Artigo | Disse o PM a um artista: ‘não tem mais vagabundagem’

3 minutos atrás

Músico conta como foi obrigado a sair de ponto na Avenida Paulista onde tocava havia quatro anos e que ouviu PM e funcionário de consulado dizerem que, ‘com Bolsonaro, agora é assim’

Banda The Esquina se apresenta há quatro anos na Paulista | Foto: Geraldo Magela

Na sexta-feira [25/1, feriado do aniversário da cidade de São Paulo], fomos forçados a sair do ponto que ocupamos há quatro anos, eu e dois amigos músicos que estávamos tocando na Paulista, em frente ao Consulado-Geral da Itália. Chegamos às 9h para garantir o lugar e havia duas vans, lá. Além de umas vinte motos da polícia do exército. Tudo certo, conversamos com os motoristas e eles disseram que sairiam em breve.

E de fato não demoraram. Saíram vários homens de uniforme da Marinha e Exército, patentes graúdas, pelas insígnias. Entraram nas vans. Depois uns oito carros oficiais – não dava para ver quem estava neles – e mais uns três com placas do consulado.

Mal montamos e tocamos a primeira entrada veio um sujeitinho ridículo com três capangas exigir que retirássemos a coisa dali. Nos recusamos porque ele não deu nenhum motivo plausível para saíssemos dali. Ele falou que estávamos em frente ao estacionamento, respondemos que a Paulista estava fechada [desde 2015, a Paulista permanece fechada aos domingos e feriados para carros  e artistas podem se apresentar na via]. Foi no meio dessa conversa que ele falou que o presidente é o Bolsonaro e agora eram outros tempos.

Aí a coisa azedou, bicho.

Falei que não ia ter arrego pra fascista de merda. Descendente de operário anarquista que sou, disse um belíssimo va fanculo e uma dúzia de fascistinhas de merda e não saímos.

Ele falou que ia chamar a polícia, e chamou. Vieram dois PMs e tentaram argumentar. Inclusive com o carinha, e até disseram a ele que era nosso direito ocupar aquele espaço. Continuamos tocando e dali a pouco apareceram SEIS viaturas e uns dez PMs. Nos recusamos a sair. Chamei todos de apoiadores de fascistas, porque era nosso direito tocar ali.

É melhor já ir se acostumando com o fim da arte e produção artística e intelectual

Posted by Fabio Pagotto on Friday, January 25, 2019

O cara que estava no comando veio falar comigo e falou que carros oficiais têm permissão para usar a Paulista e que estávamos no caminho. Não estávamos. Eu falei a ele o que o fascistinha do consulado falou sobre o Bolsonaro e ele, para minha surpresa, disse o seguinte:

– As coisas mudaram mesmo e vocês têm que entender que agora é assim, não tem mais vagabundagem.

– Você votou no Bolsonaro e está feliz em poder reprimir os artistas na Paulista, não é?

E o cara me responde:

– Não posso dizer que não estou.

Enfim. Para não perdermos o trabalho de ter levado uma tonelada de equipamento até a Paulista, nos movemos. Tocamos e o show foi bom, mas com gosto de repressão.

(*) Fabio Pagotto é jornalista e baixista das bandas The Esquina e Saco de Ratos

Outro lado – A Ponte procurou as assessorias de imprensa da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do governo João Doria (PSDB) e da Polícia Militar, bem o Consulado-Geral da Itália, por e-mail, sobre o relato do músico. A assessoria de imprensa da SSP respondeu que “a Corregedoria da PM está à disposição do músico para registrar a denúncia dos fatos”. Já o Consulado não respondeu.

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