Artigo | Era alojamento ou senzala?

Dez garotos vítimas de incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo retratam a negligência com que as categorias de base são tratadas mesmo em clubes ricos do futebol nacional

Incêndio vitimou garotos entre 14 e 17 anos que atuavam nos times juvenis do Rubro Negro | Foto: Reprodução/Redes sociais

O Flamengo tem um dos times mais caros do Brasil, neste começo do ano trouxe os maiores reforços do país, investindo alto não só nos jogadores mas no marketing que esses jogadores potencialmente trazem. Os moleques de 14 a 17 anos moravam em contêineres. De ferro. No meio do sol do Rio. Os contêineres eram divididos por uma divisória de madeira e plástico temporária, que faziam os quartos.

A camisa do Gabigol (Gabriel Barbosa, atacante revelado pelo Santos e emprestado pela Inter de Milão-ITA ao Flamengo), antes mesmo dele estrear já é a mais vendida do país. Bonecos do tamanho real exato do atleta foram colocados nas lojas, e as vendas atingiram recordes.

Os contêineres tinham instalações elétricas com tomadas e ar condicionado instalados manualmente, todos conectados à mesma fiação. Os contêineres pegaram fogo e eram de ferro, viraram um forno. As janelas eram mínimas, os moleques foram assados, literalmente assados.

Os salários do Flamengo estão entre os mais altos do país. O time titular varia com salários de 300 mil a 1,5 milhão de reais. Ou seja, uma pessoa, o Arrascaeta (meia uruguaio contratado junto ao Cruzeiro, clube de Minas Gerais), ganha um salário de um ano como se ganhasse duas vezes na Mega-Sena por ano.

Além de pegar fogo, as divisórias tinham plástico, que derrete e gruda na pele, causando a dor mais intensa das queimaduras. Quando queima, o plástico derretido gera monóxido de carbono, substância que, quando inalada, asfixia rapidamente e diminui muito o tempo de reação da pessoa.

O Flamengo, em 2019, destinou 200 milhões do orçamento total de 750 milhões de reais em futebol, sendo 100 milhões para contratações, é o clube que mais investiu no time no continente inteiro neste ano.

O alojamento teve o alvará negado pelo corpo de bombeiros e estava lacrado pela prefeitura, proibido de ser utilizado desde 2012, tendo o clube sido multado 30 vezes, não tendo pago nenhuma das multas. O valor da multa em 2012 era de R$ 399 reais.

Flamengo continua investindo em contratações, tentando trazer atletas consagrados do futebol europeu como Daniel Alves, Rafinha, entre outros. O salario mensal desses jogadores atualmente chegam aos 2,5 milhões, o que não é problema para o Flamengo.

Os corpos demoraram mais de 7 horas para serem retirados e reconhecidos em virtude da alta temperatura que carbonizou cada um dos jogadores, dificultando o reconhecimento. Incluindo Athila, de 14 anos, que mandou uma mensagem momentos antes, dizendo que ia realizar o sonho de treinar no Maracanã.

Estamos falando do Flamengo. O maior clube do Brasil, com a maior torcida, o mais querido e atualmente o mais rico. Já acabou a discussão de futebol moderno. Não estamos falando de pedalada e chuteira colorida. Estamos falando dessa disparidade que mata o futebol.

Como esse é o país do futebol, temos mais de 500 mil jogadores profissionais no Brasil. 82% deles ganham menos de mil reais. Um jogador só ganha um milhão e meio

Outros mais de 3 milhões de empregados são sustentados pelo futebol, direta ou indiretamente.
Alimentar essa disparidade gera um esquema bola de neve onde um jogador meia boca ganha mais do que 500 mil jogadores, que também querem ganhar mais, que arrebentam os clubes menores, que são obrigados a ficarem sem pagar os 3 milhões de funcionários, que não investem na base, que não vendem nem lançam jogadores e não tem mais receita, que fecham as portas ou seguem sub-existindo, que abre espaço para clubes grandes na base, que dá chances pra pouquíssimos jogadores que tem sorte – os poucos que sobem exigem salários cada vez maiores -, que são contratados por outros clubes como reforços com salários absurdos, que gasta o dinheiro desses clubes, que devido a essa importância dada pra esses reforços, ligam menos pra base, que geram cada vez menos talentos e não dão prioridade pra estrutura de base. E assim vai.

Mais uma vez, não é questão de futebol moderno contra o futebol antigo. Não estamos falando de chuteira colorida, de Neymar ou dessa ridícula escola Benjamin Back (apresentador da Fox Sports) ou Tiago Leifert (ex-apresentador do Globo Esporte) de jornalismo esportivo. Quando você aplaude e comemora no WhatsApp que seu time tem condições de trazer um jogador por um salário de um milhão e meio você tá apoiando um mercado completamente desregulado da realidade. E esse mercado fecha portas de times menores, esse mercado tira chance de meninos, esse mercado tira empregos, esse mercado tira investimento em estrutura e esse mercado mata.

Dez moleques morreram queimados por morarem em um contêiner no maior clube do país. O que sentimos não é luto com tristeza. É ódio com bom senso.

* Vinicius H. Sousa comanda a página Juventino Mooca, no Facebook, onde trata de assuntos esportivos e do Juventus, clube da zona leste de São Paulo

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