Trabalhador rural assassinado na Bahia é 48ª morte no campo em 2017

José Raimundo na plantação de feijão | Foto: arquivo pessoal

Coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra classifica violência no campo como “genocídio” ao comentar morte de José Raimundo

José Raimundo na plantação de feijão é a 48ª vítima de conflito de terra no país | Foto: arquivo pessoal

José Raimundo Mota de Souza Júnior, 38 anos, não tinha muita preocupação com a tensão que se instalou no Território Quilombola Jiboia, assentamento que engloba os municípios de Antonio Conselheiro e Filadélfia, na Bahia, quando correu por ali a notícia de que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra-BA) deu 90 dias aos fazendeiros desapropriarem a área. Seria o fim de 15 anos de lutas pela regulamentação da área?

Na quinta-feira (13/07), Júnior, como era conhecido, passou o dia ensolarado na pequena plantação de feijão que a família mantém. Depois de colher e limpar as sementes – que venderia ali pela região em feiras livres e armazéns -, ou partilharia entre os companheiros, atitude que costumava defender em palestras pela Bahia sobre Agricultura Familiar. Às 15h30, ele seguia para o carro, ao lado de um dos irmãos, contando histórias e vantagens pela fartura da colheita. Caçula entre os 10 filhos de dois camponeses, Júnior herdou o nome do pai e a vontade de mudar o destino da família. “Pela terra”, repetia, como um mantra.

Antes de abrir a porta da Chevrolet D-10 empoeirada, Júnior ainda teve tempo de se surpreender com o derrape de um carro preto. Três homens armados desceram decididos a matar. Um quarto continuava na direção com o carro ligado. O quarteto usava um blusão de padronagem camuflada. O irmão do camponês encarava o cano da arma quando foi jogado ao chão com chutes e sob ameaça de ser “fuzilado”. Quieto, viu um dos homens atirando pelo menos dez vezes contra a cabeça do agricultor. De longe, sobrinhos, que trabalhavam na roça, ouviram os disparos e se abaixaram no meio da plantação.

Os assassinos entraram no carro e atiraram dezenas de vezes para o alto. “Ele tombou como um guerreiro do campo”, lembrou Leomárcio Araújo da Silva em entrevista à Ponte Jornalismo, por telefone, enquanto aguardava o corpo do amigo no início da noite de sexta-feira (14/07). Segundo ele, uma peregrinação silenciosa de gente de toda a região se juntava às 224 famílias do quilombo.

Leomárcio e Júnior se conheceram em 2002, quando decidiram lutar por um pedaço de terra. Militavam juntos no MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) da região em prol da regulamentação fundiária da área e estavam satisfeitos com o andamento da situação da área. Desapropriar os fazendeiros e lhes dar a certeza de que não seriam mais incomodados trazia paz ao quilombo.

Assim que soube do assassinato, Thomas Bauer, um dos coordenadores da CPT (Comissão Pastoral da Terra) da Bahia, já sabia decor a estatística que ganhava outro dado de morte no campo: 48 assassinatos apenas em 2017 no Brasil. Ele viajou à região para dar apoio à família e aos agricultores que estão amedrontados. “Aqui o clima é de tensão”, relatou à reportagem. “O celular não pega direito”. Bauer ainda lembrou que o camponês sempre foi “generoso e participativo”.

Um amigo, que pediu anonimato por temer represália, conta que José Raimundo era um homem que amava plantar e ensinar. Não é difícil aferir essas características: fotos divulgadas nas redes sociais mostram o agricultor palestrando sobre sementes e Agroecologia. “Ele morreu com as mãos cheias de terra“, disse.

O delegado responsável pelo caso, Leonardo Virgílio Monteiro, se desvencilha quando é questionado se o assassinato foi motivado pelos conflitos de terra. “Este tipo de crime não é comum aqui na região do município de Antonio Gonçalves. Pelo que apuramos, Raimundo não tinha militância há mais de 20 anos”, disse, sem descartar, contudo, nenhuma hipótese: “Investigamos todas as linhas”.

Em contrapartida, o coordenador nacional da CPT, Paulo César Moreira, informou que não tem dúvidas de que as motivações estão ligadas “à luta pela regulamentação, acesso à terra, posse das áreas de conflitos”. Para ele, Júnior “era comprometido com a causa do campo. Ele estava em uma área de conflito, com clima de medo, ensinava como cuidar da terra, a plantar e ainda tem a notificação do Incra-BA aos fazendeiros há pelo menos 15 dias”.

O coordenador classifica como “genocídio” as 48 mortes que ocorreram apenas este ano no campo. “Ocorre no país um desmonte do Estado e, por isso, dos direitos. Há perseguição, massacre”. Engasgado de emoção, ao lado da viúva de Júnior, um padre, na casa simples que um irmão cedera para o velório, o único versículo que cabia na ocasião: “Ouço o sangue do seu irmão, clamando da terra por mim”.

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