Chefe da Polícia e MP enquadram delegado: ataque com suástica será investigado

Jovem que afirma ter sido cortada com canivete por apoiadores de Bolsonaro havia desistido de denunciar crime por causa da postura do delegado, para quem suástica é ‘um símbolo de amor’

Ferimentos feitos com canivete e à força, segundo perito forense ouvido pela Ponte | Foto: arquivo pessoal

O chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, Emerson Wendt, anunciou em sua conta do Twitter que os policiais vão investigar o caso da jovem de 19 anos que teria sido agredida e riscada com uma suástica nazista na barriga na última segunda-feira (8/10), em Porto Alegre. Na noite de ontem (10/10), o delegado responsável pelo caso Paulo César Jardim, titular da 1º DP de Porto Alegre, havia suspendido as investigações após a vítima desistir de representar criminalmente os agressores.

Uma amiga próxima da vítima, que não quis se identificar por estar recebendo ameaças, contou à Ponte que a jovem desistiu da representação contra os três homens por medo de novas agressões e por conta das declarações do delegado responsável pelo caso.

“Ninguém sabe o que a gente está passando. Inclusive deletei meu Facebook porque tentaram hackear e estão me mandando diversas mensagens ameaçadoras. Estamos com medo e esse foi um dos motivos dela desistir de denunciar, junto com a fala do delegado do caso”, contou.

Ao receber o caso, o delegado Paulo Jardim afirmou, em entrevista à Rádio Gaúcha na tarde desta quarta-feira (10/10), que a imagem riscada na pele da jovem não era um símbolo nazista e que era uma imagem que representava ‘amor, paz e harmonia’.

O chefe da PC, em sua declaração no Twitter, afirmou ainda: “Não podemos deixar de analisar todas as circunstâncias que envolvem a alegada agressão, sua motivação e como teria ocorrido. Também, cabe a verificação de incidência de algum outro tipo penal”.

A coordenadora geral da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS), Ariane Leitão, contou à Ponte que atendeu a vítima na delegacia e que ela estava bastante assustada. “Além do crime ter uma causa política, ele envolve ódio à questão da orientação sexual, o que também é muito forte. Ela foi torturada por alguns minutos por esses homens que, enquanto faziam a marca nela, falaram coisas sobre ela ser uma mulher lésbica e sobre ela ser contra o candidato Bolsonaro”, explicou.

Em entrevista à Ponte, o delegado Paulo Jardim afirmou que a vítima não estava identificada como LGBT e nem com adesivo contrário ao candidato do PSL. “Ela desmentiu essa história, disse que não tava com nada que identificasse isso”, disse.

Segundo a comissão da ALRS, a declaração do delegado não condiz com a realidade. “Ela, sim, estava com adesivos do ‘Ele Não’, ela estava identificada. Sim, se trata de um crime político, analisando o que ela falou e conversando com as advogadas dela. Além disso, é um crime que envolve ódio à questão da orientação sexual dela, principalmente por ser mulher. Ela é uma menina que não tem os estereótipos que eles aceitam, é uma menina lésbica”, contou Ariane.

A assessoria de Secretaria de Segurança Pública do RS informou que a investigação foi retomada por conta de uma indicação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) para averiguar o caso. A assessoria do MP gaúcho informou que não houve uma indicação formal, visto que a PC tem 6 meses para arquivar ou submeter a inquérito o fato ocorrido. Porém, como existe uma boa relação entre as duas instituições, indiretamente foi sugerido reabrir a investigação.

Confira a entrevista concedida pelo delegado Paulo Jardim à Ponte sobre as divergências do caso:

Ponte – Por que o caso foi dado como encerrado no primeiro momento?

Delegado – Porque ela não quis denunciar, ela não teve interesse, ela não queria nem registrar o B.O., só registrou porque as amigas insistiram…

Ponte – Por que o senhor voltou atrás para investigar o crime?

Delegado – Para que não aconteça outras vezes, para evitar qualquer ação violenta relacionada. Nós vamos investigar a lesão corporal que ela tem.

Ponte – Ela disse que foi agredida com socos também. Havia hematomas nela? Foi feito exame de corpo e delito?

Delegado – Sim, ela afirmou isso. Havia hematomas também. O exame foi realizado, mas o resultado ainda não saiu.

Ponte – Por que o senhor qualificou o crime como lesão corporal leve e não como crime de ódio?

Delegado – Porque não foi um crime de ódio.

Ponte – Mas ela estava com o adesivo do ‘Ele Não’ e uma bandeira LGBT, delegado…

Delegado – Ela desmentiu essa história, disse que não tava com nada que identificasse isso.

Ponte – Delegado, pessoas próximas da garota afirmaram que um dos motivos dela não ter entrado com a representação foi por medo e também por suas declarações de que a imagem riscada com um canivete nela significava ‘paz e harmonia’. O senhor não acha que essa declaração sua atrapalhou?

Delegado – Mas é uma imagem que significava isso, vai olhar no Google e responda você mesmo sua pergunta.

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