‘Agora posso sonhar’, diz empregada doméstica graduada em Letras aos 56 anos

09/03/19 por Especial para a Ponte

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Mulher negra e periférica, Geni de Oliveira se alfabetizou aos 18 anos e, aos 56 anos, realizou o sonho de conquistar o diploma universitário

Aos 56 anos, Geni conquistou o sonho e se graduou em Letras | Foto: Mariana Ferrari/Ponte Jornalismo

O silêncio é um estado, escolhido ou forçado. Pode dizer como pode invisibilizar. Até os 56 anos, Geni de Oliveira era água, líquida e transparente. Desde muito nova, ela aprendeu que seu lugar era silenciar. Aos nove anos, a menina de pele negra se viu em fuga. Fugia por medo. Mas também fugiu de si.

Cercada por violência e álcool, a figura do pai era um tormento, um pavor. Em uma pequena brecha na noite de 1970, a pequena Geni, aos nove anos, viu na fuga de casa sua liberdade. Fugiu. Correu ao lado das irmãs. Não aguentava os impasses de um pai alcoólatra. Incontrolável. Violento. Ao cruzar a porta, Geni deixaria de ser a criança apavorada, que morava na periferia de Osasco, para dar espaço a mulher da casa, dos outros.

Era meia-noite quando a mãe encontrou as três filhas, que se separaram em busca de dinheiro e abrigo. Com o histórico escolar apontado até a segunda série, Geni começou a trabalhar como empregada doméstica. A mãe, experiente no ofício, pôs o trio de meninas na mesma função.

Geni, que saiu de seu lar buscando paz, se sentiu sobrando no mundo. Queria falar, questionar, estudar. Mas não pode. “Você tem que ocupar o seu lugar”, diziam. Uma vez, aos 12 anos, foi surpreendida pela patroa: “Geni, você vai ficar para sempre com a gente. O patrão completou: “Então, vamos colocá-la na escola?”. “Não, é impossível, ela não tem tempo de estudar”, finalizou a dona do lar.

De nada adiantou as negativas. Pulando de casa em casa, a menina vivenciou a diversidade. Viu culturas e religiões. O que não desconfiavam era que a empregada doméstica invisível tentava, sozinha, formar frases. As letras eram para si desenhos. O “a” minúsculo em letra de forma era algo “lindo”, relembra.

Os jornais e as revistas que não serviam mais para os patrões era uma forma de Geni modelar a vida. De noite, no quarto da empregada, ela pegava um papel e redesenhava as letras. Quando não conseguia, colocava um papel em cima e copiava. Assim, ela aprendeu a formar frases e orações. Já havia completado 12 anos quando se apaixonou pelo alfabeto.

Foi assim, em um jornal desperdiçado pelos donos da casa, que Geni viu uma oportunidade. Uma vaga de servente em uma metalúrgica. Aos 16 anos foi contratada e inaugurou uma nova fase na vida. Aos 17 anos, voltaria às salas de aula para completar a quarta série.

A vida, mais uma vez, a afastou das carteiras. Em busca da família que nunca teve, a jovem se casou aos 20 anos. “Na quarta série ainda”, brinca gargalhando. O sonho da família mais uma vez se tornaria fuga. Já mãe de duas crianças, Geni não suportava mais ser maltratada. Fugiu mais uma vez, cansada de sofrer. Alugou um barraco e ali ficou por dois anos. Até que o homem veio lhe pedir perdão e prometeu uma família de verdade. Ela acreditou. Engravidou pela terceira vez e continuava sendo maltratada. Fugiu. Mais uma vez.

Foi para o Jardim Jaraguá, bairro localizado no quilômetro 22 da via Anhanguera. Ali encontraria um anjo, como ela mesma diz. Se viu motivada com a ajuda da vizinha e voltou a estudar. Aos 33 anos, Geni passou a cursar a quinta série. A vizinha e comadre se propôs a cuidar da pequena Natalie enquanto Geni cumpria jornada dupla. “Entrava 11 horas no colégio para trabalhar, ficava até 19 horas. Das 19 horas até às 23 horas eu estudava”, conta.

Quando o mundo dos estudos ainda era só mais uma ilusão, Geni aproveitava as cadeiras vazias das salas de aulas e imaginava, sentada, ali nas carteiras, o dia em que aquela realidade fosse a sua. E foi.

Dentre idas e vindas, Geni se formou no ensino médio em 2000, acompanhada do filho José Ricardo, nascido em 1982, que já havia alcançado a mãe nos estudos. Com vergonha, ela pedia para o professor não falar sua nota em voz alta. Onde já se viu uma mãe com nota inferior ao filho? Ela preferia esconder. Aos 44 anos, Geni possuía o ensino médio completo. “Não precisava de mais nada”. Precisava.

Geni queria mais. Não havia percorrido todo esse caminho à toa. Passou, então, a fazer a prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) todos os anos para atualizar os estudos. Faculdade? “Nunca passou pela minha cabeça. É muita areia para o meu caminhão”. Mas, Geni aguentou toda essa areia sozinha aos 56 anos, contemplada pelo ProUni (Programa Universidade para Todos), se formou em sua paixão: Letras. “Pensei que tinha morrido e ido para outro plano”.

Hoje, prestes a completar 58 anos, no dia 31 de março, Geni de Oliveira continua sonhando com as salas de aula. “Agora eu posso sonhar”. Ainda assim, mesmo que sem conquistar um sonho, Geni morreria feliz. Grata por ter saído das cinzas e ter se tornado a luz. Também carrega consigo o diploma de pós-graduada, concluída aos 57 anos, em língua portuguesa e literatura e o título de poetisa.

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