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Avanço de coronavírus na periferia de SP expõe desigualdade e racismo

16/04/20 por Caê Vasconcelos

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Maioria dos casos se concentra nas zonas leste e norte; moradora de Sapopemba perdeu o pai e a tia em menos de 10 dias

Associação de moradores da Brasilândia tem distribuído cestas básicas para quem está sem renda | Foto: Amavb/Divulgação

Em menos de 10 dias, a supervisora de vendas Simone Azevedo, 45 anos, perdeu seu pai e sua tia para o novo coronavírus. Aos 66 anos, seu pai, Valdir Azevedo, faleceu no dia 31 de março. Sua tia, com 63, morreu no dia 9 de abril. Os irmãos moravam na mesma casa em Sapopemba, zona leste da cidade de São Paulo, e foram internados no dia 30 de março no Hospital Estadual de Sapopemba.

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“Meu pai começou a sentir os sintomas depois que tomou vacina da gripe, que o governo liberou em março. Ele estava com uma gripe forte e sentia falta de ar quando ia tomar banho, mas achava que era o chuveiro que estava muito quente”, contou Simone à Ponte.

No dia 28 de março, a febre alta começou a ser um dos sintomas. A tia de Simone passou a sentir, no mesmo dia, sintomas de gripe e dores no corpo. Ela tentou levar o pai e a tia no hospital, mas eles não quiseram. Dois dias depois, na segunda-feira (30/3), recebeu um telefonema da tia pedindo para ir ao hospital.

“Minha tia disse que que não conseguia sair da cama por causa das dores. Chegando na casa deles, encontrei meu pai com ventilador ligado no rosto com muita falta de ar. Ele demorou mais de 15 minutos para descer do sofá e ir até a porta. Ele era deficiente, não tinha os membros inferiores por causa de uma trombose. Até ele chegar no carro mais 20 minutos”, relata Simone.

Assim que chegaram no pronto-socorro do Hospital de Sapopemba, o pai de Simone foi entubado e a tia encaminhada para o atendimento médico. “Aí me bateu desespero, percebi que realmente era muito sério, que ele não iria aguentar. No carro ele falou para mim: ‘Simone eu vou morrer’”, relembra.

“Minha tia demorou meia hora para ser atendida, ela também estava com falta de ar e era asmática. Deixaram ela por três dias com um balão de oxigênio, mas aí ela começou a ter complicações e foi entubada”, conta Simone.

Na manhã do dia 31 de março, Valdir não aguentou e faleceu. “Eu tive que reconhecer o corpo, que estava dentro de dois sacos de lixo preto, mal consegui ver o rosto dele. Entrei de máscara e luva. Ele foi enterrado com caixão lacrado, não teve enterro. No caso, estava escrito ‘covid-19 Valdir Azevedo’”.

Menos de 10 dias depois, no dia 9 de abril, a tia de Simone também faleceu. Até hoje, mais de 18 dias, os resultados dos exames para confirmar a Covid-19 ainda não ficaram prontos.

“Como tive contato com eles, estou isolada. Tive alguns sintomas na semana seguinte a morte do meu pai, como dor de cabeça e no corpo, mas hoje não sinto mais nada. O médico me receitou alguns remédios e vitaminas para minha imunidade não cair”, lamenta Simone.

Mais mortes nas periferias

A maioria das 1.207 mortes ocorridas na cidade de São Paulo entre os dias 9 e 15 de abril, e que têm suspeita de ser por Covid-19, são das regiões periféricas, segundo mapa elaborado pela Secretaria Municipal de Saúde. Dessas mortes, 422 foram confirmadas como coronavírus.

Fonte: Divulgação/Secretária Municipal de Saúde

No período, a zona leste da cidade registrou 499 óbitos, seguida pela zona norte com 289 mortes. Os números dizem respeito às mortes com suspeita e confirmados de coronavírus.

Os bairros periféricos com mais mortes pela Covid-19 nessas regiões são os distritos da Brasilândia, com 33 mortes, localizada na zona norte, e Sapopemba, 28 mortes, e Itaquera, 27 mortes, ambas na zona leste.

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Cria da Brasilândia, o líder comunitário Cláudio Kafé, 47 anos, que é coordenador de projetos da Amavb (Associação dos Moradores do Alto da Brasilândia), contou à Ponte como tem sido o dia a dia no bairro, que lidera o número de mortes na zona norte da cidade.

“Aqui nós temos dois problemas: as pessoas que não estão levando a sério a orientação do distanciamento e os jovens que continuam saindo em grupo. A filha de um amigo faleceu essa madrugada de Covid-19. Ela saía com os amigos, dividiam narguilé, mesmo com a situação da pandemia”, lamenta Kafé.

A diminuição da frota de ônibus também tem afetado quem mora na Brasilândia. “Vemos que, infelizmente, com a redução do transporte público aumentou a quantidade de pessoas nos ônibus. Muitos não usam máscaras e não respeitam a distância mínima recomendada. Isso realmente está sendo um problema e tende a aumentar o número de casos”, aponta o coordenador.

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Para ajudar quem está sem renda, a Amavb tem distribuído cestas básicas para os moradores cadastrados na associação. “A nossa meta é alcançar 200 cestas básicas e 100 marmitas por dia até o dia 30 de abril. Queremos que no mês de maio isso continue”, diz Kafé.

Mortos por Covid-19 na cidade de São Paulo por subprefeitura | Fonte: Divulgação/Secretária Municipal de Saúde

Na guerra contra a Covid-19, afirma Cláudio Café, a ordem é apenas uma: “A nossa orientação vai de encontro com o Ministério da Saúde, para que as pessoas que podem fiquem em casa, se precisar sair usar máscaras, luvas e álcool em gel”.

Do outro lado da cidade, na zona leste, a situação não é muito diferente. Manter o isolamento social tem sido uma tarefa difícil para os moradores da região. A líder comunitária Batia Jello conta como está o clima em Sapopemba, bairro que concentra o maior número de casos na zona leste.

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“As pessoas não estão ficando em casa, mesmo com tanta gente morrendo ao nosso redor. Não só aqui no bairro, como em bairros vizinhos. As pessoas ficam desesperadas de ficar isoladas e acabam saindo”, detalha Batia.

Batia pretende iniciar algumas atividades no bairro a partir do dia 20 de abril no sentido de combater os efeitos da pandemia. “Eu vejo o pessoal começando a movimentação agora, de cestas básicas e tudo mais, mas vai ser no fim do mês que a situação vai ficar mais complicada”, conclui a líder comunitária.

‘Pandemia vai mostrar a estrutura social do país’

Em entrevista à Ponte, o médico e advogado sanitarista Daniel Dourado, que também é integrante do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da USP, explicou que o fato de as regiões periféricas serem as mais atingidas pela mortalidade do coronavírus vai revelar a estrutura social do país.

“São coisas que a gente já sabe que existem, mas a pandemia vai mostrar a desigualdade e o racismo. Com esse vírus, mais pessoas negras morrem, porque se revela essa estrutura social, então essa população está mais vulnerável e tende a ficar mais em risco”, pontua.

“O tratamento do vírus depende muito da qualidade do cuidado que o paciente é submetido, ou seja, a maioria dos casos são leves, cerca de 80% deles vão melhorar com cuidados simples. Mas nos 20% dos casos que precisam de algum cuidado, essa diferença social vai ficar muito marcante”.

As condições de moradia são determinantes para a disseminação do vírus, afirma o médico. “As pessoas que moram nas periferias têm menos possibilidade de ficar em casa, porque tem menos possibilidades de trabalhos que permitem trabalhar de casa. Então as pessoas continuam se deslocando”, finaliza.

A Ponte questionou a Prefeitura de SP e a Secretaria Municipal de Saúde por telefone e e-mail sobre os números e problemas apontados pelos entrevistados, mas, até o fechamento da reportagem, não houve retorno.

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