De Cidade Tiradentes a Oxford: a trajetória de uma faxineira que virou escritora

6 minutos atrás

Claudia durante uma de suas performances | Foto: facebook

Nascida e criada na quebrada, Cláudia Canto enfrentou muitos obstáculos para descobrir que a literatura tem potencial de transformar realidades; hoje se dedica a levar esse ensinamento para crianças e adolescentes

Claudia durante uma de suas performances | Foto: reprodução facebook

“Descobri que nasci em um berço de ouro instalado em um lar humilde na periferia, mesmo que esse berço fosse uma bacia de banho”. É assim que Cláudia Canto, escritora, jornalista e enfermeira, enxerga a sua infância e adolescência passadas em São Miguel Paulista, no extremo leste de São Paulo, e na Cidade Tiradentes, local onde mora até hoje e que chama de “base”. Entretanto, nem sempre foi essa a sua visão. Para ela, foi a literatura que proporcionou essa “grande descoberta” da riqueza e da diversidade existentes nas periferias da cidade. E foi também esse processo que permitiu que entendesse que, sim, ela poderia se empoderar a ponto de escrever a sua própria história.

Apesar de hoje contar com cinco obras de sua autoria na estante – e a mais recente delas, “Riqueza Ignorada”, ser tema de palestras em escolas -, a credibilidade literária só veio para Cláudia com o aval de um lançamento fora do país. E isso aconteceu depois de muitas tentativas em vão de conseguir um espaço em universidades brasileiras. Foi com “Morte às Vassouras”, primeiro livro onde conta sua experiência como empregada doméstica em uma casa digna de roteiro de novela, que ela viu ser derrubada uma enorme barreira social. Descoberta por uma professora inglesa, que voluntariamente traduziu a obra, Cláudia foi parar na Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Fazer o lançamento em Oxford foi o meu grande ganho, porque de certa forma foi uma situação bastante inusitada: uma mulher negra e da periferia lançando um livro numa das mais importantes universidades do mundo”, conta.

Tudo começou quando Cláudia conseguiu juntar 500 euros, colocou uma mochila nas costas e resolveu cruzar o Atlântico em busca de novas visões de mundo e oportunidades de vida. “Há oito anos, fui embora do Brasil. Cheguei em Portugal e tive de trabalhar como doméstica. Cuidava de um casal de velhinhos e era a quinta funcionária da casa. Tinha todo um roteiro de novela que eu achei que não existisse mais, como ficar de uniforme no centro da mesa, oferecendo sal. Aquela experiência veio ao encontro da minha necessidade de escrever”, relata. “Todos os dias eu ia para o meu quartinho-senzala e escrevia uma página desse livro que é uma denúncia da mediocridade humana, dessa elite que me envergonha”, conta a escritora, que chegou a fazer outro lançamento em Glasgow, na Escócia, vestida de empregada doméstica.

Claudia Canto conversa com adolescentes da Fundação Casa | Foto: Divulgação

Ainda que tenha passado com sua obra por universidades de renome internacional e avalie essa experiência como um verdadeiro divisor de águas, Cláudia não a coloca no mesmo patamar dos pequenos lançamentos e conversas que costuma ter com crianças e adolescentes em São Paulo. “A emoção de ir foi mais impactante do que de fato a presença em Oxford. Não foi tão forte quanto ministrar palestras em unidades da Fundação Casa, escolas ou em presídios, quando sou ovacionada pelas meninas.” Na última semana, Cláudia esteve em duas unidades da Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente): o centro socioeducativo Diadema e o centro feminino Chiquinha Gonzaga.

O caminho para reconhecer potencialidades em um cotidiano marcado por dificuldades e lutas diárias – nada subjetivas – foi longo. A escritora, que recusa o rótulo de literatura marginal para as suas produções, tenta mostrar aos adolescentes que a estrada pode ser outra. “É uma experiência muito forte quando eu me vejo refletida nos olhares daqueles meninos, majoritariamente negros, enxergando na minha história particularidades das vidas deles. São jovens que, como eu era no passado, desconhecem suas potencialidades e principalmente suas riquezas. Não enxergo outra maneira de consolidar a literatura”, conta, ao falar sobre os encontros com jovens da Fundação Casa.

Se os livros detêm o poder de apresentar novas e diferentes realidades às crianças na infância, a leitura também é capaz de se moldar à dinâmica social de cada um ao longo da vida. Para a jornalista, a literatura está longe de ser apenas fonte de prazer. Aos livros ela credita a oportunidade de melhorar o vocabulário e, consequentemente, uma forma de se sobressair em entrevistas de emprego. “Eu sempre fui muito leitora. Leio desde os meus 13 anos de idade. Li a ‘Revolução dos Bichos’ [do escritor inglês George Orwell] aos 15. Eu usei e uso as palavras para interagir com todas as pessoas, de qualquer classe social. A literatura de fato me potencializou a me tornar a palestrante que sou hoje”, diz.

Capa do último livro de Claudia, “Riqueza Ignorada” | Foto: Divulgação

Em “Riqueza Ignorada”, seu quinto livro em lançamento, a autora segue alguns passos de suas obras anteriores (“Bem-vindo ao Mundo dos Raros”, “Mulher Moderna tem Cúmplice”, “Cidade Tiradentes, de Menina a Mulher”), e deposita no papel as suas experiências de vida, do “exílio domiciliar” em Portugal, como costuma chamar o período, passando por cinco anos como técnica de enfermagem na ala psiquiátrica de um hospital, aos dias de hoje. Composto basicamente por crônicas e poesias, Cláudia conta sobre pessoas comuns que conheceu nas ruas e nos lugares por onde andou e vivências que a mostraram o quanto ela era rica, para além do sentido financeiro dado à palavra, e extrapolava os lugares comuns aos quais era sempre associada. Autovalorização, autoestima e quebra de paradigmas são conceitos que a escritora associa a sua produção literária.

“Foram nos atalhos menosprezados por muitos que encontrei a riqueza que ignorava. Esses momentos atribulados me fizeram criar resistência e transformar o meu projeto literário em uma verdadeira saga. Meu fazer poético e literário passam, sem dúvida nenhuma, pelo crivo da minha constante transformação interior. Descobri que a riqueza não é apenas o dinheiro em espécie: são as oportunidades que a vida coloca, através de pessoas e situações. Muitas vezes a gente não está atento para isso”, conta.

A literatura, responsável por levar Cláudia Canto a tantos lugares, fará com que alunos da Escola Municipal Professor Antônio D’avila, percorram mais de 30 km pela primeira vez com destino à Casa das Rosas, na avenida Paulista, região central da cidade, para participar de uma leitura dramatizada do poema “A casa”, que faz parte do novo livro da escritora. A atividade será ainda no mês de fevereiro. “Ao mesmo tempo que eu quero que a minha literatura se amplie e não tenha rótulos, ela acaba indo para um viés que não tenho mesmo como segurar. Eu quero ter a autonomia de escrever sobre o que eu quiser, é o único momento que tenho liberdade. Mas a minha cor de pele e minha classe social estão inseridas em mim. Isso já é visível”, afirma.

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