Artigo | Rafiki: a história de amor entre mulheres que faltava

29/08/19 por Paloma Vasconcelos

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No Dia da Visibilidade Lésbica, falamos do longa queniano que fala do amor de mulheres sem cair na hipersexualização ou tragicidade

Rafiki, longa-metragem queniano, conta a história de Kena (à esq.) e Ziki (à dir.), um casal de meninas do Quênia | Foto: Divulgação

A primeira vez que assisti Rafiki fiquei sem ar. Nunca tinha visto um filme tão potente que contasse uma história de amor entre mulheres sem aquele final clássico em que uma delas morre ou é trocada por um cara. Sem aquela hipersexualização das relações lésbicas. Entendi de cara por que Rafiki havia sido proibido de passar no Quênia. Falar de amor entre mulheres em um dos países em que ser LGBT+ é crime realmente incomoda.

Também nunca tinha visto uma sessão de cinema como aquela sessão do dia 11 de julho: uma sala lotada de mulheres, lésbicas e bissexuais, e em sua maioria negras. A chegada do longa-metragem queniano ao Brasil era mega esperada por essas mulheres que estavam precisando de uma representatividade como a que Rafiki proporciona. O evento de pré-estreia do longa em São Paulo fez parte da Mostra de Cinemas Africanos, do CineSesc.

Menos de um mês depois, o filme chegou ao circuito nacional, com lançamento em 8 de agosto. O mês não foi escolhido à toa. Rafiki chegou aos cinemas brasileiros no mês que marca a luta pela visibilidade de mulheres lésbicas com duas datas importantes. Em 19 de agosto, comemoramos nacionalmente o dia do orgulho lésbico. Dez dias depois, na data de hoje, dia 29 de agosto, comemoramos a visibilidade lésbica.

Trailer oficial de Rafiki

É por isso que Rafiki é tão mágico. Ele mostra orgulho e visibilidade ao mesmo tempo. E de forma leve, com uma narrativa positiva, falando de amor. Mas, por que é importante falar de amor? Na verdade é essencial falar de amor entre mulheres. Tanto no Brasil quanto no Quênia, a realidade para mulheres que amam mulheres não é fácil. Machismo, patriarcado, lesbofobia e racismo são palavras em comum nos dois idiomas.

O Quênia é um dos 70 países que fazem parte da ONU (Organização das Nações Unidas) em que ser LGBT+ é crime. O Brasil é o país que mais mata LGBT+ em todo o mundo. Por isso, falar em amor entre duas mulheres, no Quênia e no Brasil, é, sim, um ato revolucionário. Falar em amor entre duas mulheres negras é um ato antirracista, um ato contra a LGBTfobia, um ato contra o machismo.

Eu, enquanto mulher lésbica há mais de 11 anos, nunca havia assistido um filme como Rafiki. Em narrativa, roteiro, interpretação e fotografia. Como dizem nas redes sociais: zero defeitos. Não sabemos se Rafiki ganhará algum prêmio, mas certamente a comunidade lésbica quer dar o mundo para as pessoas que fizeram essa narrativa.

Senti cada cena do longa da diretora queniana Wanuri Kahiu no coração e na alma. Tenho certeza que toda sapatão se identificou muito com o filme. Quando Kena (Samantha Mugatsia) nota Ziki (Sheila Munyiva) pela primeira vez dá pra sentir e lembrar de quando foi com a gente. A expectativa do primeiro beijo, o medo do que os outros pensariam, as dúvidas da primeira paixão por outra mulher. Cada uma dessas sensações que todas nós passamos em algum momento da vida.

A cena de sexo de Rafiki mostra que falar de amor entre mulheres não precisa ser explícito para ser bonito – aquela crítica que todas nós temos ao longa-metragem “Azul é a cor mais quente” depois que descobrimos que as atrizes foram forçadas a repetir inúmeras vezes as cenas de sexo e se sentiram extremamente abusadas. O filme queniano mostra também a importância de termos as nossas histórias contadas por mulheres, de preferência negras.

Os conflitos com a religião e os costumes do Quênia são abordados na narrativa do longa | Foto: Divulgação

Mas, mesmo trazendo tudo de forma leve, Rafiki nos traz também para a realidade. É um filme que fala de amor sem romantizar a existência de corpos LGBT+. A narrativa de amor de Rafiki tem dor também. Dor que escancara a LGBTfobia do Quênia, onde o amor é crime. Em Rafiki há uma cena de agressão que nos tira o ar e que faz todas as mulheres lésbicas e bissexuais que assistem o filme chorar. Foi unânime nessa sessão lotada de pré-estreia. Foi unânime na segunda e na terceira vez que vi Rafiki. Dói demais ver aquela cena porque pensamos: podia ser eu, podia ser a mulher que eu amo, podia ser a minha amiga lésbica.

É importante falarmos da nossa dor. É importante lembramos de Luana Barbosa, que tinha tantas semelhanças com a personagem principal de Rafiki, Kena. Assim como Kena, Luana era uma mulher, negra, periférica e não feminilizada. Assim como Kena, Luana foi espancada por ser quem era. Mas quando falamos que precisamos de narrativas positivas, falamos que precisamos ver Kena viva depois dessa cena. Perdemos Luana, mas não queremos perder outras Kenas que estão vivas, no Brasil e no Quênia.

Nesse 29 de agosto, queremos ser vistas com vida. Queremos que o nosso amor seja visto com respeito. Queremos mais narrativas leves e positivas nos cinemas, nas séries, nas novelas. Queremos contar mais histórias de amor como a história de Monica Benicio e Marielle Franco, mas que o fim dessas histórias não seja trágico. Queremos nos sentir representadas em histórias contadas por mulheres diversas. Rafiki é tudo isso e muito mais. Rafiki veio para cravar a potência do amor entre mulheres na história. Para eternizar que falar sobre ser sapatão é um ato político e revolucionário.

Tá a fim de ver?

O filme ainda está em cartaz nas salas de cinema brasileiras. Para saber quando e onde ver na sua cidade, acesse o Instagram oficial do filme no Brasil: Rafiki Filme.

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