Comissão da Verdade da Democracia Mães de Maio se reúne com movimentos sociais

18/02/15 por André Caramante

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Reunião será sexta-feira (20/02), às 15h, na Alesp (Assembleia Legislativa de SP), auditório Paulo Kobayashi. Organização de comissão quer escutar sugestões dos movimentos sociais
Integrantes do movimento independente Mães de Maio | Foto: Acervo Mães de Maio

Integrantes do movimento independente Mães de Maio | Foto: Acervo Mães de Maio

Criada com o objetivo de apurar alguns dos crimes praticados pelo Estado brasileiro no período democrático, suas consequências e as conexões com a Ditadura, a Comissão da Verdade da Democracia “Mães de Maio” fará seu primeiro encontro público às 15h da próxima sexta-feira (20/02), na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo).

A comissão pretende reunir movimentos sociais para apresentar os trabalhos a serem desenvolvidos e, principalmente, receber sugestões sobre como a comissão poderá ser utilizada como ferramenta social a serviço das vítimas e dos familiares das violações do Estado brasileiro.

Batizada de “Mães de Maio” em homenagem ao movimento independente de mesmo nome, criado por mães de mortos durante a onda de violência no Estado de São Paulo em maio de 2006 e em outros períodos democráticos também, a Comissão da Verdade da Democracia projeta conseguir demonstrar como o acesso irrestrito a direitos como Justiça, verdade, memória e reparação podem fortalecer a Democracia no Brasil.

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Em junho de 2012, integrantes das Mães de Maio foram a Brasília e protocolaram na Presidência da República o pedido de instauração de uma comissão que pudesse abordar os crimes cometidos pelas forças de segurança e seus representantes.

Dois consultores da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça já trabalham no levantamento de dados para a Comissão da Verdade da Democracia, que será  criada pelo deputado estadual Adriano Diogo (SP) e receberá apoio da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e do também deputado estadual Marcelo Freixo (RJ).

Pela memória de uma das mães de maio

Na reunião de sexta-feira, a Comissão da Verdade da Democracia homenageará a dona de casa Rita de Cássia Monteiro, uma das integrantes das Mães de Maio que morreu no último domingo (15/02), em São Vicente, litoral sul de São Paulo. Rita contraiu câncer em 2011. Segundo familiares, a doença foi decorrência do choque pós-traumático causado pelo assassinato de seu filho, Rogério, em março de 2007, em Santos, também no litoral paulista.

Em dezembro de 2011, a mãe de maio Rita escreveu um texto sobre a morte do filho:

Aprendendo a viver sem um pedaço de mim 

Por Rita de Cássia Monteiro – dezembro de 2011

“Vou contar como foi a perda de meu filho Rogério, e como a minha vida mudou.

Cartaz convoca movimentos sociais para reunião nesta sexta-feira (20/02), na Assembleia Legislativa de São Paulo | Divulgaçã

Cartaz convoca movimentos sociais para reunião nesta sexta-feira (20/02), na Assembleia Legislativa de São Paulo | Divulgação

Na madrugada do dia 17/03/2007, meu filho Rogério estava no Bar do Divas com mais quatro colegas, quando chegaram dois homens encapuzados numa moto, entraram no bar, e dispararam vários tiros. Cinco desses tiros acertaram meu filho Rogério. Ele ainda foi levado para o pronto-socorro e depois transferido para a Santa Casa de Santos, mas não resistiu e veio a falecer. (Detalhe: o 5° Distrito fica na outra esquina de onde ocorreu o assassinato, mas não apareceu nenhuma viatura para socorrê-lo nem para averiguar).

Eu só fiquei sabendo pelo meu filho mais velho, Edson, porque a cunhada dele foi comprar cigarro no Bar do Divas quando as pessoas começaram a falar do tiroteio. Aí falaram do rapaz que tinha levado o tiro, como ele era, foi quando ela foi avisar o Edson.

Aí ele me ligou dizendo: “Mãe, o Rogério levou um tiro”. Foi quando começou meu desespero.

Foi quando chamei a minha filha Daniela, que morava nos fundos da minha casa. Ela acordou e falei o que estava se passando. Quando meu filho Edson tornou a ligar, ele falou com a minha filha Daniela, que o Rogério tinha levado cinco tiros, e que um desses tiros tinha pegado na nuca dele. Só que a minha filha não falava nada para mim porque eu já não estava nada bem.

A minha filha ligou para o meu outro filho Alexandre, e explicou o que tinha acontecido com o Rogério, e falou: “Alexandre, vá para a Santa Casa porque ele foi transferido para lá”. Quando o meu filho Alexandre chegou no hospital e deu o nome do Rogério, o médico chamou o Alexandre e disse: “Sinto muito, rapaz: faz cinco minutos que seu irmão veio a falecer”.

Aí meu filho Alexandre ligou para minha filha Daniela, e disse: “Dani, perdemos nosso irmão Rogério”. Caiu uma parede de nossa casa. Porque eu tinha quatro filhos e eles são muito unidos. Porém a minha filha ainda não falou para mim, naquele momento, que o Rogério tinha falecido. Ela só mandou eu ir para a casa do pai deles, onde o Rogério morava, que os meus filhos Alexandre e Edson iriam me levar até o hospital. Só que, quando eu cheguei na casa deles, meus filhos disseram que eu tinha que ir para o Pronto Socorro. Eu falei que não queria ir, mas acabei indo assim mesmo.

Quando eu cheguei no Pronto Socorro, o médico me atendeu – o mesmo que atendeu o Rogério. Ele me perguntou: “Dona Rita, o que a senhora está sentindo?”. Eu falei: “Doutor, é que meu filho levou um tiro, e meus outros filhos mandaram eu vir para aqui”. Foi quando o médico perguntou qual era o nome de meu filho que tinha levado um tiro, e eu respondi: “Rogério”. Ele então me disse: “Dona Rita, eu vou ter que lhe dar um calmante…” Só que eu não queria tomar remédio nenhum, só queria ver meu filho Rogério.

Aí voltei para casa do pai dos meus filhos, quando o meu genro e os meus dois filhos me falaram: “Mãe, nós perdemos o Rogério, ele faleceu”. Nossa, naquela hora eu fiquei no desespero… uma angústia… Não tem como explicar o que uma mãe e um pai sentem quando ficam sabendo que perderam um filho de uma forma tão brutal e tão estúpida como foi a do meu filho Rogério. A gente fica sem chão.

Bom, aí foi a correria de fazer o velório e depois o enterro, só que eu estava tão dopada de remédio que eu nem me despedi direito do meu filho Rogério.

Só que depois disso tudo eu passei a ser outra pessoa, foi quando me deu depressão, problema de pressão alta, labirintite, foi só problema atrás de problema.

Meu filho Alexandre também ficou um pouco perturbado. Ele foi parar de madrugada no cemitério, na campa do Rogério, só saiu depois das seis horas da manhã. Ele diz que estava conversando com o irmão dele.

Enfim, a minha vida não é mais a mesma. Eu não consigo ser a pessoa que eu era. Sempre está faltando alguma coisa, parece que o Rogério vai chegar a qualquer momento.

Às vezes eu fico me perguntando: por que isso aconteceu com o Rogério? Ele não devia nada para ninguém, todas as pessoas que o conheciam ficaram admiradas: por que aconteceu isso com o Rogério? Ele era uma pessoa brincalhona, se dava com todo mundo.

Tomava conta do pai dele com muito cuidado. Todos os domingos ele ia para a minha casa passar o dia comigo. Eu sinto muita falta dele. Os irmãos e o pai dele também. Até hoje o pai dele não consegue ir até a campa dele, ele fala que não tem forças.

Vou terminando, mas com uma dor muito grande no coração e na minha alma. Mas aprendendo a viver sem um pedaço da minha vida. E tendo que se acostumar só com as lembranças dele, que foram maravilhosas.”

Mais informações: facebook.com/cvdademocraciamaesdemaio

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