Artigo | A herança colonial e escravocrata não pode sabotar nossos valores novamente

‘A única postura da escuta ativa, frente aos discursos de ódio, é a resistência, ou a negação, ou o enfrentamento’, escreve o teólogo e ativista Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco | Foto: divulgação

A gente precisa repensar nossos valores enquanto sociedade brasileira. Na verdade precisamos construir novos valores socialmente partilhados, atuais, construídos coletivamente. Mas precisávamos fazer isso tendo coragem de olhar lá atrás, pra saber como é que a gente chegou aqui.

Para a maioria das pessoas, a nossa formação enquanto sociedade, colonial e escravocrata, já não tem nenhuma interferência sobre a sociedade que somos hoje, nossas diferenças, desigualdades e opressões. É como se os discursos de ódio reais e virtuais, bem como as disputas para grupos e pessoas poderem existir dignamente hoje, já não se relacionassem com como “surgimos” socialmente ontem.

Mas a questão é que o racismo e a nossa formação histórica, oriunda do colonialismo, deixou marcas profundas demais para serem consideradas como algo que não tem ingerência sobre o tipo de sociedade que somos hoje.

Como bem disse o filósofo camaronês Achille Mbembe em seu brilhante livro Políticas da Inimizade, as “sociedades coloniais eram entidades nas quais desaparecera o sentimento de piedade”. Essa herança não se perde pura e simplesmente. E em momentos de tensão social acirrada, ou de polarização nos posicionamentos da vida em comum, ela aflora sempre da forma mais violenta possível.

Insistir que o colonialismo e a escravidão marcaram a nossa formação social é um desses debates impossíveis de serem deixados para depois. Como recuperar a dignidade humana como um valor sem sermos capazes de olhar para trás e reconhecermos que, em sociedades coloniais, dignidade não é valor, e sim um privilégio?

Com essa herança, dignidade tornou-se uma produção e não um valor em si mesmo. Um homem é “digno” pelo que produz, pelo que tem, pelo que conquistou, pelo quanto é reconhecido, pela maneira como se comporta, coerente com as regras do status quo.

Por ser assim, “digno”, é ouvido e respeitado, tem direitos reconhecidos, defendidos e a Justiça lhe alcança. Ontem, na sociedade colonial, um homem negro não era digno. Uma mulher negra não era digna. Há de fato razões para garantir que, são hoje, tão mais do que ontem?

Nossa colonização foi cristã e isso não deve ser considerado um fato menor, pois aqui reside uma das razões pelas quais avançamos quase nada na desconstrução de uma perspectiva demonizadora, jocosa e hostil com relação às religiões e à cultura (ou as culturas) de matriz africana.

O modelo de família idealizado na figura do homem e mulher, pai e mãe, que constituiu a nossa formação, por sua vez, reflete na resistência, muitas vezes violenta, de se reconhecer e respeitar formações familiares diferentes deste modelo. Por isso o fascismo não é razoável.

O fascismo é apresentado como uma ideologia, mas, para mim, o fascismo é quase como um espírito. E ele paira em todas as áreas, territórios, sociedades, grupos. Coexistir na diferença não será possível apenas com reivindicações, mas com um engajamento. Porque a marca do fascismo é a totalidade, totalizar tudo como ele (o fascismo, ou o fascista) é.

Numa de suas entrevistas, Martin Luther King respondeu sobre a luta do povo negro pelos direitos civis e contra a segregação: “Não é a raça [branca] em si que combatemos, mas as políticas e ideologias que líderes dessa raça formularam para perpetuar a opressão”.

Não podemos correr o risco de permitir que o fascismo paire sobre nós como um espírito capaz de fazer com que cada grupo veja a si mesmo como único, dotado de verdade e saída para tudo, disputando poder pelo poder e não pela garantia de que a coexistência com direitos seja garantida.

Se há um engajamento político que deve nos unir (para além das balizas ideológicas delimitadoras do que seria direita ou esquerda, perfil progressista ou mais conservador), este deve ser para tornar a diversidade e a coexistência na diferença como valores inegociáveis.

Se a desigualdade ameaça esses valores, se o racismo ameaça esses valores, se a violência ameaça esses valores, uma boa e esperançosa demonstração de que rompemos com essa herança colonial-escravocrata é o engajamento coletivo para impedir que esses valores sucumbam.

Mesmo a religião que ameaça a diversidade e a coexistência na diferença deve ser problematizada. Sendo ponto comum o quanto o Brasil é um país religioso (ou místico, ou espiritualizado, seja lá como for), deve ser ponto pacífico também que não há como repensar valores postos e se dispor a construir novos, coletivamente, sem que as religiões e a espiritualidade do povo venha junto. O lugar das igrejas, sobretudo as evangélicas, e como elas constituem a pertença e a dinâmica da vida de grande parte do povo nas diversas periferias do país. O lugar articulador e potencializador dos terreiros de candomblé, guardadores de memória e ancestralidade junto, principalmente, do povo negro. Ignorar ou desqualificar estes espaços de formação e construção de identidade é inviabilizar qualquer proposta de novos valores sociais no Brasil.

O desafio é identificar onde estas experiências religiosas, com seus membros e lideranças, já entenderam que nosso caminho é esta coexistência e que a diferença e a diversidade são fundamentais para a nossa própria sobrevivência.

Já dizia o velho (Zygmunt) Bauman, “o destino comum requer solidariedade”. A sociedade colonial-escravocrata é violenta e surda quanto ao que a sociedade colonizada tem a dizer. Não podemos sucumbir à tendência de sermos uma sociedade dos ouvidos fechados. O racismo sabota a solidariedade.

A gente não considera o diálogo como um valor, mas deveríamos. Porque o diálogo é a única, ou ao menos a principal, forma pela qual o que somos e o que desejamos pode se tornar conhecido. Mas o diálogo só pode ser um valor se a escuta ativa for o seu duplo. E o “ativa” aqui é justamente para destacar que a escuta não é uma passividade, às vezes desinteressada pelo o que se escuta. Ela se abre, reflete e responde (exatamente nesta ordem) em busca de uma compreensão que dê alternativa a caminhada comum e a convivência.

Por isso, a única postura da escuta ativa, frente aos discursos de ódio, é a resistência, ou a negação, ou o enfrentamento. Porque discursos de ódio não são diálogos, mas ao contrário, é a neutralização do diálogo da forma mais violenta. Discursos de ódio buscam calar vozes. Sem vozes (outras, diversas, plurais), sem diálogo.

Pode ser que seja um longo caminho. Mas é importante decidir se vamos querer realmente fazê-lo (ou continuar fazendo). Em especial aqueles e aquelas que são empurrados pra margem da participação e dos direitos no conjunto da sociedade.

*Ronilso Pacheco é teólogo, articulador social pelo Viva Rio, ativista. Autor de “Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”.

Artigo originalmente publicada no site Usina de Valores, projeto do Instituto Herzog.

 

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