Arma de policial morto em Cotia (SP) ao investigar feminicídio pode ter falhado

21/07/21 por Jeniffer Mendonça

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Policiais civis afirmam que localizaram corpo de mulher desaparecida na casa do namorado, que tentou fugir; colega apontou que pistola da marca Taurus de Alessandro Medeiros tinha munição deflagrada sem ter sido ejetada. Suspeito de feminicídio também foi morto

Carteira funcional do investigador Alessandro Roberto de Medeiros | Foto: reprodução

A psicóloga Patricia Cristina de Lima Farfan Olivares, 41, foi encontrada morta dentro da casa do namorado, Ricardo Trindade, 44, em Granja Viana, bairro rico de Cotia (Grande SP). De acordo com o boletim de ocorrência, narrado pelo policial civil José Geraldo Pereira dos Santos, 52, a irmã da psicóloga procurou a delegacia porque a vítima estaria desaparecida desde 16 de julho, quando foi à residência de Ricardo, e os familiares viram o carro dela em frente ao endereço, na Rua Nova Amazonas.

O policial civil informa que solicitou que os investigadores Vagner de Lima, 45, e Alessandro Roberto de Medeiros, 42, fossem ao local para identificar o paradeiro de Patricia. Vagner teria dito que os pais da psicóloga estavam em frente à casa, mas que nem ela nem Ricardo retornavam contato. José Geraldo afirma que os três decidiram pular o muro lateral e que, andando em volta da residência, próximo à edícula, avistaram na janela uma persiana aberta. Dali, afirma que viram a mulher deitada de barriga para baixo com sangue na região da cabeça.

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Alessandro teria acionado o Corpo de Bombeiros quando entraram na casa e, enquanto verificavam o corpo, Vagner teria gritado que Ricardo estava trancado num quarto. “Gritei para Ricardo se entregar e sair com as mãos para cima”, disse José Geraldo. Ele afirma que avistaram Ricardo dando passos em direção à sala e que Vagner pediu para ele se render. Ricardo teria, então, corrido para a cozinha, saído pela porta e pulado um muro. José Geraldo afirma que Alessandro foi atrás de Ricardo, Vagner foi pegar a viatura e ele ficou na casa preservando o corpo da vítima, aguardando apoio.

“Fiquei tentando ligar para eles até que o inspetor da Guarda [Civil Metropolitana] chegou e informou que os dois policiais estavam baleados”, narrou José Geraldo. Depois que o apoio teria chegado, passaram a fazer buscas na residência e informam que localizaram uma carabina calibre 22, um carregador de pistola com 19 munições, uma caixa com relógios e três porções pequenas de substância similiar à maconha e outras caixas de remédios. A partir deste trecho, o boletim de ocorrência não informa com detalhes como Alessandro, Ricardo e Vagner foram encontrados.

José Geraldo apontou no BO que confirmou que os colegas foram baleados e percebeu que a arma de Alessandro, uma pistola Taurus .40, tinha o ferrolho recuado, “sem estar travado e dentro havia um estojo que provavelmente estava deflagrado”. “Fizemos fotos do armamento e retiramos o estojo de dentro comprovando que ele estava deflagrado, mas não foi ejetado pela arma”, relatou o policial civil. Ferrolho é a parte da arma que “controla” a entrada e saída das munições da câmara de uma arma.

De acordo com o documento, essa era a única arma com Alessandro, na qual tinha 12 cartuchos íntegros e um deflagrado (que seria a munição não ejetada). Com ele também estava um carregador e o colete de segurança também foi apreendido.

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Alessandro e Ricardo foram mortos. No documento, não há informação de quantos tiros atingiram os dois nem local onde foram encontrados os corpos. No caso de Ricardo, também não consta por quem teria sido baleado. A Ponte ligou para a Delegacia de Cotia na terça-feira (20/7) e nesta quarta (21/7). No primeiro contato, um escrivão que se identificou como Carneiro disse que Ricardo foi atingido pela guarda municipal que foi prestar apoio.

Já na segundo oportunidade, em ligação com o delegado Rui Fellipe N. Xanier Silva, que foi responsável pelo registro, ele informou que a guarda foi chamada para prestar apoio, por isso os GCMs Ederson Lucas e José Leandro dos Santos Damasceno constam como testemunhas e tiveram as armas apreendidas, e que a Polícia Científica ainda não concluiu a perícia das armas e dos corpos de Patrícia, Alessandro e Ricardo. “Os guardas também dispararam, mas não sabemos ainda de que arma partiu o disparo que matou o Ricardo e se a arma [de Alessandro] falhou”, disse. Os policiais civis e os GCMs usavam armas da Taurus.

Patricia Olivares e Ricardo Trindade eram namorados | Fotos: reproduções TV Band e TV Globo

De acordo com o G1, Ricardo tem uma passagem por agressão contra mulher registrada em 2005. A Ponte não conseguiu localizar contato de familiares dele nem de Patrícia ou dos policiais baleados. O investigador Vagner teria sido encaminhado ao Hospital Regional de Cotia, mas a assessoria não confirmou seu estado de saúde até a publicação.

Com base na descrição feita no boletim de ocorrência, o presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais Marcos Camargo indica que existe possibilidade de a arma ter falhado, mas a perícia vai esclarecer essa hipótese com maior precisão. “Quando há um disparo, a reação do ferrolho é recuar e, ao fazer isso, ele ejeta a cápsula deflagrada. Se a energia para fazer o ferrolho recuar for baixa (uma falha no funcionamento da arma ou uma munição danificada, por exemplo), ele não movimenta o suficiente para ejetar a cápsula, a nova munição não consegue entrar na câmara e, dessa forma, a arma trava. Fica sem condição de disparo”, explica. Outra hipótese que Camargo levanta é de que Alessandro, ao ser atingido, pode ter perdido a força na mão que segurava a arma, prejudicando, consequentemente, o disparo. “Pode ter efetuado o disparo, mas não ter tido força para segurar o tranco de uma .40”, aponta, o que também pode explicar a munição deflagrada dentro da arma sem ser ejetada.

De acordo com o site da Taurus Armas, a pistola .40, que é de uso restrito de forças de segurança pública, tem capacidade para 16 cartuchos, sendo 15 no carregador e um na câmara da arma.

Em nota, a presidente do Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) Raquel Kobashi lamentou a perda do colega e disse que “há anos [o sindicato] denuncia o sucateamento da Polícia Civil de São Paulo e cobra, reiteradamente, a aquisição de novos equipamentos, incluindo armamento, para a instituição”. “Lamentavelmente, desta vez o descaso da administração com a Polícia Civil pode ter resultado na morte de um policial, porém, são constantes os casos de viaturas que quebram em meio a diligências, alagamentos em distritos policiais e falhas de armamentos”, criticou.

Histórico de falhas

Em fevereiro deste ano, a Polícia Civil passou a substituir de forma progressiva as armas da marca Taurus pela Glock. Dois anos antes, o governo paulista havia fechado contrato de aquisição de 40 mil pistolas com a empresa a fim de “modernizar o arsenal” após décadas usando a Taurus.

Em julho de 2020, o governo paulista condenou a Taurus Armas S/A ao pagamento de multa de R$12.674.979,81 e suspensão temporária de dois anos de participar de licitações no estado, em um processo administrativo iniciado em 2016 por conta de falhas encontradas em armas vendidas entre 2007 e 2011 (leia aqui a condenação publicada no Diário Oficial). Em dezembro do mesmo ano, a companhia conseguiu reverter a suspensão ao entrar na Justiça. O processo ainda segue em tramitação.

Na época, o site The Intercept Brasil revelou que a companhia modificou informações de armas vendidas às forças de segurança pública brasileiras, sendo que os defeitos dos armamentos causaram acidentes e mortes. Os dados foram obtidos por meio de laudos feitos pelo Exército, que é responsável pela fiscalização e autorização de venda de armas, e uma ação do Ministério Público da Paraíba e da justiça de Goiás.

O que diz a polícia

A Ponte questionou a assessoria da Secretaria de Segurança Pública a respeito das lacunas do registro do boletim de ocorrência, a possível falha da arma de Alessandro e se o poder público mantém contratos com a Taurus bem como situação das armas utilizadas pelas forças de segurança.

A InPress, assessoria terceirizada da pasta, se limitou a enviar a seguinte nota:

Todas as circunstâncias relativas aos fatos são investigadas por meio de inquérito policial instaurado pelo 2º DP de Cotia. As armas envolvidas na ação foram apreendidas e estão sendo periciadas – o laudo será analisado pela autoridade policial tão logo for concluído.

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A reportagem também procurou a assessoria da prefeitura de Cotia a fim de entrevistar os GCMs, já que as versões dos dois não constam no boletim de ocorrência, e aguarda uma resposta.

O que diz a Taurus

A assessoria da companhia encaminhou a seguinte nota após publicação da reportagem*:

A empresa lamenta e se solidariza com a família do policial e informa que não recebeu notificação de autoridades da Policia Civil sobre o caso. Enviamos ofício a autoridade competente, solicitando acesso as perícias técnicas.

A arma envolvida  na ação é uma arma antiga, do ano de 2006. Apenas uma perícia pode identificar as causas do ocorrido, devendo-se considerar todas as circunstâncias do caso e as condições de manutenção do armamento.

Os Peritos Balísticos Domingos Toccheto e Geraldo Bertolo consultados pela empresa informam que pode ocorrer a falha de ejeção do cartucho em decorrência de uma empunhadura fraca (“pulso fraco”) do atirador que foi ferido ou atingido em uma troca de tiros. Por isso, a importância da realização da perícia técnica.

Portanto, a empresa ratifica que só uma perícia técnica poderá determinar o ocorrido, qualquer conclusão antecipada é especulação.

*Reportagem atualizada às 10h14, de 22/07/2021.

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