‘A nossa existência não pode mais ser ignorada’

    A Ponte acompanhou dois espetáculos durante a Virada Cultural em SP e conta como foi a “Virada Cena Trans”, peça teatral feita por pessoas trans, e o “Show das Pretas”, que levou artistas negras ao palco do Theatro Municipal

    Drik Barbosa, As Bahias e a Cozinha Mineira, Linn da Quebrada e Jup do Bairro, e Luedji Luna no palco do Theatro Municipal| Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

    A Virada Cultural deste ano tinha uma programação imensa e diversa. Dezenas de palcos espalhados no centro de São Paulo e mais outros pelas periferias da cidade. Tinha espetáculo para todas as pessoas e gostos, desde palcos exclusivos de rap, rock, MPB e até axé. Mas dois espetáculos chamaram a minha atenção desde o começo.

    Ontem eu vi a história ser escrita. Ou melhor: reescrita. Como bem lembrou a cantora Luedji Luna, parafraseando a deputada estadual Erica Malunguinho (Psol-SP), a noite de sábado (18/5) e a madrugada do domingo eram uma reintegração de posse do povo preto, periférico e LGBT. Vi um palco cheio de pessoas trans retomando para si o lugar de fala para contar suas histórias, dirigidas por uma diretora trans. Vi um dos locais mais elitista, branco e heterocisnormativo da cidade receber mulheres negras, periféricas e travestis para retomar espaços construídos sobre sangue e suor negro. Vi o talento de cada uma daquelas pessoas que, mesmo lidando com o machismo, o racismo e a LGBTfobia diariamente, mantem seu carisma e força para mostrar, por meio da sua arte, que a história está sendo reescrita.

    Na noite de sábado (18/5), o CCSP (Centro Cultural de São Paulo), da Vergueiro, região central da cidade, trazia na programação da Virada Cultural um espetáculo com pessoas trans no elenco e na direção. Dias antes da peça, conversei com a dramaturga, atriz e poeta Ave Terrena, 27 anos, para entender o que viria pela frente e qual era a expectativa de mostrar ao público a “Virada Cena Trans“, seu primeiro trabalho como diretora cênica.

    Instigada pelo que Ave me disse, coloquei a peça como a primeira parada da Virada. O espetáculo foi gratuito e os ingressos começaram a ser distribuídos uma hora antes da apresentação, que estava marcada para as 21h. Com lotação máxima, um pouco depois do horário marcado, o público começa a descer para o Espaço Ademar Guerra, destinado para apresentações teatrais experimentais. Como me disse a diretora em entrevista, a peça aconteceria nas estruturas do CCSP. E foi como aconteceu, o local destinado para o espetáculo era o subsolo do Centro Cultural. Sem palco, arquibancadas foram montadas para que o público tivesse uma visão de cima para baixo e pudesse ver tudo o que rolava no chão.

    Assim que entramos, os artistas já estavam posicionados em pé no que seria o palco: Aretha Sadick, Leona Jhovs, Neon Cunha, Uma Pessoa e a dupla PamkaPauli. Quando todas as pessoas que lotavam aquele espaço se acomodaram, todos sentaram para dar espaço para a primeira performance da noite. O espetáculo foi político do começo ao fim, mostrando a vulnerabilidade dos corpos trans, a luta pela existência, o respeito as identidades e mostrando que o afeto também é uma luta dessa população.

    Neon Cunha, importante nome do transativismo, naquela noite era N.A.C., estava sentada e estava coberta da cabeça aos pés, com uma roupa preta, sentada sob um plástico que trazia a ideia do sangue derramado. Enquanto isso, o telão trazia imagens de mulheres transexuais e travestis assassinadas no Brasil, desde a década de 80 até os dias atuais. A performance política, chamada de “Silêncio”, comoveu o público. Representando os assassinatos de pessoas trans, dos quais o Brasil está no topo da lista no ranking mundial.

    N.A.C. durante performance “Silêncio”, com a imagem de Matheusa, jovem não-binária morta em 2018 | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

    Na sequência foi a vez da dupla PamkaPauli, formada por Pam de Mel e Pauli, não binários transmasculinos, ou, como eles se intitulam, “boycetas”. A performance musical trazia elementos do rap e do funk nas três canções autorais. As músicas interpretadas pela dupla eram um soco nos padrões heterocisnormativos da nossa sociedade, mostrando que, além de ser homens trans, eles representam, acima de tudo, a luta contra a masculinidade tóxica do machismo estrutural.

    Depois, Uma Pessoa, artista travesti, ocupou o posto de instrumentista da peça. Ela acompanhou o número musical de Leona Jhovs, que relembrou como a cisgeneridade (padrão de que todas as pessoas devem ser cisgêneras, ou seja, se reconhecer com o gênero de nascimento) é responsável pela marginalização dos corpos trans. “Mas quem é que segrega aqui e quem é que tem o corpo interditado aqui” questionou Leona ao público.

    Uma Pessoa assumiu os microfones quando Leona saiu do palco e interpretou canções de autoafirmação, todas compostas por ela, que mostravam sua luta enquanto pessoa trans, negra e periférica. Extremamente aplaudida pelo público, Uma Pessoa surpreendeu pela habilidade instrumental tocando diversos instrumentos enquanto cantava.

    Para finalizar a noite, foi a vez de Aretha Sadick, em uma performance teatral que concentrou toda atenção do público. Aretha contou a história de Ariel, um menino que percebia ser diferente dos demais, mas que não sabia como lidar com essa situação. Decidiu, então, procurar a Deusa dos Raios e Trovões para encorajá-lo e dar-lhe o superpoder de ser quem sempre foi. Uma metáfora sensível e profunda do momento em que uma pessoa se descobre transexual e, por causa dos padrões normativos da sociedade, não sabe como dar o primeiro passo.

    Aretha Sadick durante performance como a Deusa dos Raios e Trovões | Foto: Caê Vasconcelos-/Ponte Jornalismo

    “Virada Cena Trans” mostrou para o público, que era majoritariamente cisgênero, que pessoas trans são mais do que capazes de liderar e interpretar peças teatrais que, além do lado cultural, pode ser repleta de política e sensibilidade. Não à toa os artistas foram aplaudidos de pé ao fim do espetáculo e diversas vezes foram recebidos com longas salvas de palmas durante a peça.

    Horas mais tarde, com o horário marcando 1h da madrugada do domingo (19/5), cheguei ao Theatro Municipal, um espaço que ainda é muito elitista, branco e heterocisnormativo, para ver mulheres negras, periféricas e travestis: As Bahias e a Cozinha Mineira, Luedji Luna, Drik Barbosa e Linn da Quebrada, ao lado de Jup do Bairro.

    A fila estava tão grande que achei que não conseguiria entrar. Mas, no horário marcado para começar o espetáculo, pela primeira vez, meu corpo periférico e LGBT adentrava naquele espaço. Com o “Show das Pretas”, a reintegração de posse foi feita naquela noite. E o público certamente foi o mais plural e diverso que aquele espaço já viu. Mulheres negras, pessoas periféricas e LGBT eram maioria.

    Assucena Assucena e Raquel Virgínia, vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, foram as primeiras a se apresentar. Os primeiros corpos travestis e negros a pisar naquele palco em um show histórico. Raquel gritou ao microfone que era chegada a hora de respeitas as travestis e fez questão de lembrar que saiu do Cocaia, um dos bairros do Grajaú, periferia do extremo sul de SP, para ocupar naquele espaço. Aplaudidas de pé, as cantoras chamaram a próxima convidada: Luedji Luna.

    Natural de Salvador, a cantora Luedji Luna é um dos maiores nomes da nova geração musical liderada por mulheres negras. Com letras construídas com batidas e elementos que remetam as religiões de matrizes africanas, Luedji lembrou uma das falas mais ditas pela deputada estadual Erica Malunguinho, afirmando que os shows da noite eram uma reintegração de posse, já que suor e sangue negro estavam na construção do prédio histórico do Theatro.

    Na sequência, foi a vez da rapper Drik Barbosa. Com um arranjo diferente dos beats do DJ Faul, que costumam compor os shows de Drik, a rapper entonou seus versos e rimas que falavam da luta da mulher negra e periférica. Drik também fez questão de apresentar “Inconsequente”, sua canção romântica do disco “Espelho“, para reforçar que falar de amor também é um ato político, já que mulheres negras foram ensinadas a ser fortes e tiveram o amor renegado por muito tempo.

    Para fechar a noite com chave de ouro foi a vez Linn da Quebrada. Sem dúvida o show de Linn foi o mais político da noite, isso porque suas canções trazem esse tom de afronta. A bicha travesti, como ela mesma se intitula, entonou, em alto e bom som, canções como “Bixa preta” e “Enviadescer”, ambas músicas trazem, se censura, a luta da travesti preta e pobre se afirmando enquanto corpo político em uma sociedade patriarcal e transfóbica. “Se quando se dizia viado já causava desconforto, imagina depois que quebrou a porta do armário e se reconheceu como travesti”, disse Linn da Quebrada sobre a sua trajetória.

    Ao lado de Linn, estava Jup do Bairro, que sempre divide o palco com ela, para trazer o funk para o palco do Theatro. Depois dessa noite, disse Jup durante apresentação, “a nossa existência não pode mais ser ignorada”. Tati Quebra-Barraco e Ludmilla foram algumas canções interpretadas. Jup, chamando todas as pretas de volta ao palco, menos Luedji que tinha outro show na sequência, fez uma releitura de um dos funks mais antigos e importantes da cena: “Eu só quero é ser feliz”, dos funkeiros cariocas Cidinho & Doca.

    “Eu só quero é ser feliz andar com as bicha, as sapa e as travestis; e poder me orgulhar e ter a consciência de que juntas vamos abalar. Eu só quero é ser feliz com as travestis e poder me orgulhar; e ter a consciência de que juntas vamos abalar”, entonou Jup na nova versão da canção.

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