“A cara dos policiais quando viram o que tínhamos com a gente é impagável”

Depoimento de um dos 21 jovens presos pela PM durante a manifestação contra o governo Temer no último dia 4, em São Paulo

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Por Filipe Faria, especial para a Ponte

Na manhã da sexta-feira fui acordado por uma mensagem de uma amiga minha que tem trabalhado muito na luta social por meio do estudo da história da habitação social no Brasil. A mensagem continha o link do editorial da Folha de São Paulo. Fiquei puto. “Chamando a gente de fascista?” Não foi só isso, foi uma súmula de expressões até que engraçadas: “anarcoide”, “soldados da arruaça”, “grupelhos extremistas”. Porra, gente letrada que consegue dizer uma sopa de chorume pela escrita é um caso pra ser repreendido de uma maneira bem enfática.

Sábado, dia de descanso e cerveja. Dia de compartilhar os relatos. Me encontrei com outras quatro pessoas e conversamos, já sabendo que no domingo o ato seria grande, muita gente, várias bandeiras e esse ato deveria continuar sendo pacífico. Rolou a história de juntar gente com o mesmo objetivo, gente que eu não conhecia, mas confiei, afinal, o que poderia dar errado?

Na noite de sábado decidimos, por meio de um fórum digital, nos encontrar pra conversar antes do protesto, no Centro Cultural São Paulo, na estação Vergueiro do Metrô, fazer um lanche e depois caminhar pela Paulista até o Masp. No domingo, mal fizemos a roda, sentados, quando a maioria do grupo tinha chegado e fomos cercados por policiais que surgiram dos arbustos, dos bueiros, do céu.

Tínhamos deixado todos os celulares juntos, desligados, para não nos distrairmos e sabendo que a tecnologia pode ser uma dádiva, mas nas mãos erradas pode gerar consequências nefastas. Eu só pude pensar que a coisa tinha fedido bastante quando vi nove viaturas, motos e um helicóptero. Eram três horas da tarde. A manifestação, protesto, ato, como quiserem chamar, aconteceria apenas às dezesseis e trinta.

Fiquei ao lado do meu irmão, isso me deu mais forças, fazia já um tempo que enfrentávamos a vida juntos, na merda ou nos brindes de celebração na Augusta. A cara dos policiais quando viram o que tínhamos com a gente é impagável. Nada era digno de incriminação. Tanto que plantaram, na maior cara de pau, uma barra de ferro, dizendo que era de um dos membros que nem sequer tinha mochila. Como um cara ia pegar o metrô/ônibus com uma barra de ferro azul? Pelo amor da ficção, os caras tem assistido muito CSI [“Crime Scene Investigation”], se empolgaram.

Eu estava mascando um chiclete xexelento e fazendo bolinha. Isso encheu de fúria um policial que tinha no rosto uma expressão de estar com gastrite, falava com uma voz empapada e um olhar que procurava ser ameaçador mas apenas conseguia me fazer sentir pena, pois ele é a ponta de um sistema de segurança pública falido, onde a regra é obedecer e não se permitir indagar, questionar, duvidar. Uma réplica titeresca.

Pessoas se assomaram nas janelas dos edifícios do entorno, meu irmão e eu ficamos piscando e mandando beijos quando tínhamos certeza que nenhum policial estava vendo nada. Ficar parado de pé que nem monumentinho da Rotary, era uma piada.

Separaram o grupo em dois: os que tinham “algo suspeito” e os que tinham nada. Eu fazia parte do grupo que tinha algo suspeito. Eram quatro pessoas. Na minha mochila haviam duas máscaras de pintor que não escondem a cara por completo, só a boca e o nariz, o livro do Joaquim Nogueira, um maço de cigarro Winston, fones de ouvido, meu chaveiro do pateta, com as chaves de casa, um caderno, uma caneta esferográfica, uma camiseta azul e uma garrafa de vinagre de maçã. Dos vinte um, tinha um cara que não era do grupo e foi pego do nada e sentimos falta de outro membro que não ficou conosco quando entramos no camburão e no ônibus. Depois saberíamos quem era ele e porque ele não estava lá.

Os quatro “perigosos” viajaram em camburões Hilux novinhas e limpinhas. Separados do grupo, cada um em uma, sem algemas. Aquilo era tão surreal que eu fazia gestos de tchau para as pessoas que me viam com uma cara de espanto quando parávamos no farol, parecia não haver tanta pressa, cada um tem o desfile que merece.

Fui o último a chegar no Deic [Departamento Estadual de Investigações Criminais]. Vi todos os outros membros do grupo alinhadinhos na garagem dos fundos. Um montão de policiais, alguns vestidos sem farda e com aqueles apetrechos que parecem medalhas olímpicas penduradas no pescoço. Gravavam vídeos, tiravam fotos à vontade. Sorri quando vi os outros, gente que tinha acabado de conhecer e já estava sendo presa comigo.

Fui o primeiro a ver o delegado. Ele me falou que não era pra olhar pra cima porque não estava passando avião, pensei em retrucar que estava passando avião sim, o Campo de Marte era ali do lado. Ainda bem que fiquei quieto. O que se passou nos corredor e nas duas salas do Deic, fica parte suprimido, mas foi agoniante, uma ditadura velada com simpatias e tocas de favores. Parecia que os próprios subordinados da burocracia da segurança pública tinham percebido que tinham em mãos uma bucha quente, difícil de segurar, porque não havia por onde nos acusarem.

De dentro, vimos o sistema um pouco desesperado. Ficamos desesperados também, supondo muitas coisas, sendo ameaçados de diferentes maneiras, dormindo naquele corredor com cheiro de chulé, frio. Nos deram metade de um frango frio pra comer e depois perceberam que isso não seria suficiente. Pediram pizza e quando ela chegou teve gente do nosso grupo que aplaudiu os policiais. Olhei pra a galera que estava do meu lado, espantado, “aplaudir a polícia?!”. Mais tarde uma menina chegou perto do grupo que aplaudiu e deu um sermão bem curto, mas com “sangue nos zóios”.

Quando fui assinar um calhamaço de papéis descrevendo a acusação pela qual eu devia responder, fiz a besteira de me despedir da sala dizendo para a escrivã “Já assinei tudo, rainha”. A escrivã se irritou profundamente, “Rainha é o caralho! Mais respeito! Não vem dar uma de engraçadinho”. Até uma expressão desse jeito é complicada de usar, tive que ficar ouvindo um sermão sobre respeito à autoridade. Mal sabe ela que “rainha” é uma coisa boa.

O corredor do Deic foi um abraço ambíguo, uniu muito os que se encontravam por lá, também fez a gente ficar mais atento, sabendo que demorou seis horas para vermos os advogados. Eu estava esparramado no chão, dormindo um sono descabido, quando chegaram o Suplicy, Ricardo Teixeira e Nabil Bonduki, fora o advogado Fábio Ruiz que eu tinha conhecido no protesto de sexta-feira, cabra valente que não mediu esforços. Lembro que acordei meio desesperado e pedi a palavra. Não sei porque cargas d’águas chamei o Suplicy de Sarney. Ricardo Teixeira me olhou e fez o gesto querendo dizer “não fode…”, pedi desculpas, afinal, eu tinha acabado de acordar meio estabanado, com a mente confusa. Eu sabia que o nome começava com “S”, papito. Teve um que falou entre os dentes “é tudo oligarca…”. Calma aí, chamar o Suplicy de Sarney é osso mesmo.

Conversamos muito com os advogados, as coisas foram alinhadas. Mandei um recado pelo Nabil Bonduki para o Zico, que era amigo dele e tinha sido meu professor. Sei lá se o recado chegou. Nenhum membro da minha família estava do lado de fora do Deic, melhor assim, só de pensar que as tias ficariam todas umas araras por conta dessa cena e ainda mais a mamãe, lá em Fortaleza, sem poder fazer nada, querendo vir pra cá, já me enchia com uma raiva espessa e borbulhante. São preocupações de uma família unida que podem atrapalhar a análise justa dos fatos.

O chá de chão era insuportável. Tinha um policial mais acessível que nos deixou fumar algumas vezes, mas seu turno foi até umas seis da manhã, depois ninguém mais podia espalhar fumaça. O povo começou a enlouquecer, começou a falar demais. Em um outro extremo, meu irmão ficou extremamente calado. Esse dia, quatro de setembro, dia da nossa apreensão, era aniversário de uma das minhas tias. O dia cinco, também era especial, aniversário de uma amiga querida. Fiz algumas anotações no caderno e, após dois investigadores lerem o conteúdo de cabo-a-rabo, me deixaram ficar com ele.

Delegacias são asquerosas. Aquelas paredes pintadas com um bege broxante, cor de lama seca, aqueles móveis de repartição pública, a cor que não é cor, é um cenário depressivo. Não é à toa que os caras tem um mal humor sufocante. Ouvimos por dois minutos uma música que vinha de uma das salas. Era a faixa “Chop Suey” da banda System of a Down. A gente se olhou e não acreditou. Um amigo disse “Cara, os milicos nem devem saber do que se trata a música e nem conhecem a banda, não pode ser possível!”. Era um ambiente tão contraditório que, aos poucos, começamos fazer piadas com a situação já que ficar olhando pro teto iria deixar a grupo numa ansiedade mais difícil de controlar.

Lá pro meio-dia do dia cinco, soubemos que iríamos dar um passeio no IML [Instituto Médico Legal]. O GARRA [Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos] e o GER [Grupo Especial de Reação da Polícia Civil] acompanharam. Era uma médica que iria fazer o “corpo-delito”, nome que acho interessante, me fez lembrar outro livro, “Adeus ao corpo” do David Le Breton. Antes de entrar na sala e ficar nu completamente, ouvimos o recado “nada de gracinha com a doutora”. Foi rápido. Entramos novamente no ônibus, onde ficamos esperando por mais um tempo, começamos a cantar alguns sucessos dos anos noventa na surdina. O ônibus ligou e fomos para o Fórum da Barra Funda, menos os menores, que foram para o Brás. Nessa história, dois casais ficaram longe de seus pares.

Ao chegarmos no Fórum, a comitiva passou diante do povo que nos aguardava. Nesse momento vi a dimensão da coisa. Com a mão levantada sorri. Parte dos que estavam no ônibus se esconderam, essas coisas que não dá pra entender, mais expostos do que já estávamos? Pra que baixar a cabeça? O tamanho real daquele Fórum, com suas escadas, labirintos, as celas. Nos inspecionaram mais uma vez pra ver se tínhamos algo. Quando descritas, essas sequências, que pareciam sair do livro “O processo” do Kafka, perdem um pouco do seu peso. Éramos presos e sobre nossos ombros o peso da incerteza: poderíamos responder em liberdade, ou não? Eu queria sair daquele Fórum, logo.

E foi assim que, alinhando o que deveríamos falar, nada mais do que a verdade irrestrita, divididos em três grupos de seis, prestamos um curto depoimento perante o juiz e uma porrada de advogados. A sala era pequena e o ambiente não era tenso, pelo menos pra mim. A justiça é ou não é, me vi confiando na defensoria civil, me vi confiando nos outros advogados que se dispuseram a nos defender, me vi novamente ao lado do meu irmão.

A verdade era real pra nós, pois nós sabíamos o que fazíamos quando fomos abordados. Quando o grande grupo recebeu em outra sala a decisão do juiz de responder ao processo em liberdade, tive a condição de celebrar em silêncio. Na porta do Fórum, esperamos que o grupo se juntasse e fizemos o jogral costumeiro das manifestações. Vi uma das minhas tias, que esperava com ansiedade pra nos tirar dali, mas não, espera, temos que celebrar.

Expulsamos aos gritos a Globo e o repórter com cara de purê de batata malfeito desligou o microfone e foi embora. Quando saí para a rua, outra comitiva nos esperava. Foi quando, sim, recebi os abraços de quem amo, de quem estava nos protestos lado a lado desde 2013, senti o afago e a confiança de que valia à pena continuar lutando sem as armas letais que a polícia deseja que carreguemos para dar motivos a essa onda de represálias arbitrárias. Mais uma vez me senti existindo para um propósito.

O descanso do dia seis de setembro veio por conta de estar com as pessoas que, de certo modo, acompanharam de longe. A família é uma faca de dois gumes nessas situações, é bom saber ouvir e não se precipitar a julgar, somente quando a coisa toma um dinamismo insuportável é que saio pra rua. Moro com meu irmão e os gatos. Meu irmão não estava em casa e tive uma reunião com os gatos. Estava com saudades deles. É um dom saber que não é somente gente louca que fala com animais, os três escutaram o relato, tim-tim por tim-tim, e foram eles que me viram andar pra lá e pra cá na sala, com medo dos próximos dias.

Não tinha mais o celular, eu estava hackeado e grampeado. Foi nesse momento que comecei a escrever esta releitura dos dias. Pedi para ficar na casa de uma amiga, poder usar a internet, tentar não ficar sozinho pra não ficar com a mente atrapalhada. Fui ver uma abertura de exposição na UNESP, o meu humor parecia um tumor pulsante, parecia que tudo era feio ou sem muito sentido. A arte por meio da poesia só, poxa, calma. Gostei apenas de algumas xilogravuras de grandes dimensões: mulheres posando com armas de fogo.

Consegui entrar na internet e no e-mail quando voltei para a casa da minha amiga. Vi a quantidade de informações, gente que se mobilizou, vídeos, fotos, fiquei boquiaberto vendo o tamanho da coisa. Quando vi já era dia sete, dia da Independência. Interessante, dia seis era dia do sexo e dia sete dia da independência.

Senti raiva porque eu não poderia ir na manifestação, evitar qualquer coisa que pudesse levantar suspeitas, algo que me acuse, ou acuse o grupo que chamamos de “WIFI e os vinte”, por conta do cara apreendido junto com a gente que estava perto do grupo procurando o sinal do wifi da internet livre da Prefeitura de São Paulo.

Nesse feriado de quarta-feira, que não dá pra emendar e também isso não faz muito sentido para um desempregado, me encontrei num bar com alguns integrantes do mais recente grupo criminoso de São Paulo. Pedi um copo de Velho Barreiro, olhamos com calma nos olhos dos outros. Sorrimos. Os relatos foram escapulindo pelos poros, era bom rever os diferentes pontos de vista, mesmo quando passamos por tudo aquilo juntos, saber deste detalhe, de um pormenor, de uma fofoquinha aqui e ali. Quando nos despedimos, duas horas mais tarde, no meio da rua, olhando pra todos os lados, torci para que eles chegassem bem casa. Torci também para que eu não ficasse paranoico.

Comentários

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2 Comentários

  1. uau!
    obrigada por estar nas ruas por nós!
    e VIVA A DEMOCRACIA!
    FORA DO PODER, BANDIDAGEM!
    PELA REFORMA POLÍTICA JÁ!
    Maria Lúcia, Ubatuba/SP, 55 anos

  2. Esperamos que isso não aconteça mais, nosso país um estado democrático de direito, temos liberdade de expressão. É inadimissível
    este tipo de conduta das autoridades…. agindo por “achismos”, marcando jovens para o resto de suas vidas.

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