E se a polícia tivesse matado este ladrão de carros?

Como os meninos Ítalo e Waldik, mortos pelo Estado, Chico Buarque já foi um “pivete” que furtava carros. Diferente deles, sobreviveu à polícia e teve a chance de crescer.

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Um pouco antes da meia-noite de 29 de dezembro de 1961, uma sexta-feira, dois jovens, de 17 e 16 anos de idade, vasculham as ruas arborizadas e vazias do bairro do Pacaembu em busca de um carro para furtar.

A dupla encontra um automóvel Pegeout dando sopa na rua João Florêncio perto da avenida Doutor Arnaldo.

Em menos de um mês, este seria o segundo carro levado pela dupla na mesma rua do bairro nobre da capital paulista. O sucesso no primeiro furto de automóvel aguçou a ousadia dos rapazes.

O Pegeout estava estacionado a algumas quadras da casa do rapaz mais novo, aliás, ambos moraram em belas casas no Pacaembu e eram de famílias ricas.

Naquele início da década de 1960, a farra preferida dos jovens era mandar para as cucuias o sétimo mandamento cristão (‘Não Roubarás’) e dar umas voltas pela cidade com o carro alheio. Depois da curtição, o carro era abandonado o mais perto possível do local do “empréstimo” com um considerável desfalque no tanque de combustível.

A aventura daquela noite de 29 de dezembro não acabou bem para a dupla. Com dificuldades para ligar o veículo, os dois garotos decidiram empurrar o carro até o muro do estádio do Pacaembu, onde dariam uma olhada no motor para tentar resolver o problema na ignição.

Um guarnição da polícia que fazia ronda no bairro surpreendeu a dupla e os dois foram parar na antiga central de polícia, que ficava na rua Brigadeiro Tobias, no Centro da cidade. Lá, apesar de menores de idade, os dois levaram uma surra e foram ameaçados pelos policiais. O clima ficou muito tenso.

Os dois foram fichados e fotografados para o prontuário. O medo e resquício do choro ficaram impressos nas fotos. Alguém do Departamento de Investigações da Polícia resolveu ligar para a redação do jornal Última Hora (a versão paulistana) e contar a história da prisão dos dois pivetes sem mencionar a surra que eles levaram. A imprensa “comprou” a versão da polícia e publicou a matéria abaixo.

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A violência e o abuso policial na prisão dos rapazes no final de 1961 fazem um triste paralelo com a morte dos dois garotos negros, ambos com menos de 12 anos de idade, e envolvidos em roubos de carro, na cidade de São Paulo agora em 2016. Ítalo tinha 10 anos e Waldik, mais conhecido com Biel, 11.

Os rapazes que, em 1961, apanharam da polícia e foram identificados na reportagem pelas inicias F.B.H. e O.J., eram o Chico Buarque de Holanda, um dos maiores gênios da MPB, e o jovem Olivier Jolles, mais conhecido como Francês na turma da bagunça no Pacaembu.

Jolles adorava carros e velocidade. Era o companheiro inseparável do Chico nas confusões. Eles formavam a dupla “Francês e Carioca”. O pai de Jolles era um empresário famoso e influente.

A responsável pelo resgate dos dois amigos da mão da polícia foi a irmã de Chico, Miúcha, que na época tinha 24 anos. “Os nossos pais estavam em viagem no exterior e eu estava tomando conta da casa. Alguém da delegacia ligou para checar a história dos garotos e informar que eles estavam presos. Eu fiquei em choque e liguei para o pai do Oliver, depois peguei um táxi e fui para a delegacia muito preocupada com o que poderia acontecer com o meu irmão”, disse quando a entrevistei sobre essa história, em 2011.

Quando ela chegou na delegacia, o pai do Oliver já estava lá e havia negociado a liberação dos rapazes com o delegado. Já era quase de manhã.

“O pai do Olivier destoava completamente daquele ambiente feio da delegacia. Ele estava usando luvas e um smoking impecável. Ele foi muito educado e prestativo. Tive que assinar um papel para poder sair com o Chico e só”, contou.

Por conta do delito, o juiz responsável pelo Recolhimento Provisório de Menores (RPM) determinou que os rapazes não poderiam mais sair de casa à noite até a maioridade. Para Chico, a reclusão domiciliar foi de 172 dias, durante o ano de 1962.

Esses seis meses sem poder curtir livremente a luz da lua fizeram Chico adquirir novos hábitos e habilidades. Até então, ele não ligava muito para música e nunca tinha encarado o violão com seriedade. O que ele gostava de fazer era escrever alguns poemas que chegaram a ser publicados no jornalzinho do colégio.

Com um pouco de pena do irmão que não podia mais sair de casa, Miúcha ensinou alguns acordes e dicas de harmonias. Lições que ela aprendeu com o poeta Vinicius de Moraes, amigo íntimos da família Buarque.

“Ensinei os acordes para o Chico, que aprendeu muito rápido. Em pouco tempo, ele já estava tocando melhor do que eu. Nossa família é muito musical. Não é à toa que quatro dos sete irmão viraram músicos depois”, disse Miúcha.

Nos seis meses de reclusão noturna, Chico perdeu várias festas e comemorações. Naquele ano, no Chile, a seleção brasileira foi bicampeã mundial com uma atuação magistral do Garrincha.

“Chico cumpriu à risca o período determinado pelo juiz. Ele gostava de dizer nas rodas de amigos que poderia ficar só até determinado horário porque tinha que estar em casa por decisão judicial. Era um status para ele”, disse Miúcha.

Em 1993, a foto do prontuário policial do Chico foi usada para a arte da capa do álbum Paratodos. A história ganhou uma música, A foto da capa, registrada no mesmo álbum, em que o compositor recorda seus dias de “larápio rastaquera”.

Fiel ao princípio de solidariedade entre ladrões, Chico nunca revelou o nome do amigo que tinha sido preso com ele. Durante décadas, as iniciais O.J. foram um mistério.

Por sua vez, Olivier só contou a história da prisão para os amigos mais íntimos, mas também protegia o nome do Chico. Olivier se tornou um alto executivo de uma banco com sede em Manhatan e um grande amante do jazz. Ele adorava participar de jam sessions em barzinhos de Nova Iorque e de São Paulo.

A amizade com Chico durou a vida toda. Ele sempre arranjava um tempo para visitar o amigo famoso no Rio. Em uma dessas visitas, ele teve o prazer de acompanhar, com uma caixinha de fósforo, o mito João Gilberto ao violão. Dizem que João gostou tanto de Olivier que pegou o endereço do percursionista especialista em Bolsa de Valores. Algum tempo depois, ele recebeu um pacote de NY com uma camisa. Era um presente do João.

Sobre a noite do roubou, Olivier fez uma revelação ao amigo e pianista Luiz Mello. “Ele disse que os dois levaram muita porrada dentro da viatura da polícia enquanto estavam algemados”, contou.

Além da música, Olivier também era apaixonado por carros e velocidade. Com um DKV envenenado, ele venceu uma prova automobilística em Piracicaba, interior do estado, e ficou em oitavo lugar na tradicional “Mil Milhas de Interlagos”. Morreu em 2008, de infarto.

Já o seu antigo parceiro de malandragens rastaqueras continua por aqui. Em vez de furtar carros, segue fazendo história na música e na literatura.

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