Carlos André, 13 anos, morto por PM no Rio e acusado de latrocínio

Polícia Civil coloca adolescente hospitalizado sob custódia por suposta participação em latrocínio de policial. Família discorda e suspeita que boatos possam ter influenciado investigação

Mãe de Carlos André fala de revolta e saudade | Foto: Leonardo Coelho/Ponte Jornalismo

A mãe de Carlos André Santos de Jesus lembra até agora da humilhação que ela e o pai do adolescente de 13 anos sofreram no hospital ao tentar visitar o filho, que estava em estado grave no hospital. “Um PM mandou a gente se retirar da enfermagem que estávamos porque o Carlos estaria sob custódia”, disse Simone dos Santos, cuidadora de idosos. “O pai dele até se alterou com o agente, questionando o porquê disso, uma vez que foi um outro PM o responsável pelo estado dele”.

Carlos André havia sobrevivido a um ataque à tiros na noite do dia 18 de maio. Neste dia, ele, o amigo Juan Henrique Amorim dos Santos e outro adolescente de 15 anos estavam chegando de carona na Avenida São Paulo, em Mesquita, município na região metropolitana do Rio de Janeiro. Foi quando um deles quis simular um assalto para assustar uns amigos que estavam na rua.

Nessa hora o policial à paisana Flávio de Souza Cabral se levantou da lanchonete onde estava e disparou cerca de 11 tiros em direção ao carro. Juan morreu na hora, mas Carlos conseguiu resistir e foi levado na madrugada do dia 19 de maio, um sábado, para o Hospital Geral de Nova Iguaçu, onde deu entrada na unidade de tratamento intensivo. O jovem levou três tiros: um na mão direita, um que atingiu seu intestino e seu fígado e outro que acertou seu pulmão.

Em nota, a PMERJ (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro) confirmou a participação do PM Cabral no incidente, pontuando que ele “socorreu as vítimas e o próprio apresentou a ocorrência na delegacia. O militar participou o fato ao seu comandante e o incidente segue investigado pela Polícia Civil.”

Reconhecimento e custódia

Segundo a família de Carlos André, as visitas no hospital aconteceram normalmente até terça-feira, dia 22 de maio, quando foram impedidos por um policial de visitar o filho. Eles contam que o oficial disse que o adolescente estava sendo acusado, junto com o outro jovem (cuja identidade será preservada) de participar do latrocínio contra o policial militar Eduardo da Silva Dias, crime ocorrido no último dia 17 de maio, um dia antes do ocorrido na Avenida São Paulo, em Mesquita.

“O policial falou que a esposa do PM morto veio no hospital e reconheceu meu filho como envolvido no crime”, conta Simone. Antônio Carlos, o pai, chamou a atenção para como esse suposto reconhecimento foi feito. “Como que essa moça poderia reconhecer meu filho se ele está todo entubado?”, questionou. Ainda, de acordo com a família, os agentes de custódia não apresentaram qualquer tipo de documento oficial comprobatório nesse dia.

A PCERJ (Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro) não respondeu aos pedidos da reportagem para esclarecer de que modo foi feito esse reconhecimento, nem em que data teria acontecido e se ele foi oficializado pela investigação do caso do latrocínio do policial. Também não respondeu como Carlos estaria custodiado sem que um ofício do Ministério Público tivesse sido expedido.

O drama da família teve fim apenas quando uma médica, ao ver o alvoroço, deixou a família entrar, citando que tinha havido um erro e que haveria dois pacientes homônimos. A custódia de Carlos André foi oficializada no dia seguinte, 23 de maio. É dessa data a representação do Ministério Público em face de Carlos André pelo ato infracional análogo ao artigo 157, parágrafo 3, que no Código Penal representa o crime de latrocínio. “Nós não fomos informados de nada. Apenas chegamos no hospital e fomos impedidos de ver nosso filho”, disse Simone.

A casa em que Carlos morava com a mãe e o padrasto | Foto: Leonardo Coelho/Ponte Jornalismo

Na decisão, o juiz de André Luiz Duarte Coelho, do Juizado de Infância e Juventude e do idoso da Comarca de Nova Iguaçu, município da região metropolitana do Rio, pede a internação provisória do adolescente. Ele pontua que, para o MP, Carlos, por volta das 19h48 do dia 17, “consciente e voluntariamente, em comunhão de ações e desígnios com outros indivíduos não identificados, em via pública, agindo mediante violência exercida por meio de disparos de arma de fogo em desfavor da vítima Eduardo da Silva Dias, subtraiu, para si, em proveito próprio e do grupo, veículo automotor de propriedade da vítima acima descrita”.

No site da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, na seção de notícias das delegacias especializadas, inclusive noticiaram no dia 24 de maio a detenção do adolescente e sua relação com o latrocínio que vitimou o policial, destacando o caso como mais um esclarecido pela DHBF (Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense)

O álibi da família

A versão, porém, não bate com o que a família de Carlos André diz. O próprio pai do jovem, o segurança Antônio, foi à DHBF (Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense) espontaneamente no dia 30 de maio explicar que, no dia 17 daquele mês, seu filho estava em uma aula de futebol com ele em Ricardo de Albuquerque, bairro da zona norte do Rio. O jogo aconteceu por volta de 18h30 e 20h30, o que invalidaria sua participação no latrocínio. “Além disso, meu filho tinha pavor de arma”, disse o pai. Seu depoimento, registrado em ata a qual a reportagem teve acesso, explicita ainda que este o rapaz voltou para a casa de trem com a mãe, fato confirmado pela própria.

“Na DHBF eles recuaram e disseram que não haviam dito que tinha sido meu filho. Disseram apenas que ele poderia estar envolvido. Poderia” , lembra Antônio, que pediu aos investigadores que as imagens da concessionária Supervia fossem captadas para provar sua versão. A PCERJ, até o momento, não respondeu se foi feito o pedido dos registros das estações de embarque e desembarque de Carlos André e seus pais.

A reportagem esteve presente na casa de Carlos e averiguou com a família que a polícia não fez qualquer tipo de busca por armas ou objetos roubados na residência do jovem. O adolescente também não tinha passagem pela polícia. “Ele inclusive tinha medo de sair na rua. Só saia com os amigos, como o Juan”, lembra a mãe, que diz que o filho até ia de transporte para o colégio por conta do medo que ela tinha de assalto e de “coisas ruins” acontecendo.

Família suspeita de boatos

Até agora não está claro para a família, parentes e amigos próximos de onde surgiu o suposto elo entre os casos do dia 17 e do dia 18. Alguns, porém, têm uma pista para o que pode ter acontecido. Segundo o padrasto de Carlos, que chegou ao Hospital Geral de Nova Iguaçu pouco depois da entrada do afilhado, o socorrista responsável pela ambulância confidenciou-lhe que o jovem já veio “marcado” como bandido. “Esse foi o meu medo, porque a gente sabe que existe tratamento diferenciado no socorro médico”.

O Hospital Geral de Nova Iguaçu explicou que Carlos André deu entrada às 4h11, do dia 19 de maio em “em estado gravíssimo após sofrer perfurações causadas por arma de fogo na região do tórax e do abdômen”. “No dia 20 de maio, o menor sofreu uma parada cardiorrespiratória. As equipes médicas conseguiram reanima-lo, mas o seu quadro clínico era tão grave que ele dependia de medicamentos para manter os seus sinais vitais”, explicou, citando uma nova parada no dia 26 como fatal, sem explicar a causa da morte, pois “O médico legista do IML é quem determina a causa da morte de pacientes que dão entrada na unidade vítimas de politrauma ou de morte violenta.”

Quanto ao questionamento para saber se ele foi registrado como “adolescente-infrator”, o hospital apontou que a investigação “é de responsabilidade das autoridades locais”. ”

A origem desse boato ainda é desconhecida, mas testemunhas que estavam na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Edson Passos, o primeiro lugar onde o carro com os meninos foi levado na madrugada do dia 18, relataram que ouviram policiais compartilhando informações de que haveria armas no carro onde estava Juan e Carlos André. O Registro de Ocorrência do caso, porém, não menciona qualquer tipo de armamento apreendido fora o utilizado pelo Policial Flávio de Souza Cabral, uma pistola Glock 9mm.

Juan (de vermelho) e Carlos André, ambos mortos a tiros | Foto: Adonaza

Outro ponto discordante é a nota publicada no site da PCERJ, que cita que houve uma tentativa de assalto ao carro do agente Flávio. Entretanto, no próprio registro, comunicado inicialmente pelo policial que atirou, não há qualquer indicativo nem da intenção do roubo e nem do carro de propriedade do policial. A Polícia Civil até o momento não esclareceu se alguma testemunha compareceu ao 53° DP (Distrito Policial) para dar suporte à versão veiculada oficialmente.

Para a família, a suspeita é que o PM tenha dito a verdade em depoimento, mas espalhado a versão de que os meninos eram bandidos aos colegas. “A história deve ter crescido a partir daí”, comenta o pai. “Acredito que a investigação foi na onda dos boatos”.

O Falecimento

Carlos André faleceu dia 26 de maio, às 14h45, com 13 anos de idade, detido por latrocínio e sozinho no quarto do hospital. Sua mãe não pôde vê-lo, pois os horários de visita para custodiados são bastante estritos: sempre às segundas, quartas e sextas-firas, das 13h às 13h30.

O pai, Antônio, que mora no Rio de Janeiro, atualmente está tendo que refazer exames no coração por conta do estresse. Mas a conta não apenas fisicamente. “Depois desse dia eu fico com pé atrás com a polícia, e olha que eu tenho familiares delegados e eu fui ensinado a sempre respeitar os homens da lei”.

“O que a gente quer é provar que ele não tinha nada a ver com essa história”, diz Simone, que junto com o atual marido, concorda que a falta que Carlos André faz ecoa até mesmo na casa, agora bem mais silenciosa e com menos estripulias. “O que mais faz falta é ele correndo pra lá e pra cá. Ele era o nosso ‘levado favorito’. Era ele que agitava isso aqui”, lembra o padrasto, quase às lágrimas.

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