Artigo | Novo filme do universo de Harry Potter mostra como o ódio atua na sociedade

‘Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald’ traz críticas diretas aos políticos de extrema-direita com discursos contra minorias em direitos, como Trump e Bolsonaro

“Meus irmãos, minhas irmãs. Dizem que eu odeio os não-maj (sem poderes de bruxos). Eu não os odeio, não mesmo. Eles não são inferiores, não são inúteis, eles têm outro valor. A magia floresce somente em almas raras. Eu, na verdade, quero um mundo melhor para todos, sem guerras, sem violência, aonde nós, almas raras, dotados de magia, devemos comandar o mundo”. Essa é a fala de Gellert Grindelwald (personagem do ator Johnny Deep) em uma das cenas mais importantes de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, segundo filme de cinco produções da Warner ao lado da criadora de Harry Potter, J.K. Rowling. O filme estreia na quinta-feira (15/11) em todo o Brasil.

Não é de hoje que a escritora britânica J.K. Rowling traz questões políticas em seus livros e filmes. Na franquia original do mundo mágico, o bruxinho Harry Potter, um jovem órfão que é criado pelos tios conservadores – que odeiam os bruxos por serem diferentes do que a sociedade aceita -, descobre o mundo mágico aos 11 anos, na véspera de começar as aulas do primeiro ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Harry, ao chegar na escola, se torna amigo de dois alunos fora do padrão: Rony faz parte de uma família conhecida por ser pobre, os Weasley; e Hermione Granger, uma bruxinha muito inteligente que é filha de pais trouxas (como são chamados os não bruxos na saga original). Só com esse trio, o recado de Rowling é bem direto em relação ao preconceito de classe e de raça – uma vez que Hermione é considerada uma mestiça, não sendo digna, para os bruxos mais conservadores, de estar no mundo mágico. Também é possível fazer uma analogia com a comunidade LGBT, principalmente do ponto de vista dos tios de Potter que não o consideram normal por ser como é.

Rony, Hermione e Harry no filme ‘Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban’, lançado em 2004 | Foto: Divulgação

Abordar a temática do fascismo sempre esteve presente no trabalho de Rowling. Nos sete livros de Harry Potter, há um bruxo das trevas poderoso, que muitos bruxos temem até pronunciar o seu nome: Lord Voldemort, ‘Você-Sabe-Quem’ ou ‘Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado’. Algo parecido aconteceu nas eleições presidenciáveis de 2018 no Brasil, em que o nome de Jair Bolsonaro (PSL) não era dito nas redes sociais para não gerar mais algoritmos a favor do então candidato, sendo trocado por ‘coiso’, ‘ele não’ ou palavras similares ao seu nome, mas não diretas.

Uma coisa que me chamou a atenção no novo trabalho de J.K., que mais uma vez assina o roteiro da produção, foi o destaque a sedução do fascismo em pessoas que, até então, não reproduziam o discurso. A cena em que Grindelwald chama sua legião de seguidores para uma reunião mostra bem isto. Com muita inteligência e manipulação, o vilão faz com que os seus seguidores façam exatamente aquilo que ele queria, sem perceber. Uma personagem, que não vamos citar para não dar spoilers (contar previamente cenas importantes do filmes), que fazia parte do lado dos “bruxos do bem”, acaba sendo persuadida pelo bruxo das trevas e decide seguir o caminho obscuro. Isso reflete muito a visão da “tia da família” que foi convencida pelo discurso de Bolsonaro e que muitas pessoas entonaram o grito de que ela não era fascista, apenas tinha sido convencida pelo discurso da mudança.

Durante a campanha, o presidente eleito dos EUA Donald Trump teve como discurso principal um muro que fecharia a fronteira dos EUA com o México para diminuir o fluxo de imigrações. Mas, depois de eleito, o discurso foi amenizado em relação às questões econômicas, apesar de ainda manter de pé políticas contra imigrantes mexicanos.

Da mesma maneira age Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, que durante anos falou publicamente que era contra os direitos LGBTs, inclusive há vídeos dele falando que é homofóbico. Durante a campanha, no entanto, Bolsonaro amenizou o tom e disse que não era bem assim, que seu governo seria por todos – apesar de assinar um acordo com a comunidade cristã para acabar com o casamento LGBT.

Gellert Grindelwald (Johnny Deep) em uma das cenas do novo filme | Foto: Divulgação

É a mesma analogia feita por J.K. Rowling em relação a Grindelwald, em que o bruxo das trevas fala diretamente aos seus seguidores alegando que, na verdade, é o outro lado que usa a violência como instrumento político. O bruxo das trevas, depois de deixar bem claro o seu ponto de vista (contra bruxos mestiços e não-maj), passa a falar que não é contra nenhuma dessas classes e que lutará pela liberdade e pelo amor entre bruxos e não-maj. Durante esse discurso, Grindelwald reforça que os aurores (unidade de elite de agentes especializados treinados para investigar crimes relacionados com as Artes das Trevas), ou ‘o outro lado’, matou seus seguidores e o prendeu e torturou. Esse episódio se assemelha muito à facada que Bolsonaro sofreu durante a corrida eleitoral e, em seus discursos, criminalizou seus adversários.

Assistir ao filme, em um momento tão singular da história mundial, foi um pouco assustador, mas me ajudou a entender que, sim, muitos eleitores de Bolsonaro, ou Trump, foram convencidos por um discurso estrategicamente arquitetado para isso. O longa também mostra que, no fim, não existem vilões ou heróis porque de alguma forma existem dois lados lutando por um ideal – e ambos acreditam estar certos.

Em uma das sessões de pré-estreia do filme, na terça-feira (13/11), no shopping Praça da Moça, em Diadema (SP), a Ponte viu um pai saiu da sala de exibição, no meio do filme, falando alto que o filme era “uma propaganda ideológica comunista”.

Um dos maiores fã-clubes de Harry Potter já havia se posicionado contra Bolsonaro durante a campanha do segundo turno. O Potterish, depois da primeira manifestação intitulada #EleNão, defendeu, por meio de um editorial, que fãs da saga deviam se posicionar politicamente contra o então candidato de extrema-direita. “Para nós, existir tal como somos é um ato político. É político sair às ruas todos os dias, sempre prontos a ouvir, sem fraquejar, insultos, baixarias, piadas, “brincadeiras” que nos destroem. Nos unimos a uma política que não passa necessariamente pelos corredores de um parlamento qualquer, mas que corre em nosso sangue. No sábado, demonstramos a todos que também somos capazes de fazer política para afastar o perigo de um candidato que é contra nossa existência e pode pôr em risco o pouco que conquistamos. Identificamos esta mesma política em Harry Potter na resistência, na coragem, na consciência coletiva de que Lorde Voldemort não podia voltar ao poder e contaminar o mundo bruxo com o horror, com o medo, com a morte, não, não… Ele, não”, escreveu o site.

Imagem usada na postagem do site | Foto: Reprodução/Facebook

Em outro trecho, o portal falou diretamente aos fãs contrários ao posicionamento político. “Aos fãs apolíticos, sentimos informar: a série Harry Potter é puramente política. A Ordem da Fênix, como organização de luta e resistência, é política. A Armada de Dumbledore, pondo-se à frente da tirania de Dolores Umbridge, é política. Dumbledore e Newt se unindo para lutar contra o fascismo de Grindelwald, que pregava a supremacia bruxa sobre trouxas, é política. O Fundo de Apoio à Libertação dos Elfos Domésticos (F.A.L.E.), tão ridicularizado e incompreendido, é luta pelos direitos das minorias, é resistência e é política”, escreveu o Potterish.

Colaborou Bruno Farias.

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