Artigo | O que é derrotar o bolsonarismo?

    A deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP) questiona as táticas políticas que pregam a vitória sobre Bolsonaro como um fim em si

    Foto: Alan Santos/PR

    “Derrotar o bolsonarismo!” – talvez essa tenha sido o mais marcante discurso do campo progressista nestas eleições de 2020. Dos cargos majoritários ao Legislativo, a “derrota do bolsonarismo” é, além de uma pauta, uma missão.

    Lembro de quando, após ser eleita em 2018, veículos de comunicação nacionais e internacionais me interpelavam constantemente acerca desse tema porque, a bem da verdade, polarização vende. As manchetes que enfatizam o acirramento ideológico são mais consumidas, inflam os partidários de cada lado e percebo que o uso constante do termo também se deve à facilidade de formulação, por inserir um tema rápido e prático no debate público. É um chavão!

    O real significado disso deve ser tão ou mais explorado do que o slogan em si.

    Não acredito que quem ainda seja adepto ao bolsonarismo, ou simpatize mesmo à distância, se convenceria com essa ideia. Nunca teremos certeza, mas considero urgente e pedagógico colocar coisas no lugar, traduzir esta ideia em práticas desconstrutivas, concepções de mundo e proposições transformadoras.

    O que é o bolsonarismo, senão ideias e práticas de exclusões, de incitação à violência, de negação do conhecimento científico, de desprezo pelos grupos já vulneráveis – que necessitam do apoio do Estado. O que é o bolsonarismo, senão idiotices e uma agenda econômica austera, consubstanciada pelos mesmos requisitos? Embora inepto, criou-se um conceito: bolsonarismo.

    Esconder a pauta antirracista, LGBT+ e de mulheres para não perturbar a ordem conservadora apagará um aspecto fundamental da política, que é elevar as demandas da sociedade ao debate público.

    Quantas derrotas em pleitos diversos que, no final, trabalham a narrativa de que a “conquista da derrota” foi exatamente trazer temas relevantes para a disputa política? Ou de que o que importa é vencer, ainda que com cabresto de grupos fundamentalistas e de setores que prezam pela manutenção das misérias consequentes do silenciamento de certos temas?

    É uma escolha. “Estratégia”, dirão.

    Em realidade, “derrotar o bolsonarismo” é situar o rompimento das desigualdades; é falar de um discurso sério e efetivo sobre segurança pública que, antes e além das forças militares, envolva uma política transdisciplinar de educação, cultura, saúde, renda e trabalho. É aprofundar, na prática, a luta antirracista, a luta contra a lgbtfobia e o machismo desses que são os pilares das violências estruturais, o vetor das desigualdades.

    Afinal de contas, estamos falando da população em situação de vulnerabilidade e alienar-se da história que leva ao empobrecimento em massa e que recai exatamente sobre alguns corpos é alienar-se ao ponto de acreditar que a “derrota do bolsonarismo” é a solução.

    Quando era indagada a esse respeito, em especial para um veículo francês que esperava uma resposta que coubesse no seu copo, questionei o lugar da França na política recente com imigrantes e também na história colonialista europeia, responsável pela exploração histórica de Áfricas e Américas.

    Bolsonaro é filho em linha reta da narrativa de um Brasil descoberto pelos portugueses; de uma ideia de escravidão que, pra eles, “se encerrou”. É filho de uma lógica binária de gênero que a inquisição portuguesa tanto praticou em Áfricas e no Brasil, a exemplo do que aconteceu com Xica Manicongo. Ele é filho de regimes autoritários e de práticas de repressão.

    Por fim, sem fim, alienar-se da História é culpabilizar pobres e periféricos por toda vulnerabilidade à qual estão submetidos. Esta curta narrativa revela, ademais do atraso, um olhar raso, curto, diminuto, tanto quanto “derrotar Bolsonaro” como ideia sem contexto. Isso só vende pra quem já quer comprar.

    O que trago aqui não deve ser novidade. Historicamente, inúmeros intelectuais negres nos indicam as tramas que envolvem a tríade Raça, Gênero e Classe. Os movimentos populares, em especial movimentos negros, indígenas, de mulheres, lgbts, da luta por terra e moradia apontam o caminho.

    “Derrotar Bolsonaro” não deve ser um fim em si, uma vez que nos interessa efetivamente o que vamos colocar no lugar, até porque na grande aba anti-bolsonarismo, há um centro sedento e uma direita autointitulada séria com discursos razoavelmente polidos e digeríveis. Entretanto, todes pragmaticamente comprometidas com agendas economicamente similares.

    Não apenas pela gravidade das falas do atual presidente, que revelam o bizarro, o cruel e o absurdo fruto de uma noção de mundo e de uma notória cognição prejudicada, se não pensarmos mais adiante sobre o que está posto na discussão rasa do bolsonarismo, vamos repetir a máxima (só que do outro lado do campo) repetida incansavelmente no período do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff: “primeiro a gente tira a Dilma”, e blá blá blá… Não funcionou com os entusiastas do golpe, não há de funcionar conosco. Portanto, redigo, não basta apenas acabar com o bolsonarismo.

    Mas a situação pode ser outra, caso estejamos acordadas com aprofundamento real e radical da democracia. Alternância de poder significa uma revolução epistemológica no discurso e na prática. Na forma e no conteúdo. Na cara e na coragem. Um indígena presidente comprometido com a história que o leva a sua autoidentificação e, portanto, com os fundamentos de sua luta política, não é bonito apenas na Bolívia.

    Erica Malunguinho é pernambucana, artista e educadora. Mestra em Estética e História da Arte, tornou-se a primeira deputada estadual trans eleita no Brasil, em 2018.

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