A política do faz de conta

Quando a política é conduzida por bufões, vence o senso comum que não tem coragem para identificar os verdadeiros problemas do Brasil

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Talvez não exista em política nada mais perverso e indecente do que banalizar as questões fundamentais da vida pública. Instrumentalizar os dramas sociais para tomar impulso eleitoral. Manipular o sofrimento alheio para ganhar um punhado de votos.

Nestes últimos meses temos assistido, horrorizados, a debates escandalosamente simplórios sobre a redução da maioridade penal, com espaço até para artimanhas inconstitucionais. A política da pior estirpe em cena. Deputados utilizando o discurso do medo para subir nos degraus eleitorais. A Casa do Povo, lugar onde o único elemento sagrado não deveria ser o crucifixo e sim o respeito à coisa publica, transformada em circo.

Quando a política de segurança pública é conduzida por bufões, por homens autoritários ou simplesmente por sujeitos que desprezam a sociedade, vencem a intolerância e o fundamentalismo. Vencem a estupidez e a canalhice. Vence um perigosíssimo senso comum que não tem coragem para identificar os verdadeiros problemas de Brasil e seus verdadeiros algozes. Vence a morte sobre a vida.

Redução da maioridade penal, encarceramento em massa, revogação do estatuto do desarmamento, endurecimento da política de drogas. Propostas desastrosas, feitas desde a ausência de debate ou desde debates ridículos, que infantilizam a sociedade, fomentando seus medos e seus ódios.

Não podemos tolerar mais um país que mata seus jovens. Que mata seu presente e seu futuro com a conivência dos “homens de bem” e dos que ocupam as sombras e os becos poder.

O mínimo exigível aos que nos representam é que tenham a dignidade de tratar a segurança pública, a vida e a morte, com respeito, com conhecimento, motivados por algo maior que estratégias personalistas. O Congresso não pode ser o lugar do ridículo, que faça o brasileiro sentir vergonha ao escutar certos discursos, ao observar certos comportamentos. Não pode ser o lugar do retrocesso, votando leis retrogradas que legitimem e fomentem a desigualdade num país já corroído por ela. Não pode ser o lugar da violência.

A política do banal, que reduz sem pudor as tragédias sociais a brinquedos, a vida a votos.
A política do espetáculo, grandiloquente, apelativa, mas que só deixa vazios e buracos escuros por trás de toda sua dramaturgia. A política do conservadorismo fundamentalista, que impõe a punição, o Estado penal, a prisão, a polícia como formas absolutas de resolver os conflitos.

A política que pensa a vida das periferias como esmola e não como direito.

Não. Não à política medíocre que trata a segurança pública como mero captador de votos.
Não à violência institucional que começa com debates mesquinhos e leis degradantes e injustas.
Não aos sujeitos tenebrosos que hoje dominam o Congresso.
A vida não é esmola. É direito.

Esther Solano Gallego é doutora em Ciências Sociais e professora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

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