‘As mães que lutam contra o Estado representam tudo de bom que tem nesse mundo’

13/05/21 por Luiza Sansão

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A norte-americana Liz Martin passou a lutar contra a violência policial depois que seu sobrinho, Joseph Ernest Martin, morreu assassinado por um policial civil no Rio de Janeiro, em 2007. O policial foi absolvido

Ilustração: Junião

Para marcar os 15 anos dos Crimes de Maio, a Ponte publica 15 perfis de mulheres que perderam familiares para a violência policial, originalmente publicados no livro “Mães em Luta”, organizado por André Caramante e editado por Ponte e Mães de Maio em 2016

Elizabeth Martin nasceu e cresceu em uma cidade pequena de cerca de 183 mil habitantes, a oeste de Boston, capital do estado norte-americano de Massachusetts. Uma entre cinco irmãs, ela vem de uma família de gente simples e trabalhadora. Sua mãe teve diversos empregos: foi operária em fábrica, auxiliar de enfermagem em casa de atendimento a idosos, trabalhou com artesanato e atividades sociais. Seu pai trabalhou como policial em Worcester (também em Massachusetts) por toda a vida.

— Fui criada para respeitar a polícia, mas não desencorajada a protestar contra as injustiças do mundo — conta Liz, como Elizabeth gosta de ser chamada.

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Suas irmãs foram presas enquanto protestavam contra a Guerra do Vietnã e ela mesma chegou a ser hospitalizada após discussão com policiais nos anos 1980. Mas foi em 2007, depois de seu sobrinho, Joseph Ernest Martin, ser assassinado por um policial no Brasil, que Liz tornou-se uma ativista na luta contra a violência policial. Joe, como ela o chamava, era filho da sua irmã mais velha, Frances, que morreu de câncer há dois anos.

Ela passou a pesquisar a violência policial no Brasil, uniu-se a familiares de vítimas e ao movimento de combate ao racismo e à violência de Estado nos Estados Unidos Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), e, quando se noticiou que o Brasil sediaria megaeventos internacionais — a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 —, fundou a campanha Don’t Kill For Me – Safe Games For All (“Não mate por mim – Jogos seguros para todos”), disponibilizando em um site dados sobre homicídios praticados pelas polícias brasileiras e uma petição em defesa de reformas que não incentivassem mais mortes, e sim melhorias na segurança pública do país.

Nove anos após o início dessa jornada e menos de três semanas antes do início dos Jogos Olímpicos Rio 2016, Liz marchou pelas ruas do Rio de Janeiro com outros familiares de vítimas de violência do Estado brasileiro, pedindo o fim do extermínio de negros e favelados.

Morto no aniversário

— Um garoto local roubou a bolsa de um turista e um policial fora de serviço o capturou. Joe interveio e o garoto correu. O policial sacou a arma e estava mirando o moleque, que escapou. O policial se voltou a Joe e eles discutiram. O policial atirou em Joe cinco vezes e três tiros o atingiram. Ele morreu mais tarde, no hospital.

É com essas palavras, diretas, que Liz resume o que aconteceu ao sobrinho Joe em 25 de maio de 2007, data em que ele completava 30 anos. O jovem foi morto pelo policial civil João Vicente Sá Freire Dantas de Oliveira. A defesa do policial alegou que ele foi desacato e agredido por Joe. Três anos depois, o Tribunal do Júri absolveu João Vicente.

Joe havia chegado ao Brasil no final de 2005. Motivado pela paixão por uma jovem brasileira que conheceu nos Estados Unidos enquanto ainda cursava o ensino médio em Worcester, Joseph dedicou-se ao estudo da língua portuguesa. Daí surgiu a paixão também pela cultura brasileira, que o arrebatou, levando-o a frequentar locais onde brasileiros se reuniam e, mais tarde, a mudar-se para o Brasil. Procurando se encontrar em uma profissão, ele sobrevivia lecionando inglês, fazendo traduções e trabalhando em bares no Rio de Janeiro.

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Foi pouco depois de ser promovido a gerente de um bar na cidade do Rio de Janeiro que o jovem foi assassinado, exatamente em frente ao bar, na Lapa, bairro boêmio na região central. Em entrevista ao jornal norte-americano The Boston Globe, três dias após o crime, um amigo próximo de Joe afirmou que, poucos dias antes, ele tinha lhe enviado um e-mail em que contava “estar muito empolgado porque seria gerente de bar”.

— Ele estava adorando. Ele amava a América, era o seu país, mas os brasileiros eram o seu povo — definiu Jon Donovan ao The Boston Globe, ao qual outros amigos de Joe o descreveram como “carismático, inteligente, homem com uma gargalhada contagiante e com pouco medo de confronto.

A forma como Joe referiu-se a si mesmo no assunto do e-mail que enviou ao amigo Donovan, “Eu sou o homem mais empolgado do mundo”, diz muito sobre sua personalidade, como demonstram os depoimentos de outros amigos na mesma matéria jornalística e, sobretudo, o de sua tia, Liz Martin, que transformou sua revolta pela violência que o matou na militância que marca sua trajetória.

— Ele era inteligente, engraçado e muito popular. Lembro, em seu funeral, 400 pessoas vieram e ficaram na fila para falar conosco. Eram pessoas de vários tipos. Eu sentei lá e fiquei espantada que ele tivesse amigos tão diversificados recorda Liz.

— Um professor de um colégio local, onde Joe trabalhou, no escritório do estacionamento anos atrás, veio. Ele nunca o teve na sala de aula, mas eles conversavam bastante. Outro homem, com um sotaque que não pude identificar, disse que conhecia o Joe porque ele ia à sua loja todas as manhãs para tomar café anos atrás. Foi impressionante ver que o Joe criou um grupo tão diversificado de amigos completa.

O policial que matou Joe foi morto em um bar em julho de 2010, aproximadamente três meses após o julgamento que o absolveu.

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— Um homem chegou andando, disse para todos irem embora e atirou nele 17 vezes — diz Liz. — Eu gostaria que as Cortes [as esferas da Justiça] perseguissem o documento que falta, mas eles dizem que, como o assassino foi morto, isso não importa. Eu discordo — ressalta.

Pouco depois de sua irmã, Frances, mãe de Joe, morrer, em 6 de outubro de 2014, após uma batalha contra o câncer, Liz publicou em seu blog, um texto intitulado “Minha irmã morreu na semana passada, foi a segunda vez em que ela morreu”. Nele, ela contou que Frances jamais se recuperara da dor de ter perdido o filho e, que, portanto, “foi sua morte final”, pois ela morrera a primeira vez quando Joe foi assassinado. “Alguns são capazes de continuar, eles encontram reservas de força e esperança e seguir em frente. Fran não podia”, escreveu.

Ativismo

Depois do assassinato do sobrinho, Liz se aproximou de familiares de vítimas de violência brasileira e de ativistas de direitos humanos, e envolveu-se profundamente com a questão da violência praticada sistematicamente por policiais, o que levou-a a fundar a campanha Don’t Kill For Me. Desde então, a ativista debruçou-se sobre o tema, levando informações sobre os altos índices de homicídios praticados por policiais brasileiros a outros países e dando seu testemunho em debates internacionais sobre a violência policial.

Antes de tornar-se ativista, Liz trabalhava no Boston College, tradicional universidade particular na região metropolitana de Boston, no MIT – Massachusetts Institute of Technology (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e na Universidade Harvard, em Cambridge, Massachusetts.

— Eu estava em Harvard no ano em que Joe foi morto. Por isso fui capaz de obter ajuda do Programa de Justiça e Direitos Humanos de Harvard — conta.

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Foi também em Harvard que ela teve seu primeiro contato com o Black Lives Matter, quando assistiu a uma palestra sobre a globalização da brutalidade policial, na qual uma das fundadoras do movimento, Patrisse Cullors, sugeriu uma delegação. Liz, então, se reuniu em Boston com Daunasia Yancey e outras representantes do Black Lives, que passou a integrar.

— Há um movimento crescente de pessoas brancas que estão trabalhando para a justiça racial. Há organizações nos Estados Unidos especificamente para pessoas brancas aprenderem sobre a raça, privilégio branco e como agir para criar a mudança — diz a ativista, indagada sobre como é ser uma branca em um movimento negro de luta contra a violência racial.

Liz cita como exemplo o Showing Up For Racial Justice (Mostrando a Justiça Racial), rede norte-americana que mobiliza grupos e indivíduos brancos na luta por Justiça racial e conta que a igreja que frequenta, a UUA (Unitarian Universalist Association), tem longa história de luta antirracismo e compromisso de apoiar o Black Lives Matter.

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— A violência policial não afeta “principalmente” pessoas negras. Ele afeta desproporcionalmente os negros. Por exemplo, os homens afro-americanos entre as idades de 15 e 34 anos são 2% da população dos EUA, mas são 15% das pessoas mortas pela polícia — afirma a ativista.

Para se dedicar intensamente à sua militância, aos 57 anos, Liz tem dois empregos: coordena uma pequena organização que treina profissionais que atuam na área da saúde mental e inspeciona casas para pessoas que estão adquirindo bens.

— Escolhi especificamente profissões que me oferecessem flexibilidade para fazer meu trabalho sobre a polícia no Brasil. Também vendi meu apartamento em uma comunidade cara e comprei uma casa em uma área de classe trabalhadora para ter opções mais econômicas — diz.

Violência policial: questão global

Depois de participar do Julho Negro, sequência de manifestações contra a violência de Estado organizada por movimentos sociais no Rio de Janeiro em julho de 2016, ao lado de outras ativistas do Black Lives Matter, em dias de intensa convivência com familiares de vítimas de violência policial brasileiros, Liz afirma ainda estar processando essa experiência, que lhe é motivo de orgulho.

— Nos conhecemos de braços e corações abertos. Somos gratas pela oportunidade de ter estado com nossos amigos brasileiros, família, irmãs e irmãos, camaradas — diz.

— Nosso objetivo era atrair atenção para o nível da violência policial no Brasil e a mídia prestou atenção. Nossa presença, permanecendo em solidariedade, demonstrou que a globalização da brutalidade policial e a militarização da polícia são uma questão global. Bradamos que vidas negras importam no mundo todo, em todos os lugares. Queremos ajudar a mudar a narrativa sobre violência no Brasil, dizer ao mundo que a polícia no Brasil mata oito pessoas por dia enfatiza.

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A luta das mães brasileiras por Justiça nos casos de seus filhos assassinados por policiais é uma poderosa combinação de beleza e horror, segundo a ativista.

— É horrível que elas tenham alguém que elas amam morto pelo Estado. Mas elas são fortes e encontraram uma missão em sua dor, o que é lindo. Elas representam tudo de bom que tem nesse mundo.

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