Artigo | Isso se chama genocídio

15/02/19 por Maria Teresa Cruz

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Sobre os mortos pelo braço armado do Estado e como os que estão no poder legitimam essa violência com condecorações, propostas e decretos

Parede do local onde jovens foram assassinados no Morro do Fallet repleta de buracos de tiros | Foto: Natasha Néri

Duas chacinas, uma no Fallet e outra em Nova Iguaçu, com 22 mortos no total, e uma criança de 11 anos assasinada pela polícia, em Triagem, em menos de uma semana no estado do Rio de Janeiro. O governador congratula os PMs pela chacina, o deputado estadual que rasgou a placa da Marielle concede uma moção a eles, tem um pedaço da placa na parede do gabinete como se fosse um troféu e propôs a doação de órgãos compulsória dos mortos pela polícia. o ministro da Justiça propõe um pacote no qual quer dar legalidade aos homicídios praticados por policiais, mesmo que não haja agressão contra eles. Basta que haja medo ou “iminente agressão” para que o assassinato de uma pessoa seja legitimado pelo Estado, segundo a proposta. Se assassinaram 1532 pessoas no RJ ano passado, quantas vão perder suas vidas pelas mãos das polícias agora?

Isso se chama genocídio!

Vai ter que ter muita luta pra termos a dignidade e o direito à vida nas favelas. Ontem completaram-se 11 meses sem a Marielle, sem nenhuma responsabilização pelos grupos armados criminosos e políticos que orquestraram seu homicídio. Ana Paula Oliveira, mãe do Johnatha, chora pelos 11 meses sem a Marielle, por quase 5 anos sem o filho, e por ter visto na TV o grito de dor desesperado da mãe da menina Jenifer, 11 anos, assassinada em Triagem neste 14 de fevereiro. Todo dia 14 é um dia que não termina.

Kátia Cilene, mãe da menina Jenifer Selena Gomes, 11 anos, morta após ser baleada com tiro no peito em Triagem, na zona norte do Rio de Janeiro | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A cada morte na favela, as mães que tiveram seus filhos assassinados revivem na pele as dores do genocídio. Outra mãe de Manguinhos, dona Kelly, mãe de Caio Daniel, assassinado aos 14 anos, chora por estar deprimida e muito doente. Márcia Jacintho amarga a notícia de que vai ter que enfrentar um novo júri popular dos policiais que mataram seu filho Hanry, 16 anos, depois de ter investigado sozinha a morte e conquistado a condenação dos assassinos.

E enquanto escrevo esse desabafo, Irone Santiago, mãe de Vitor Santiago, que ficou paraplégico durante a invasão do Exército em 2014 na Maré, vai passar pela segunda cirurgia para retirar outro aneurisma. Quanta dor!

Os efeitos do Estado assassino nos corpos dos familiares são irreversíveis. Enquanto lutam por reparação, memória e justiça, essas mães se digladiam para manter a sanidade e se sustentar de pé.

No Fallet, os moradores se levantaram diante das execuções sumárias e se mobilizaram para denunciar a ação letal do BpChoque e do Bope. Quinze novas mães chorando pela perda de seus filhos, rodeadas pela favela em polvorosa, gritando e denunciando as violações a que foram submetidas na operação da polícia, que ainda teve o apoio do Executivo e do Legislativo. A cena do crime deixa claro até para leigos que foi uma ação orquestrada, em que os jovens foram encurralados e exterminados a curta distância. Uma quantidade absurda de tiros num espaço pequeno, executando todos em poucos instantes. Ali restaram paredes destruídas por tiros e uma laje crivada de balas. E o vazio silencioso do genocídio e do medo impostos a dezenas de famílias que viveram de perto aquela operação sanguinária. Mais uma vez, a polícia desfez a cena do crime que cometeu. Todos seguem trabalhando normalmente nas ruas, inclusive, serão condecorados.

Mas a associação de moradores lotada na visita da Defensoria ao Fallet mostrou que a favela vai resistir. Sempre resistiu. E cabe a nós resistir com a favela. Ver familiares antigos da militância como Dona Maria Dalva Correia da Silva, Cuca e Monica Cunha amparando os familiares da chacina e trocando afetos e saberes da luta é das cenas mais emocionantes e inspiradoras que guardo dessa semana trágica no Rio.

Moradores do Fallet denunciam violência policial: vai ter luta, sim! | Foto: Natasha Néri

Enquanto eu viver, eu luto.
Não tem arrego.

*Natasha Neri é jornalista, cineasta, antropóloga, pesquisadora nas áreas de Justiça Criminal e Direitos Humanos. Diretora, ao lado de Lula Carvalho, do documentário “Auto de Resistência”. Dedica-se ao estudo dos homicídios praticados pela polícia há 10 anos, sendo co-autora do livro “Quando a Polícia Mata: Homicídios por Autos de Resistência no Rio de Janeiro (2001-2011)”, Booklink, Rio de Janeiro.

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