Após reportagem da Ponte, alunos da USP se mobilizam contra homenagens a professor racista

13/04/21 por Beatriz Drague Ramos

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Estudantes querem mudar nomes de sala da Faculdade de Direito e de rua que celebram Amâncio de Carvalho, professor que mumificou Jacinta Maria de Santana

Jacinta Maria de Santana teve o corpo embalsamado por quase 30 anos na Faculdade de Direito da USP | Arte: Paulo Bruno

Na última semana, a Ponte publicou uma reportagem sobre as duas mortes de Jacinta Maria de Santana, uma mulher negra que teve o corpo embalsamado e exposto como curiosidade científica na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). O corpo mumificado de Jacinta foi utilizado em trotes estudantis no Largo São Francisco, por quase 30 anos, de 1900 a 1929. O autor do “experimento” foi o professor Amâncio de Carvalho.

Mais de um século depois, a pesquisadora Suzane Jardim, 30 anos, historiadora e mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do ABC redescobriu a história de Jacinta pesquisando jornais publicados por entidades negras ao longo do século XX, como explicou na reportagem. “Um texto de 1929, descrevendo o enterro de uma múmia, chamou a minha atenção. Senti um imenso desconforto, pois o caso me parecia surreal”.

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O desconforto sentido por Suzane reverberou na comunidade acadêmica do Largo São Francisco. Logo após a publicação da reportagem, estudantes do curso de direito começaram a buscar soluções para impedir que homenagens a Amâncio de Carvalho, Catedrático de Medicina Legal da Faculdade de Direito de São Paulo, continuem acontecendo, tanto como nome de rua de São Paulo quanto também dentro da própria faculdade, na nomeação de uma sala. 

Segundo a presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, Letícia Chagas, 21 anos, assim que a reportagem foi publicada os estudantes entraram em contato com professores e coletivos para dialogar sobre a retirada do nome de Amâncio da sala. “Foi a primeira vez, ao menos que eu tenho conhecimento, que tivemos informações sobre a história desse professor. Queremos tanto retirar o nome desse professor da sala que hoje o homenageia, quanto fazer alguma ação para homenagear a Jacinta”, diz. 

Suzane Jardim conta que graças a repercussão da reportagem, foi possível conhecer outros pesquisadores que já tratavam do caso da Jacinta em seus estudos. “Lívia Maria Tiede é uma das historiadoras que vem tratando o caso desde 2016 e foi muito importante para eu entender que esse não foi um elemento ignorado totalmente pela academia”.

Ela diz que percebeu o potencial que a história de Jacinta tinha enquanto elemento para escancarar o racismo brasileiro “que nos foi escondido ou simplesmente apagado como trivialidade”, observa. “Ver os estudantes se apropriando da história, principalmente os estudantes negros, é uma certeza de que a história de Jacinta não será novamente esquecida e creio que essa é a vontade de todos que já se debruçaram sobre a história dela. Me conforta também saber que a história choca e causa reações, pois deixá-la no campo do banal seria uma terceira morte para Jacinta”.

Floriano de Azevedo Marques Neto, 53 anos, diretor da Faculdade de Direito da USP escreveu um artigo no portal Conjur apontando a necessidade de “Visitar a história, assumir o erro, permitir o futuro”. 

À Ponte, o diretor afirmou que é muito importante dar espaço e destaque a pesquisas acadêmicas que iluminem passagens tristes do nosso passado. “É importantíssimo denunciar estes fatos, destacando que eles não poderiam ter ocorrido e não podem ser nunca tratados como normais ou como ‘compreensíveis no contexto’”.

Para Floriano a reportagem resgatou uma passagem triste de nossa história. “É fundamental para permitir a reflexão sobre o passado e o presente, ensejando que avancemos para uma sociedade que não mais aceite estes fatos e estes comportamentos de professores e de alunos. A reportagem cumpriu com o que de melhor pode ter o jornalismo”. 

O texto de Daniel Salomão Roque baseou-se na pesquisa de Suzane Jardim, que expõe que em 26 de novembro de 1900, Jacinta, uma moça pobre, de cerca de 30 anos e sem trabalho fixo, desmaiou caminhando na Rua Dutra Rodrigues, a setecentos metros da Estação da Luz. Ela morreu rumo ao hospital da Santa Casa de Misericórdia, no distrito da Consolação. 

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No mesmo dia, seu corpo foi entregue a Amâncio de Carvalho, professor de medicina legal da Faculdade de Direito de São Paulo. A reportagem narra que, para o catedrático, “Jacinta se resumia a uma ‘preta de cerca de trinta anos, hóspede habitual da polícia por sua desmedida intemperança’”.

Após quase 30 anos, o corpo de Jacinta foi velado e enterrado por pedido de Emília da Silva Carvalho, viúva de Amâncio que alegava ter a propriedade do corpo. Na sua lápide não consta seu nome, e sim o de Raimunda, um dos apelidos dados pelos estudantes brancos.

Apesar dos horrores cometidos, Amâncio de Carvalho é alvo de homenagens até hoje, seu nome batiza uma rua na Vila Mariana, zona sul da capital paulista, desde 18 de agosto de 1928, quando foi renomeada pela Prefeitura. 

Além da rua no bairro paulistano de classe média, o nome de Amâncio de Carvalho está em uma sala na Faculdade de Direito há ao menos 78 anos, segundo a reportagem: “possivelmente, a mesma em que o cadáver de Jacinta permaneceu exposto até 1929”. 

Por isso, Letícia aponta que a ideia do XI de Agosto é fazer “uma movimentação massiva na faculdade” pela retirada do nome de Amâncio da universidade e da placa na Vila Mariana. Segundo a reportagem publicada pela Ponte, praticamente todos os homenageados da faculdade são homens brancos. Mudar isso ainda é um desafio lá dentro. 

A antiga Rua do Curtume, na Vila Mariana, um dos distritos mais brancos da capital paulista, foi rebatizada como Rua Doutor Amâncio de Carvalho | Foto: Fausto Salvadori/Ponte

A estudante disse que as únicas exceções são “o abolicionista Luiz Gama (1830-1882) e o primeiro professor negro da faculdade, Rubino de Oliveira (1837-1891), homenageado com um auditório em setembro do ano passado”. 

Além do mais, a ideia é de que as ações sejam capitaneadas pelos coletivos negros da faculdade, dialogando com outros coletivos. “Já estamos fazendo reuniões e pensando em estratégias de como fazer essa proposição de uma forma coletiva e que seja efetiva. Nós queremos incidir na mudança no nome da rua. Para nós isso é muito importante, tanto valorizar a memória de Jacinta, quanto não permitir que a homenagem a esse professor continue acontecendo nesses espaços”.

Também desconfortáveis com a história de Jacinta, os estudantes do Coletivo Construção, atual gestão da Representação Discente (RD) da Faculdade de Direito da USP, lançaram nos últimos dias um abaixo-assinado para a mudança de nome da sala com o nome de Amâncio.

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A iniciativa no entanto gerou debates com os coletivos negros Quilombo Oxê e o Coletivo Angela Davis do curso. Em nota de repúdio, os alunos dos coletivos negros afirmam que a medida não foi dialogada com eles. “Além de ter sido uma iniciativa sem nenhum, repetimos, nenhum diálogo com nenhum coletivo negro desta faculdade, aconteceu de modo a atropelar uma iniciativa já em andamento, que está sendo construída pelo movimento negro, estudantes e também professores”, apontam.

A nota ainda diz que “ao colocarem os coletivos negros de lado e não discutirem esta pauta conosco, a RD perpetua a mesma mentalidade que reina há mais de 194 anos nessa faculdade: a de que corpos negros são meros objetos, desprovidos de voz e de ação ativas; corpos que devem ser salvos pelo branco bondoso”.

De acordo com um dos representantes do Coletivo Construção, que preferiu não se identificar, a ideia surgiu no sábado (10/4) após a reportagem publicada pela Ponte e de várias mensagens que receberam de alunos e professores da faculdade. “O pessoal na Representação Discente achou muito impactante toda a história, em especial as membras e membros negros da gestão, e se organizou para minutar um ofício, e no mesmo dia publicaram para colher as assinaturas de alunos”, diz. 

Ele assume que houve falta de diálogo com outros coletivos. “Acontece que a RD não conversou com os coletivos auto-organizados antes de tomar a iniciativa, o que foi um grande erro, já que a pauta com certeza interessaria a ambos os coletivos. Por essa falta de conversa, acabamos não sabendo que eles já vinham organizando uma iniciativa com relação à mudança, na qual a gente ainda não havia sido chamado a participar”.

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Por fim, o estudante explicou que o coletivo optou por não dar seguimento ao abaixo-assinado. “Embora não quiséssemos passar por cima dessa outra manifestação, o fato de não termos conversado com o Quilombo e o Angela antes acabou levando a esse desencontro. Não queríamos ter causado essa confusão toda, principalmente porque pode atrapalhar o andamento da pauta. Estamos trabalhando com os coletivos em outros projetos e não queríamos que esse erro prejudicasse as iniciativas que temos tocado em benefício da faculdade”.

Já o diretor da faculdade, Floriano de Azevedo Marques Neto acredita que as propostas dos estudantes são bem vindas ao debate. “É difícil a um professor ou ao diretor opinar sobre questões próprias à representação discente. Vejo qualquer iniciativa de debater pautas afirmativas muito bem vindas. O Largo de São Francisco sempre foi um espaço aberto ao debate de ideias. Tenho certeza que os coletivos negros da Sanfran, atuantes que são, participarão ativamente desta discussão”.

Sobre a possibilidade de mudança no nome da sala, Floriano diz que “existem normas e espaços institucionais para deliberar sobre homenagens e nomeações de salas da faculdade. Em certas condições é possível a renomeação. Quanto ao nome da rua na Vila Mariana, o assunto cabe à municipalidade. Em alguns casos isso já foi feito em São Paulo. E, como sabemos, este é um debate contemporâneo importante no mundo todo”. 

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Para ele as cotas foram incorporadas de forma tardia no vestibular da USP, em 2018, sendo a última universidade pública do estado de São Paulo a adotar políticas afirmativas, o que provocou um baixo número de estudantes pretos na universidade. 

Ainda assim, Floriano acredita que esse quadro será revertido em pouco tempo com a entrada de professores negros e mais mulheres. “O corpo discente da faculdade de direito da USP tem baixa representação de professoras e ínfima de negros. Temos tentado endereçar soluções para reverter este quadro. O início das políticas de inclusão também na pós-graduação é um grande passo neste processo”.

“Quanto mais doutores pretos, pardos e indígenas formarmos, maior será a possibilidade de revertermos este quadro já nos concursos de ingresso. Qualquer um que acompanhe o que hoje vivenciamos na graduação e na pós tem a certeza que este quadro será alterado em curto tempo”, argumenta Floriano.

Suzane comemorou a rápida resposta universitária. “Confesso que não estava esperando uma reação institucional tão rápida. Acho que foi uma resposta importante por não tentar negar o óbvio e reconhecer que há uma série de fatos que tornaram e ainda tornam a universidade excludente. Reconhecer e perceber que muita ação ainda é preciso, é um primeiro passo e espero que o caso de Jacinta traga mais discussões entre a alta casta do local”.

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