Assassinatos de jornalistas dobram no mundo todo em 2020, aponta relatório

Em entrevista à Ponte, diretor do Comitê para Proteção de Jornalistas, Carlos Martinez de la Serna, afirma que “clima global de impunidade e a perigosa retórica anti-imprensa criam um ambiente hostil para o jornalismo”

Enterro do jornalista Léo Veras, morto este ano no Paraguai | Foto: (*) Foto de capa: Marciano Candia / AP

Trabalhar como jornalista foi mais perigoso em 2020. Globalmente, pelo menos 30 jornalistas foram mortos em serviço, segundo dados de um relatório divulgado mundialmente hoje pelo Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ), organização independente de defesa da liberdade de expressão.

O número representa mais do que o dobro do ano anterior. Em 2020, foram 21 assassinatos de jornalistas somente por retaliação ao seu trabalho – em 2019, foram 10. As outras mortes nove mortes contabilizadas neste ano foram em áreas de conflitos e também em outros contextos perigosos. México, Afeganistão e Filipinas estão no topo da lista dos países mais perigosos para o trabalho da imprensa.

Mas a soma final pode ser maior. Outras 15 mortes de jornalistas seguem sob análise e que, se confirmadas, elevam o total para 45 assassinatos. Os dados do relatório do CPJ se referem aos homicídios ocorridos entre 1 de janeiro e 15 de dezembro deste ano.

A pandemia da Covid-19 mudou um pouco o cenário em 2020, aponta o relatório. Além de dominar a pauta e a atenção da mídia, o novo coronavírus restringiu viagens. Com isso, caiu o número de mortes em áreas de conflito armado.

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Segundo o CPJ, três jornalistas foram mortos perto de Idlib, no norte da Síria, em ataques aéreos por supostas forças russas aliadas ao regime do presidente sírio Bashar al-Assad. É o menor número desde 2000.

Ainda assim, não há o que comemorar, a situação de insegurança para quem exerce a profissão e de impunidade para quem cometeu os crimes só se agravaram. Além da elevação do número de mortes, o relatório revela uma nova tendência que corre o risco de se consolidar, afirmou em entrevista exclusiva à Ponte, o diretor do CPJ, Carlos Martinez de la Serna, que atua como estrategista-chefe dos programas regionais da ONG.

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Segundo ele, o relatório mostra como grupos criminosos e gangues são responsáveis pela maioria dos assassinatos em 2020, mirando jornalistas em nações violentas, mas democráticas. “Será fundamental responsabilizar os criminosos para evitar que esta dinâmica se consolide”. Atualmente, oito em cada dez assassinos de jornalistas ficam em liberdade, com base nos dados do CPJ.

México é um dos países mais perigosos para a imprensa

Há tempos conhecido como um dos lugares mais perigosos para a atuação da imprensa, o México teve quatro jornalistas assassinados em 2020. Outro repórter foi morto a tiros enquanto trabalhava na cena de um crime e outras quatro mortes de jornalistas ainda estão sendo investigadas pelo CPJ.

Segundo informou a ONG à imprensa, “recentemente, um assassinato e uma série de ameaças à mídia por uma suposta quadrilha de criminosos dizimaram as reportagens na cidade de Iguala, no estado de Guerrero”.

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“O México há muito é o país mais perigoso do hemisfério ocidental para a imprensa, que opera em meio a uma complexa teia de criminosos, gangues de tráfico de drogas e corrupção oficial arraigada”, diz trecho do relatório.

Para o diretor do CPJ, outro aspecto importante por trás do novo cenário apontado pelo relatório é a narrativa anti-imprensa de governo. Caso, por exemplo, do presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, que, segundo destaca o levantamento da ONG, raramente se envolveu com organizações de liberdade de imprensa e da sociedade civil, e que atacou a mídia mexicana em coletivas de imprensa.

Qualquer semelhança com Trump não é mera coincidência, afirma Martinez. O diretor da CPJ admite que os ataques à imprensa do presidente americano derrotado nas eleições deste ano foram prejudiciais para a imprensa nos EUA e para jornalistas em todo o mundo.

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A organização aposta na eleição de Joe Biden para uma virada no jogo, comenta Martinez. “Pedimos ao presidente eleito a defesa dos direitos dos jornalistas nos Estados Unidos e no exterior por uma questão de princípio, e que a proteção da liberdade de imprensa seja um foco explícito de sua política externa.”

No mês passado, o CPJ publicou uma proposta para o próximo governo Biden, na qual sugere que os EUA assumam um papel de liderança em relação à defesa da imprensa.

“Propomos a nomeação de um enviado presidencial especial com poderes para falar sobre violações em todo o mundo e o envio de uma diretiva às embaixadas dos Estados Unidos indicando que a defesa da liberdade de imprensa é uma prioridade da política externa”, detalha o diretor da CPJ.

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A ONG reivindicou ainda a capacitação de embaixadores e outros diplomatas para tomada de medidas apropriadas nos casos em que a liberdade de imprensa esteja sob ataque. “Os Estados Unidos devem enfrentar seus adversários e desafiar seus amigos a melhorar a liberdade de imprensa, incluindo Brasil e México.”

Jornalistas sob ameaça

O levantamento do CPJ mostra uma equação de resultados cada vez mais danosos para a imprensa, alerta Martinez. “O clima global de impunidade e a perigosa retórica anti-imprensa criam um ambiente hostil para o jornalismo”. Os dados, segundo ele, escancaram a urgência de que governos desenvolvam estratégias abrangentes de proteção.

E no caso de mecanismos especiais para proteger jornalistas sob ameaça, o especialista salienta que precisam ser monitorados de perto para garantir sua eficácia. “No México, pelo menos dois dos jornalistas assassinados em 2020 estavam inscritos no Mecanismo Federal de Proteção de Defensores dos Direitos Humanos e jornalistas”, comenta Martinez.

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De acordo com o relatório do CPJ, os dois profissionais mortos, que estavam sob “proteção” do programa de segurança a jornalistas sob ameaça, foram assassinados juntos com seus seguranças, destacando as fragilidades do mecanismo. “O progresso na redução dos assassinatos de jornalistas em todo o mundo é frágil e pode ser frustrado por recursos legais e falta de liderança política.”

O Brasil não apareceu no relatório da CPJ. Mas, foi por pouco. Em fevereiro deste ano, o jornalista brasileiro Lourenço Veras, 52, conhecido como Léo Veras, foi assassinado a tiros em sua residência. Porém, morava na cidade de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. E a ausência do país no levantamento da ONG não significa que a situação da imprensa brasileira é boa. Pelo contrário.

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“Estamos muito preocupados com a deterioração da liberdade de imprensa no Brasil”, dispara o diretor do CPJ. “Os jornalistas são alvo de intimidação e perseguição por parte do governo, que ataca abertamente e criminaliza o jornalismo.”

Primeiro como candidato e depois como presidente, Jair Bolsonaro (sem partido) fez de seus ataques à mídia parte de sua retórica, e essa tendência também se espalhou para outros políticos, prossegue Martinez.

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“Em meio a uma crescente crise de saúde pública, o governo também tentou usar medidas emergenciais como desculpa para reprimir a liberdade de expressão ou reverter o acesso à informação garantido constitucionalmente”, conclui o diretor da CPJ.

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