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Bombeiro incendiou casa de jornalista por ‘não gostar’ do que ele falava

01/04/21 por Raphael Sanz, especial para a Ponte

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Cláudio José Azevedo Assis teria confessado o crime e responde em liberdade; José Antônio Arantes, editor da Folha da Região de Olímpia (SP) conta ter sofrido três atentados desde que se posicionou a favor do isolamento social contra a pandemia

Na tarde desta quinta-feira (1/4), Marcelo Pupo de Paula, o delegado titular de Olímpia (SP) ofereceu, direto da delegacia da cidade, uma coletiva de imprensa para anunciar o autor dos atentados contra o jornalista José Antônio Arantes, editor do jornal Folha da Região, que também atingiram a sua família. O próprio Arantes transmitiu a coletiva pela página de facebook do seu jornal.

Segundo o delegado, o responsável direto pelo incêndio na casa de Arantes é o bombeiro Cláudio José Azevedo de Assis, popularmente conhecido Cláudio Baía, que confessou o crime mas segue em liberdade. O autor é funcionário público municipal concursado há 25 anos e, no âmbito da prefeitura, está sofrendo uma sindicância e pode ser exonerado.

Cláudio foi encontrado em Linhares (ES) após sua família dá-lo como desaparecido e abrir um boletim de ocorrência para procurá-lo. Segundo apuração da própria Folha da Região, o incendiário bombeiro estaria de férias, “curtindo a vida, descansando e vendo belas paisagens” em sua peregrinação rumo à Bahia. Sobre a questão financeira da viagem, teria dito ao amigo que no caso de acabar o dinheiro, venderia o carro e seguiria de bicicleta.

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O delegado não descarta um pedido de prisão futuro, mas como Cláudio é réu primário, e apontando que teria dificuldades materiais para empreender uma fuga, decidiu mantê-lo, por enquanto, respondendo em liberdade.

“Ele tem emprego fixo, residência fixa, é ativo e um filho de Olímpia. Sei que não vou agradar alguns, talvez outros entendam. Não descarto o pedido de prisão num futuro próximo, vai depender do trabalho de investigação”, declarou na coletiva.

A declaração chocou a todos os jornalistas que acompanham o caso, em especial a vítima, José Antônio Arantes. “A sensação é de impotência, de incredulidade e de temor de que algo possa acontecer novamente, principalmente com minha família que reside comigo. Como explicar para minha netinha de 9 anos que um profissional de 25 anos de carreira, treinado para salvar pessoas em situação de risco em razão de incêndios, coloca fogo na casa dela?”, desabafou para a reportagem da Ponte.

Sobre a investigação

“Fomos duas ou três vezes no jornal, conversamos com o Arantes, aceitávamos umas colocações deles, divergimos de outras e fomos trabalhando. Em 25 de março, uma quinta-feira, a senhora Cláudia, irmã do Cláudio, esteve aqui na delegacia e registramos, junto a ela, um boletim de ocorrência de desaparecimento do irmão. Ele não deixou nem uma carta, e foi embora”, contou o delegado Marcelo Pupo de Paula.

Em seguida, o delegado explicou brevemente como foi feito o trabalho de investigação. As câmeras instaladas na rua onde reside teriam mostrado o Cláudio saindo de casa, de moto, com a mochila nas costas às 4h10 da manhã do dia 17 e o crime ocorreu por volta das 4h15/4h17 daquela mesma madrugada.

“Essas imagens vieram a encaixar perfeitamente no nosso quebra-cabeça e passamos a investigar a possibilidade de outros envolvidos. Fomos à casa do Cláudio, ele não estava, ainda não tinha retornado de Linhares-ES. Conversamos com a genitora, com a irmã e elas falaram sobre uns problemas de ordem familiar que ele estava tendo. Ontem (31/3) de manhã, sabendo que o Cláudio tinha retornado de Linhares, no Espírito Santo, voltamos à casa dele. Ele novamente não estava, a família disse que havia ido ao médico e, então, pedi autorização, para que ela franqueasse o nosso ingresso na casa pois precisávamos olhar alguns pertences do Cláudio. Mãe e irmã autorizaram a entrada, e então nós vimos a moto dele na área externa, e, dentro do quarto do Cláudio achamos um capacete e uma mochila. Essa mochila, nas imagens do crime, chama a atenção. Imediatamente apreendemos a mochila, o capacete e a motocicleta e formalizamos o Boletim de Ocorrência para dar transparência ao nosso trabalho. Em seguida, confrontamos a mochila apreendida com a das imagens, e não temos nenhuma dúvida de que é a mesma mochila”, explicou.

O delegado continua sua linha de raciocínio com a chegada de Cláudio em casa que, dando conta do sumiço da moto e da mochila, deve ter tomado ciência, por meio dos familiares, da visita da polícia. Em seguida, “seu advogado, o doutor Léo Bom, me ligou dizendo que estava com o Cláudio no escritório, e que ele queria prestar um depoimento e confessar o crime”, explicou.

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De fato, na tarde da quarta-feira (31/3), Cláudio esteve na delegacia acompanhado do seu advogado. Em seu depoimento, ao qual a Ponte teve acesso, Cláudio disse que teria praticado o incêndio, falou sobre seus problemas pessoais e familiares, das divergências políticas com o jornalista da Folha da Região, disse que sofria um surto psicótico naquela madrugada e que agiu sozinho. Ainda afirmou ter atirado três celulares em um rio que passa pela cidade.

Na coletiva, o delegado Marcelo de Paula comemorou a resolução desta parte do caso e, em seguida, explicou as outras partes que ainda carecem esclarecimento: se há ou não mandante.

“Se uma pessoa vier aqui e disser que tem um mandante, ou que não, [essa pessoa] terá 50% de chances de errar e acertar. Nem nós, policiais, temos certeza disso. O Cláudio diz que não tem, mas isso não diz muita coisa, precisamos trabalhar [investigar]. Já pedi a quebra do sigilo telefônico do Cláudio e vou pedir também a quebra do sigilo bancário. Mas sabemos que na maioria dos casos, esse tipo de pagamento é feito em dinheiro e não vai aparecer na conta dele, mas é uma diligência que tenho que fazer. Outra diligência se refere a uma parte do depoimento de Cláudio na qual ele afirma ter jogado três celulares num rio da cidade”, explicou.

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O delegado ainda se comprometeu a solicitar uma varredura do rio por mergulhadores dos bombeiros a partir de segunda feira para procurar esses aparelhos. “São diligências que estamos fazendo para descobrir se há um mandante, uma terceira pessoa, e qual a motivação real para o crime”.

Mas para o jornalista José Antônio Arantes, vítima dos ataques, não há nada o que comemorar. Arantes ainda criticou o interrogatório do acusado afirmando ser inconsistente.

“Ao que tudo indica, o advogado orientou o cliente para que alegue que teve um surto psicótico e cometeu o atentado em estado de incapacidade mental. O sujeito cai em contradições várias vezes. Um delas, por exemplo, é a seguinte: como alguém que está fora de seu estado emocional perfeito comete um crime dessa forma, calmamente pegando um galão com gasolina velha em sua casa, completando com parte do que tem no tanque da moto, passando fita isolante na placa para não ser identificado e indo tranquilamente colocar fogo na redação e casa de um jornalista? Como alega que não sabia que morava gente no sobrado mesmo com luzes acesas e, em sendo bombeiro há 25 anos, não sabe que as casas conjugadas poderiam ter queimado junto, matando os vizinhos que moram nelas? Como uma pessoa joga três celulares em um riacho se não tem nada a esconder, nem ninguém a proteger?”, questionou o jornalista.

O caso

Na madrugada de 17 de março, o jornalista José Antônio Arantes, editor do jornal Folha da Região, da pequena cidade de Olímpia (50 mil habitantes, a 450km de São Paulo) acordou de madrugada com sua casa em chamas. Dias antes, um incidente na estrada tentou forçar sua filha e genro para fora da estrada que liga Olímpia a São José do Rio Preto, onde iriam buscar os exemplares impressos do jornal. Além disso, no domingo de manhã Arantes acordou com os pneus do seu carro murchos e teve de lidar com campanhas difamatórias e ataques virtuais ao longo da semana.

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Para a vítima, a motivação é política. Por ele defender as medidas sanitárias contra a pandemia no seu jornal, teria atiçado a ira de indivíduos negacionistas da região, que queriam a abertura comercial a todo custo e cuja reação teria escalado para os atentados.

Outro lado

A reportagem procurou o advogado Léo Cristian Alves Bom e o Ministério Público de São Paulo mas não obteve retorno até a publicaçaõ deste texto.

*Raphael Sanz é jornalista, editor do Correio da Cidadania e autor de Cronicavírus in Brazil: A Gambiarra da Destruição (Ed. Monstro dos Mares, 2021).

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