“Bater em jornalista é bater na sociedade inteira”

    ONG Rio de Paz e fotojornalistas de São Paulo se reúnem para repudiar a violência contra profissionais de imprensa nas manifestações e por liberdade de imprensa

    Caramante
    Profissionais da imprensa durante protesto contra a violência policial nas manifestações – Foto: Maitê Berna/Ponte Jornalismo

    De junho de 2013 até agora, 294 profissionais de imprensa sofreram algum tipo de agressão – desde violência física, passando por cerceamento à liberdade de imprensa até detenção arbitrária – enquanto trabalhavam em manifestações. Os dados são da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e apontam que, em mais de 70% dos casos, essa violência partiu da Polícia Militar.

    As denúncias vêm de vários estados, mas especialmente do Rio e de São Paulo. Motivado por esse cenário, no início da manhã desta quarta-feira (14/09), um grupo de fotojornalistas apoiado pela ONG Rio de Paz em São Paulo, ligada ao DPI (Departament of Public Information) da ONU (Organização das Nações Unidas), fez uma ação no vão livre do MASP, na Avenida Paulista.

    Alguns casos foram lembrados pelos participantes. Um dos mais emblemáticos é o do fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu o olho esquerdo no dia 13 de junho de 2013, após ser atingido por uma bala de borracha, que a polícia chama tecnicamente de munição de elastômetro e que não pode ser disparada na cara, segundo dita o próprio manual da PM.

    O tapa-olho, que quase todos os fotógrafos estavam usando, é justamente uma homenagem ao Sérgio, que foi considerado culpado pela Justiça na ação indenizatória que moveu contra o Estado. Na ocasião, o juiz Olavo Zampol Júnior considerou Sérgio culpado por ter ficado cego, porque, segundo o magistrado, ele se colocou em uma situação de risco.

    “No mesmo dia que o Sérgio Silva perdeu o olho por bala de borracha, a gente tem a dona Maria, que está no filme Junho, do João Wainer, que foi atingida na bochecha, o fotojornalista Fábio Braga, atingido também na bochecha, a Giuliana Vallone – da Folha de S.Paulo – atingida no olho e mais outras pessoas.  Quer dizer, você não está seguindo as instruções do uso do armamento que o próprio estado compra”, pontou o fotógrafo Ignácio Aronovich, que tem acompanhado todas as manifestações.

    “Existe um abismo entre a percepção desse juiz e a realidade das ruas. Além disso, a polícia precisava começar a assumir os erros. Me parece que existe uma resposta padrão, sempre, um copy paste quando as forças de segurança são cobradas, dizendo que eventuais abusos serão apurados. Me parece muito insuficiente“, diz Ignácio.

    Caramante
    De junho de 2013 até agora, 294 profissionais de imprensa sofreram algum tipo de agressão no Brasil, apenas enquanto trabalhavam em manifestações – Foto: Maitê Berna/Ponte Jornalismo

    A ONG Rio de Paz afirma que, apenas nas manifestações após o impeachment de Dilma Rousseff, o órgão recebeu cerca de 30 denúncias de violações diversas: “Desde casos em que a polícia apreendeu câmera, celular e apagou o conteúdo, até agressões físicas e detenções arbitrárias”, explica a coordenadora da ONG, Fernanda Vallim Martos.

    Bater em jornalista é bater na sociedade toda, porque as pessoas tem direito à informação. É uma forma de impedir a liberdade de imprensa e ameaçar a democracia. A situação é preocupante. E não é só a polícia, tem manifestante batendo em jornalista também, tentando pegar o equipamento de trabalho, chutando porque o cara tá fazendo uma entrevista e não querem deixar. Bateu em um deles, bateu em todo mundo”, afirma.

    Fernanda diz também que alguns fotógrafos foram pedir ajuda ao Rio de Paz. “Não são fatos isolados, o que mostra que está havendo uma sistematização da violência”, disse.

    Há uma semana, o Ministério Público Federal, pela PFDC (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão), disse que iria monitorar as manifestações em São Paulo e Rio de Janeiro de forma geral, mas as agressões aos jornalistas continuaram acontecendo.

    A coordenadora da ONG Rio de Paz chama atenção para uma outra situação que afeta também a liberdade de imprensa. “Existe uma confusão: tem gente confundindo o emissor com o transmissor”, destaca Fernanda, se referindo à personalização das mídias tradicionais na figura do jornalista, que, no final das contas, só está ali também para fazer o trabalho.

    Para Fernanda, quanto mais pluralidade houver, melhor. “As mídias independentes são super importantes, mas os veículos tradicionais também merecem a mesma garantia para exercer a função de reportar a notícia”. No entanto, ela critica a ausência justamente de jornalistas de grandes veículos. “Hoje todos foram convocados a vir aqui ao Masp e discutir essas questões e olha esse esvaziamento. O silêncio, a ausência, corrobora com a violência sofrida”, afirmou.

    Caramante
    O fotojornalista Vinicius Gomes, 19 anos, foi agredido por PMs e teve sua câmera fotográfica destruída – Foto: Maitê Berna/Ponte Jornalismo

    De cabeça rachada

    Com a cicatriz de quatro pontos que levou na cabeça depois de ser agredido com cassetete da PM no dia 31 de agosto, durante mais um ato anti-Temer, o fotógrafo Vinicius Gomes, de 19 anos, também esteve no MASP nesta quarta-feira.

    Colaborador dos coletivos Guerrilha GRR e Afroguerrilha, o jovem teve o equipamento destruído por policiais enquanto junto de outros colegas fotojornalistas trabalhava na manifestação. Os restos da câmera foram entregues a ele dentro de um saco plástico. “Eles chegaram batendo, eu cai no chão. Estava com outros seis colegas e só eu e o Willian – também fotógrafo – fomos detidos”.

    Sem saber o motivo da detenção, foram levados para o 78º DP, onde passaram a noite. “Por causa do golpe na cabeça, eu cheguei na delegacia sangrando e pedi para me levarem para o pronto socorro. O policial me colocou na viatura e foi dar uma volta, só pra passar o tempo. Depois voltamos no DP e aí um funcionário viu que eu continuava sangrando e mandou me levarem para o hospital”, conta Vinicius, que, depois de retornar à delegacia, foi obrigado a assinar um boletim de ocorrência que dizia que ele e o colega Willian estariam jogando pedras na PM. “Só se a máquina fotográfica tiver uma nova função e além de tirar fotos possa lançar pedras”, ironizou.

    Por meio de financiamento coletivo, amigos fotógrafos de Vinicius já conseguiram o dinheiro para uma câmera nova. “Claro que dá receio, mas não vou parar de fazer meu trabalho”, concluiu.

    Vinicius Gomes diz que sente que o fato de ser negro piorou bastante a situação para ele. “Só bateram em mim, embora eu estivesse com outros colegas fazendo a mesma coisa: fotografando”. Embora um novo equipamento de trabalho poderá ser comprado com o dinheiro da “vaquinha virtual”, o jovem diz que gostaria de uma retratação do Estado. “Poderia ser até um pedido de desculpa. Isso não aconteceu”, lamentou.

    O outro lado

    Procuradas, a SSP, cuja assessoria de imprensa é comandada pela empresa privada CDN Comunicação, e a Polícia Militar não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

     

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