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Com histórico racista, Jundiaí (SP) realiza ato em repúdio a morte de João Alberto

24/11/20 por Vinicius Vieira, especial para a Ponte

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Organizado por lideranças de coletivos e movimentos negros da cidade, protesto pacifico aconteceu no estacionamento do Carrefour sob vigilância da Polícia Militar

Manifestantes protestam em frente a unidade do Carrefour em Junidaí (SP) | Foto: Ana Laura

Após a morte brutal João Alberto Silveira de Freitas no hipermercado Carrefour em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra, uma série de atos e protestos tomaram conta do país nos últimos dias. No último domingo (22/11) na cidade de Jundiaí, ocorreu um ato pacífico na unidade do Carrefour da cidade.

Organizado por membros de inúmeros grupos, coletivos e movimentos negros da cidade, o protesto marcado para às 10h, contou com aproximadamente 70 pessoas, respeitando todas as normas de distanciamento social, imposta pela OMS, diante da pandemia da Covid-19.

Entretanto, a Polícia Militar do município soube do ato com antecedência e esteve presente em grande número: “A ‘inteligência’ da PM, quando é pra ser usada contra preto, pobre e periférico, funciona muito bem”, diz Vanderlei Victorino, mais conhecido como B.A., bailarino, coreógrafo, membro da coordenação nacional e estadual do Círculo Palmarino e um dos organizadores do ato. A gerência do Carrefour Jundiaí, temendo qualquer tipo de tumulto, optou por fechar as portas da loja. No estacionamento externo, os participantes levantaram cartazes e bradaram palavras de ordem.

Policial filmando os manifestantes no estacionamento do Carrefour Jundiaí | Foto: Matheus Henrique

B.A. fez a leitura de uma carta aberta assinada por 19 movimentos, coletivos e núcleos antirracistas, pedindo o fim do extermínio do povo negro. Além de repudiar o assassinato de João Alberto Silveira de Freitas, criticando, inclusive, quem não fez nada para impedir a sua morte: “Filmagens mostram pessoas espantadas diante da cena, mas impotentes para barrá-la. Fomos obrigados a nos deparar com mais uma cena de violência contra ele e, que, novamente, põe em evidência os efeitos do racismo estrutural e institucional ainda fortemente presente em nosso país”, diz a carta, que também reivindicava ações por parte do próprio Carrefour, como:

  • Apuração imediata do crime racial seguido de morte
  • Tipificação do crime cometido pelos seguranças qualificados, também como crime de ódio, crime de racismo, além de crime doloso, seguido de morte.
  • Que todas as terceirizadas de segurança, contratem negros(as) para repassarem treinamentos antirracistas para todos os seus funcionários.
  • Que 30% dos cargos, de média e alta direção de todas as unidades do Carrefour, sejam ocupados por negros(as) até o dia 21 de março de 2021, dia internacional de luta contra o racismo.

Entre outras exigências que podem ser lidas na íntegra aqui.

“Tivemos o cuidado de pensar uma carta aberta, onde demonstramos a nossa indignação e revolta pela morte do Beto, mas também nessa carta, reivindicamos e exigimos que a empresa cumpra com todos os pontos apresentados nela e assuma de uma vez que é racista, mas que a partir de agora terá práticas, ações, posturas e políticas de combate e enfrentamento ao racismo, bem como para a promoção da igualdade racial”, diz B.A.

Leita também: A fúria negra ressuscita outra vez: Brasil tem dia de protestos contra racismo

Para a professora de história, promotora legal popular e co-fundadora do Coletivo de Escritoras Negras Flores de Baobá, Joice Aziza, a importância da realização de um ato como esse é para amplificar as vozes negras: “Cada vez que questões que aconteceu com o João, mas que também aconteceu com Amarildo, que aconteceu com a Luana Barbosa, entre muitas outras pessoas negras, elas precisam ser reverberadas em atos e protestos, para mostrar pra população branca e racista que nós temos vozes e que não vamos nos calar diante desses acontecimentos racistas que eles nos colocam a cada minuto”.

Protesto neste domingo (22/11) em unidade do Carrefour em Jundiaí (SP) | Foto: Ana Laura

Evitar que situações como que aconteceram com João voltem a repetir, o consultor imobiliário e membro da Marcha da Consciência Negra de Jundiaí, Vitor Silva, também presente no ato, acredita que ações coletivas podem pressionar grandes empresas: “É muito importante um ato como esse para chamarmos a atenção de toda direção da empresa e de toda a sociedade, de modo geral, para evitar que se possa praticar algo igual”.

O protesto contou com a presença relevante de jovens negros. Para o estudante de Ciências e Humanidades na UFABC, Matheus Henrique, essa participação é de suma importância: “Cada vez mais jovens como eu estão despertando para a necessidade de serem combativos em situações de injustiça social. E o preconceito racial é um dos maiores problemas que assola nosso país há séculos e é a raiz de muitas questões sociais presentes hoje em dia. Se faz necessário que tomemos o protagonismo de nossas histórias e que lutemos para mudar de vez o status quo”.

Leia também: O que o assassinato de João Alberto na porta do Carrefour significa no Dia da Consciência Negra

Vitor Silvia, militante do movimento negro desde os anos 1980, vê esse rejuvenescimento da luta antirracista com bons olhos: “Hoje eu estou com idade de ficar só nos bastidores, mas não dá mais diante de um ato deste, me sinto na obrigação de ir pra rua com os jovens militantes negros. Tenho sobrinhos, netos, conhecidos jovens que poderiam ser a próxima vítima”.

Outra presença bastante considerável no ato, foram de pessoas brancas que vieram somar na luta antirracista, como foi caso da radialista, apresentadora do programa Francamente, na Rádio Difusora de Jundiaí e bacharel em direito, Tainan Franco: “Como mulher branca que reconhece seus privilégios, penso que o primeiro ponto é ouvir o que o povo preto tem a dizer, e o que está nos dizendo há séculos. É emprestar o corpo para proteger o corpo negro mais vulnerável em uma manifestação. É ceder o próprio espaço para dar voz e deixar que eles contem sua própria história. É ouvir, aprender e seguir ao lado na luta, como aconteceu hoje. Nós brancos temos que sair da inércia na luta antirracista”.

Para Joice Aziza, é necessária a participação de pessoas brancas na luta antirracista, considerando que o racismo parte deles: “As pessoas brancas precisam estar nesses atos, porque o racismo não é um problema do negro, quem inventou o racismo foi a população branca, então elas precisam estar nessa luta e entender os seus privilégios, o seu lugar, precisam estar nesses lugares com a gente, pra gente poder lutar contra as questões raciais, e só assim eu acredito que a gente possa começar a pensar em uma sociedade igualitária de fato. As pessoas brancas antirracistas precisam vir com a gente, não é só fazer um ativismo de rede social, subir uma hashtag ‘Vidas Negras Importam’, e na hora de fazer ato não estarem presentes, elas são muito importantes pra gente”.

A cidade de Jundiaí e o seu histórico racista

Um ato de justiça por João Alberto Silveira de Freitas acontecer em Jundiaí, na semana da consciência negra, é bem icônico e simbólico, considerando o histórico racista que a cidade interiorana possui.

Em setembro de 2019, Jundiaí ficou nacionalmente conhecida, pelo caso de racismo dos moradores do bairro Eloy Chaves, que ao verem o jovem fotógrafo Gabriel Souza tirando fotos pelas ruas do bairro, pensaram se tratar de um bandido e iniciaram pelo grupo do Whatsapp do bairro um movimento para prendê-lo ou até mesmo linchá-lo. Quem estava presente neste grupo, incentivando a população a ligar para a guarda municipal, era o vereador Antônio Carlos Albino (PSB).

Em áudio, na ocasião, ele disse: “Boa tarde! Se vocês virem esse indivíduo para a rua, por favor, já liguem 153, porque a viatura da guarda está tentando achar ele no bairro. É um suspeito de estar filmando e tirando fotos das casas”. Pela conduta racista, Albino foi expulso do partido. Entretanto, filiado ao PL (Partido Liberal), nas eleições no dia 15 de novembro desse ano, Albino foi reeleito vereador com 7.345 dos votos, sendo o mais votado. “A vitória de um vereador que foi expulso de um partido por práticas racistas escancara o racismo jundiaiense, pois foi eleito com maior número de votos na cidade”, afirma B.A.

Leia também: Como será o amanhã? Personalidades negras sonham um futuro para os movimentos negros no Brasil

Ainda em 2019, no dia 27 de dezembro, o jovem Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, o Cadu, 20 anos, estava com amigos em um bar no bairro São Camilo, quando ele, o único negro, foi abordado pela polícia, levado dentro da viatura e segue desaparecido até o momento.

E o último caso de racismo em Jundiaí com repercussão nacional aconteceu nesta semana quando o colégio particular Domus Sapiens fez um peça publicitária, que na foto original continha quatro estudantes, entre elas uma aluna negra de 10 anos de idade, mas na edição final, utilizada nas redes sociais, uma frase de autoria do Paulo Freire tampava por completo a menina da imagem. A família da criança registrou boletim de ocorrência contra escola. O colégio, por sua vez publicou uma nota para imprensa, informando que o caso não passou de um mal entendido:

“Ao contrário da interpretação dada pelos usuários em questão e das injuriosas acusações, na data de 20/11/2020 a Agência de Publicidade contratada pelo Colégio elaborou ao todo 41 postagens, em pacote, sendo que em praticamente todas as postagens feitas naquela oportunidade, o lado escolhido para a colocação da caixa de texto é justamente o lado direito da foto, se sobrepondo aos rostos de muitos outros alunos, em outras fotos, inclusive, alunos brancos, com o intuito de seguir um padrão estético na diagramação da publicidade (já que as fotos seriam lidas em sequência).

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Ou seja, analisado o conteúdo da publicidade feita naquela data, não sobreleva qualquer dúvida de que a ocultação da imagem da aluna em questão, não foi propositalmente escolhida por critério racial, e sim, pelo critério geral de posicionamento da caixa de texto nas fotos”.

Peça publicitária do Colégio Domus Sapiens | Imagem: Reprodução

B.A reforça o discurso que Jundiaí, historicamente falando é uma cidade elitista e racista: “Os olhares e práticas de uma minoria de jundiaienses são terríveis, são perversos, são maldosos, e a cidade tem uma característica muito importante que é a solidariedade e, por conta disso, os racistas se utilizam disso para se safar do racismo que denunciamos diuturnamente”.

Diante de todo esse histórico, Joice Aziza confirma a importância da realização de um ato como esse na cidade: “Esse ato ocorrer em Jundiaí é extremamente importante pra cidade observar que a população preta e antirracista não está de brincadeira, nós temos sim que fazer essas ações”.

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