o cheiro do filho nas roupas. Luciane percorre. Por quanto tempo ainda sentirá o filho? Por quanto tempo sentirá? O quarto dói, a cidade dói. Ricardo Dos Santos, 24 anos, assassinado há um ano por um policial militar.

A vida de Luciane para sempre um canto vazio.

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Foi tão rápido. Mauro da Silva tem fresco na memória. Ele e o sobrinho Ricardinho acordaram cedo. Era segunda-feira, dia 19 de janeiro, levavam as ferramentas para restaurar o encanamento da casa do avô Nicolau, que foi o pai do surfista.

Um dia antes ele propôs para o avô, “pai, você vai ficar velhinho e não vai mais conseguir consertar, quero aprender, assim faço quando você não puder”.

Trabalhavam quando o C4 prata estacionou em frente à obra. Eram dois, estavam bêbados. O mais novo desceu do carro para urinar. O outro envenenou o som do automóvel, pegou mais bebida, sentou no capô. Mauro viu o sobrinho se aproximar dos caras, três minutos de conversa. Ele pediu para que saíssem, tinham muitas famílias e crianças ali, não era lugar pra zoeira. Não teve discussão. Os homens concordaram, entraram no carro. Mas, antes de arrancar o policial Luis Paulo Mota Brentano, do 8º Batalhão de Joinville, deu três tiros em Ricardinho. Nas costas. Perfurou baço, fígado, pâncreas e intestino e fugiu.

Homenagem a Ricardinho na praia Guarda do Embaú. Foto: Facebook

Mauro ficou paralisado. Era verdade? “Tio! Faz alguma coisa, anota a placa, pelo amor de Deus”, foi a última frase que ouviu do sobrinho.

No Hospital de São José, Luciane, abraçava amigos e parentes. O pior já passou, repetia. Não, o pior viria com força. Nenhuma das quatro cirurgias controlou as hemorragias. Às 13h, do dia 20, Ricardinho teve uma parada cardíaca, morreu. Mauro lembra os gritos de Luciane. “Não é verdade! Por que com meu filho? Ele é tão bom!”

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Luis Paulo Mota Brentano, 25 anos, foi preso poucas horas depois de atirar. Estava escondido numa casa alugada pelo pai para a família passar as férias, na Praia da Pinheira, pertinho da Guarda. O menor de idade, comparsa no crime, é seu irmão. Levado para Unidade Militar respondeu o de praxe: foi legítima defesa.

A nota oficial da PM veio na proteção do assassino– chamou Ricardinho, internado na UTI de “suposta vítima”. O policial militar, que já foi réu em quatro processos na Justiça Militar, nos quais foi absolvido, disse que o surfista o ameaçou com facão. A perícia não encontrou o tal facão.

Quando o óbvio foi perguntado, “legítima defesa vale para tiros nas costas, a menos de 60 cm, sem prestar socorro, pior ainda, tendo fugido?”, o discurso mudou. “Os tiros eram para assustar”, a defesa do PM alegou. O comandante-geral da Polícia Militar de Santa Catarina, coronel Paulo Henrique Hemm, falou em “mau exemplo” e disse ser esse um “caso isolado”. Ricardinho virou símbolo de injustiça e foi homenageado no desfile de carnaval do ano passado pela escola Unidos da Ilha da Magia. Enquanto seu carro “Tolerância, a onda que pode salvar vidas” entrava na avenida, a PM matava mais quatro em Florianópolis.

A PM catarinense matou 293 pessoas nos últimos seis anos. Metade dos agentes do Estado foi denunciada pelo Ministério Público por crimes militares neste período. O número poderia ser maior, mas alguns agentes respondem a mais de um inquérito. São 6.451 investigações para 11, 5 mil policiais: sendo 107 exonerações, apenas quatro por letalidade. O promotor Raul Rabello diz que as expulsões comuns são por peculato e corrupção. Matar é banalidade no Brasil: a cada dia seis morrem pela PM. O 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgou que, em cinco anos, 11.197 pessoas morreram por policiais no país, o equivalente a 30 anos de matança nos EUA.

Quantos Ricardinho?

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Luis Paulo Mota Brentano foi denunciado por muitos crimes. O pior é a tortura. Nos fundos da Central de Polícia de Joinville brincou de Adolf Hitler com um garoto de 20 anos. O promotor de Justiça Affonso Guizzo Neto falou pessoalmente com o soldado para que ele trabalhasse apenas na administração. O Ministério Público de Santa Catarina solicitou ao comando militar seu afastamento operacional. Brentano continuou nas ruas, continuou armado. Assim como os policiais que torturaram covardemente um autista nas ruas de Blumenau no início do ano passado. Indefeso, obrigado a segurar um cão policial, o homem foi espancado, sem motivo, por prazer. Foi tão grande o estrago que a Samu o recolheu para internação hospitalar. Os policiais? Na ativa.

Igualmente não perdeu sua arma o policial que matou Doglas Vogel, 22 anos. O jovem e a amiga ouviam música alta no som do carro, em São Miguel do Oeste, quando foram abordados. O policial disparou com uma espingarda calibre 12. Doglas morreu na hora. O policial justificou dizendo que se confundiu. Achava que a espingarda estava munida com balas de borracha.

Já Anderson de Matos, 32 anos, deveria ter sido internado. O Samu (Serviço Médico de Urgência) foi convocado ao bairro Aririú, em Palhoça, para conduzir um esquizofrênico. Chamou a PM para auxiliar, mas, como ele não cooperou, foi morto. O policial que efetuou o disparo foi submetido a tratamento psicológico.

Não há data para o julgamento final de Luís Paulo Mota Brentano. Ele é acusado por homicídio triplamente qualificado e embriaguez ao volante. Dia 17 de julho de 2015 foi expulso da corporação, após seis meses de trâmites do processo. Sua defesa recorreu duas vezes, mas teve os pedidos negados. Mesmo expulso, o ex-PM permanece preso no 8º batalhão, em Joinville, onde trabalhava, para “proteger sua integridade física”.

Em dezembro o Tribunal de Justiça negou o recurso da defesa para escapar do Tribunal do Júri. Nesse julgamento quem decide é a sociedade, representada por sete jurados.

Placa inaugurada em 20/1 homenageia o surfista assassinado

Placa inaugurada em 20/1 homenageia o surfista assassinado. Foto: Facebook

A última movimentação do caso foi há 12 dias. Já que o ex-PM será alvo do julgamento popular, sua defesa pretende que a qualificadora de “motivo fútil” seja desconsiderada. Enquanto tramitar esse recurso, não será marcada a data do tribunal do júri.

Para Luciane a prisão do assassino não trará alívio. A cada canto é uma dor. “Não sinto mais prazer em morar aqui. O Ricardinho está no mar, nas trilhas, no centrinho. Essa presença me machuca. Quero meu filho, mas não posso tê-lo”.

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Em 20/1, dezenas de pessoas fizeram um círculo de saudações a Ricardinho. No mar. Quem tinha prancha foi remando, os outros foram de barco. Atravessaram o Rio da Madre, encontraram as primeiras ondas, choraram e rezaram pelo amigo. Em terra, foi celebrada uma missa e inaugurada uma placa no centrinho da praia da Guarda em formado de prancha. A Prefeitura de Palhoça encaminhou projeto de lei à Câmara Municipal para transformar o dia trágico em dia do surfista.

(*) Aline Torres é jornalista

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