Ataque depreda terreiro de candomblé em Seropédica, no Rio

Diretor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa critica falta de atuação do Estado: “Vamos esperar que matem um sacerdote?”

Imagem de cerimônia no terreiro antes do ataque | Foto: Facebook

O desabafo de Iyalorisá Vivian de Bara tem voz, mas não tem eco. Voz porque a mãe de santo se posicionou de forma clara frente a mais um caso de intolerância religiosa no Estado do Rio de Janeiro. Seu terreiro, o Ilê Asé Afefé T. Oju Lonan, foi depredado na noite de quarta (4/10) no município de Seropédica, no Rio de Janeiro. Segundo o blog Agen Afro, primeiro veículo que noticiou o caso, o barracão — tradicionalmente chamado de asé — foi bastante atingido pelo vandalismo, sendo a casa de Exu a mais danificada.

Ao contrário de outros casos de depredação e violência direta, como o que ocorreu há quase um mês atrás em Nova Iguaçu, o ataque em Seropédica foi realizado durante a noite, horário em que não havia trabalhos sendo realizados no local. “Uma vizinha me ligou dizendo que certas pessoas, sem citar nomes, entraram no meu barracão depredando e roubando. Não me deu detalhes nem nada” disse à Ponte a mãe de santo, que tem 30 anos de iniciada.

Seu percalço persistiu quando tentou ir a uma delegacia fazer um Boletim de ocorrência. “Eu fui lá tentar me orientar e o policial falou pra fazer um B.O. Online.” Percebendo que não teria ajuda da polícia, Mãe Vivian chamou seus filhos para ajudarem a tirar tudo que sobrou do terreiro às pressas. “Quebraram meus santos, roubaram minha fé, ainda não acredito”, escreveu no Facebook.

Iyalorisá Vivian de Bara (no centro) | Foto: Facebook

“Eu não sei com quem eu estou lidando porque ninguém abriu a boca pra dizer nada. Não dá pra dizer se foram evangélicos, bandidos nem ninguém” afirmou a Iyalorisá, que não mora próxima do local do terreiro, que já foi desmontado e transferido para local seguro. “Eu me sinto culpada pelo que aconteceu comigo. Em momento algum eu me senti amparada”, disse, avisando que tentaria mais uma vez fazer um Boletim de Ocorrência nesta sexta-feira (6/10).

O eco do caso da Iyalorisá Vivian corre o risco de virar mais um ponto na estatística do quadro alarmante da intolerância religiosa no Rio de Janeiro. Apenas nos últimos dois meses de 2017, de acordo com a Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI), foram registrados 39 casos de intolerância religiosa no Estado. Os números surpreendem, mas seguem um padrão alto há anos.

O último relatório disponível sobre intolerância religiosa, feito pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) em conjunto com outras instituições parceiras mostra, já em 2015, que o Estado do Rio de Janeiro liderava esse tipo de ataque. De julho de 2012 a dezembro de 2014, foram totalizados 948 atendimentos a 582 pessoas vítimas de intolerância, sendo que as denúncias contra religiões afro-brasileiras representaram 71% dos casos.

Terreiros pequenos, com até 50 adeptos são a grande maioria nesse universo e, por isso mesmo, são os mais vulneráveis à ataques. Para Babalawo Ivanir dos Santos, diretor da CCIR (Comissão de Combate à Intolerância Religiosa), o caso de Vivian expõe a falta de diálogo do Poder Público com a comunidade nesse momento emergencial. “A Polícia Civil precisa criar um protocolo de como abordar e registrar esses crimes que vêm sendo cometidos em série” sugere, para logo depois questionar: “vamos esperar que matem um sacerdote?”.

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