7 fatos difíceis de explicar na morte de 2 pichadores

01/09/14 por Fausto Salvadori

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 Saiba o que a polícia ainda precisa esclarecer na morte de Alex e Ailton. Advogado diz que PMs agiram em legítima defesa

Amigos e familiares protestam contra a sentença da juíza Débora Faitarone que inocentou cinco policiais militares envolvidos na morte dos pichadores Alex Dalla Vechia e Ailton dos Santos | Foto: Sérgio Silva /Ponte Jornalismo.

Na semana passada, a Justiça Militar libertou quatro policiais militares que mataram os pichadores Alex Dalla Vechia Costa, 32 anos, e Ailton dos Santos, 33, em 31 de julho.  O juiz corregedor do Tribunal Justiça Militar do Estado de São Paulo entendeu que os policiais podem responder em liberdade e afirmou haver elementos  que “dão sustentação à versão dos indiciados, de que agiram em legítima defesa própria, ante os disparos efetuados pelos dois indivíduos que invadiram o edifício de apartamentos”.

Os PMs afirmam que Ailton e Alex estavam armados e invadiram um prédio na Mooca, na região central de São Paulo, para roubar. Já amigos e parentes dos pichadores defendem que eles foram executados.

Ponte levantou 7 pontos da história que parecem não se encaixar na versão oficial e ouviu o advogado dos policiais, o ex-PM João Carlos Campanini, sobre cada um deles.

As vítimas disseram que iam ao prédio para pichar.
Na tarde 31 de julho, Alex enviou mensagens aos amigos, via Whatsapp, em que contava que iria pichar um prédio à noite e chamava os parceiros para irem junto. “Vai fazer o que hoje? Vamo pichar?”, ele pergunta numa mensagem de áudio.  “Tras tinta” (sic), pede no celular.

Ouça o recado de Alex no Whatsapp

O que diz o advogado.  Segundo João Carlos Campanini, as mensagens não comprovam que as vítimas pretendiam pichar o condomínio. “Podem ser gírias de ladrão. Eles parecem estar combinando roubar o prédio”, afirma.

[dropcaps round=”no”] 2[/dropcaps] Alex e Ailton adotaram o mesmo procedimento de outras ações de “pixo”.
Na noite em que entraram no Windsor, um condomínio de 19 andares na avenida Paes de Barros, os 2 passaram pelo porteiro agindo como se fossem moradores e subiram para o último andar do prédio. O procedimento é o mesmo que Alex costumava usar para pichar prédios, como ele próprio mostra para o repórter Marcelo Guedes, da Rede TV!, no vídeo abaixo, gravado em 2009.

O que diz o advogado. Campanini afirma que a PM não encontrou provas de que a dupla tivesse ido ao Windsor para pichar. “Eles ficaram uma hora no interior do prédio, mas não há indícios de que tenham feito alguma pichação. A polícia também não apreendeu com eles nenhum material usado para pichar”, afirma.

Ninguém, além da polícia, viu os pichadores armados.
Entrar no prédio, sacar as armas e render o porteiro é uma estratégia padrão em roubos a condomínio. Alex e Ailton não fizeram nada disso. Apenas passaram pelo porteiro e pegaram o elevador. O zelador que flagrou a dupla no 18º andar também negou, em seu depoimento à polícia, ter visto armas com os pichadores.

O zelador foi liberado pela dupla e chamou a polícia.
Se os 2 pichadores estavam armados com um revólver 38 e uma pistola 380, como afirmam os PMs, é fácil imaginar que, se fossem surpreendidos por um funcionário do prédio, usariam as armas para dominá-lo e impedir que chamasse a polícia. De novo, não foi o que aconteceu. Após conversar com a dupla na entrada do seu apartamento, no 18º andar, o zelador não teve nenhum problema para descer as escadas e ligar 190.
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O que diz o advogado. Sobre Alex e Ailton não terem rendido o porteiro, nem o zelador, Campanini reconhece que “pode parecer algo estranho”. “Como morreram, não dá para saber ao certo qual era a intenção dos dois”, afirma. “Pode ser que eles tivessem a intenção de entrar sorrateiramente no prédio para cometer furtos e só usar as armas em último caso.”

O tenente Danilo Keity Matsuoka, 28 anos, o sargento Amilcezar Silva, 45, e os cabos André de Figueiredo Pereira, 35, e Adilson Perez Segalla, 41, chegaram ao condomínio Windsor por volta das 18h40, mas só 50 minutos depois comunicaram a morte dos pichadores ao Copom (Centro de Operações da PM). Na versão deles, Alex e Ailton estavam no apartamento do zelador, no 18º andar, e foram mortos ao atirar contra os policiais.

O que diz o advogado. Segundo Campanini, antes de chegar ao 18º andar os policiais vistoriaram os andares de baixo para cima, batendo em portas e conversando com moradores em busca de suspeitos. “A PM tem procedimentos que precisam ser seguidos”, afirma.

Quem atirou no sargento?
Os policiais defendem que houve um tiroteio e que o sargento Amilcezar foi baleado pelos pichadores no cotovelo. Um laudo do Instituto Médico Legal vai definir de qual arma partiu a bala que o atingiu.

O que diz o advogado. Campanini não descarta a hipótese de que o sargento tenha sido baleado acidentalmente por um de seus colegas. “É possível que ele tenha sido ferido por um outro policial, porque quase caíram um em cima do outro quando entraram no apartamento.”

Segundo o Boletim de Ocorrência, os PMs levaram 4 horas para se apresentar no 56º DP (Vila Alpina). A demora mereceu uma reclamação do delegado, registrada no documento.

O que diz o advogado. Segundo Campanini, a demora não ocorreu. “Quando os policiais comunicaram o Copom, também avisaram a Polícia Civil, a Corregedoria da PM e o Instituto de Criminalística”, afirmou.

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