Dani Nega retrata mortes do povo negro pela polícia em novo clipe

13/05/21 por Beatriz Drague Ramos

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Vídeo de “Como Noiz Quiser” denuncia a violência do Estado: “Nossos corpos têm sido interrompidos há mais de 500 anos”, diz cantora

Dani Nega, 33 anos, lança o videoclipe de “Como Noiz Quiser” nesta quinta-feira (13/5). A música, que fala sobre a ameaça de morte constante sofrida pela juventude negra, traz nas linhas referência ao mês de maio, marcado pela abolição da escravatura mas também por chacinas no Brasil. “Chacina de maio às balas na Kombi”, diz a letra que lembra dos Crimes de Maio 2006 e de um massacre ocorrido no Rio de Janeiro em 2001.

Em maio de 2006, 564 pessoas foram mortas no estado de São Paulo por armas de fogo, entre os dias 12 e 26 – primeiro em um ataque que teria sido ordenado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e posteriormente em uma possível retaliação das forças de segurança e grupos de extermínio contra esses ataques. Do total, 505 eram civis e 59 agentes das forças de segurança. O ano de 2021 também repetiu a marca trágica, desta vez no estado do Rio de Janeiro, quando na última quinta-feira (6/5), 28 pessoas morreram na Chacina do Jacarezinho, repetindo a regra do perfil de pessoas assassinadas no Brasil: homens negros de até 30 anos. 

Para além de Jacarezinho e maio de 2006, o clipe ainda referencia crianças mortas a bala apenas no ano de 2019 no Rio de Janeiro: Ágatha Vitória Sales Félix, Kauê Ribeiro dos Santos, Kauã Rozário; Kauan Peixoto e Jenifer Cilene de Gomes.

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A gíria “gambé” que se refere à policiais é entoada no refrão da música que demarca uma morte comum a todos: “Os gambé não dá chance de noiz tá viva pra noiz morrer como noiz quisé”, diz. 

Ao longo do vídeo a artista questiona a violência policial e o racismo com imagens das manifestações de 2016, cenas do presidente Jair Bolsonaro e outros políticos, além dos batalhões policiais, incluindo o da Rota, a unidade da PM paulista com histórico de alta letalidade. “Eu queria morrer perdendo o fôlego. De tanto dançar, amar, beijar, transar” e “Eu queria morrer bem preguiçosa em uma rede olhando céu afora. Vendo brilhar a constelação Macunaíma”.

O clipe é produzido por Pipo Pegoraro e é uma concepção da própria artista, que divide a direção do vídeo com Tide Pegoraro, e é ilustrada durante o vídeo. Ao final, a artista lembra as vítimas dos Crimes de Maio de 2006 e da chacina do Jacarezinho, durante uma operação policial no Rio de Janeiro no começo deste mês.

Nascida no Jardim Imperador, na zona leste de São Paulo, a rapper e atriz Danieli Lima da Silva contou à Ponte que a música lançada no ano passado nasceu de questionamentos do dia-dia. “O rap tem essa coisa de que se você está com o microfone é tudo no seu nome, você é agente da sua própria história e de narrativas parecidas com a sua. O rap é denúncia, é questionamento, então trabalhar com essa linguagem me coloca em uma situação de alerta para todos os conflitos sociais que atingem o nosso povo, a nossa gente.” 

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Dani é negra e lésbica, fruto de uma relação interracial, como ela diz. “Meus pais são bem jovens, minha mãe engravidou com 15 anos e meu pai tinha 17, sou a mais velha do trio de filhos”.  A música veio do berço, como ela conta. “Cresci e fui criada em uma família muito festiva, moro na rua 10, uma rua famosa pelas festas que aconteciam nos anos de 1980 e 1990 e que na maioria das vezes eram organizadas pela minha família. A música sempre esteve presente por crescer em uma família muito festiva”. 

Das dificuldades e preconceitos enfrentados por ser uma mulher negra, lésbica e artista, Dani Nega lembra que foram muitas. “Desde a época de escola até os dias de hoje. Mais ainda por ser uma mulher negra e lésbica. Infelizmente nossa presença está marcada por essas dores”. 

Suas referências musicais vêm do “som preto dos bailes blacks como chic show, samba e samba-rock”, conta a artista, que começou a cantar com 16 anos. “A minha primeira banda de rap, chamada 1º Ato, era formada por atores e MCs da ELT ( Escola Livre de Teatro), que fica em Santo André. Depois disso comecei a estudar música dentro do teatro, com alguns coletivos que tive o privilegio de trocar, como Núcleo Bartolomeu, Os Crespos e Coletivo Negro”. 

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Em 2016 Dani lançou o álbum Craca, Dani Nega e o Dispositivo Tralha, parceria com o DJ Craca em “uma mistura de música eletrônica, com spoken word e rap”, como ela define, e ganhou o Prêmio da Música Brasileira de melhor álbum eletrônico em 2017. 

Após o lançamento da música “Como Noiz Quiser”, seu primeiro single, Dani conta que tem mais músicas “no gatilho para lançar”. Mesmo com a premiação e os anos de carreira, a artista chama a atenção para o fato de que viver de sua arte ainda é complicado no Brasil. “Com todos esses desmontes, é muito difícil. A gente tem feito muita coisa pra conseguir pagar as nossas contas e sobreviver. Deixamos de ser só artistas”.

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Em tempos de genocídio da população negra, agravado pela pandemia da covid-19, Dani Nega acredita na arte como um instrumento de transformação e principalmente de diálogo. “Falar sobre esse assunto, que nos custa tanto, através da poesia, da música, é uma forma de fazer com que as pessoas voltem os olhos pra isso. Nossos corpos têm sido interrompidos a mais de 500 anos, a gente precisa travar essa engrenagem, essa estrutura”, afirma.

Por fim, a cantora reitera: “Em tempos tão sombrios, é mais do que necessário ser um artista pensante e atuante politicamente, é sagrado dever nosso”. 

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