Delegado-adjunto critica Alckmin: ‘Fala do governador causou forte mal estar’

O secretário de Segurança Pública Mágino Alves e Geraldo Alckimin durante posse de 2.477 soldados em São Paulo. | Foto: Alexandre Carvalho/A2img/FotosPúblicas

Em mensagem de grupo de whatsapp, Waldir Covino afirma que Polícia Civil de SP está sem dinheiro e que delegados não são “irresponsáveis, mentirosos, moleques”

O secretário de Segurança Pública Mágino Alves e Geraldo Alckimin durante posse de 2.477 soldados em São Paulo. | Foto: Alexandre Carvalho/A2img/FotosPúblicas

O delegado-adjunto em exercício da Polícia Civil de São Paulo, Waldir Antonio Covino, tem denunciado o corte orçamentário na instituição, comandado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), o que tem gerado diversas dificuldades no setor. Covino afirma que os cortes começaram ainda em 2015, se intensificaram no ano passado e foram mantidos neste ano.

Ontem (02/08), durante agenda em Campinas, interior de São Paulo, Alckmin negou mais uma vez que a polícia paulista esteja sofrendo um processo de desmonte, ao contrário do que afirma a categoria e o próprio delegado-adjunto. Ele garantiu que a SAP (Secretaria de Segurança Pública) não sofre “nenhum restrição orçamentária” e promete que, em quatro semanas, vai iniciar a reposição de pessoal, com o início de trabalho de 742 novos policiais e funcionários de delegacias.

Não é de hoje que Alckmin nega crise financeira. Em março último, também durante um evento, o governador teria negado um possível “desmonte” da polícia civil. Em um grupo de Whatsapp de funcionários da Polícia Civil, o delegado-adjunto teria enviado a seguinte mensagem:

“Vou dar uma satisfação aos meus pares, meus companheiros policiais. Há anos lutamos em busca de melhorias, sem sermos ouvidos em nenhuma instância. Apesar disso não esmorecemos. Estou me referindo à toda equipe da DGP/DGPAD, tão desgastada na luta inglória, mas ainda mais por ver grande parte dos policiais afirmar que “não fazemos nada”, que “nos acomodamos”, que “não estamos nem aí com os problemas”, que “só queremos manter cadeiras e privilégios”, e coisas piores. Não sei a que privilégios se referem. Desde que assumi as funções que exerço tenho enfrentado problemas e estresse crescentes. Nunca trabalhei tanto na vida, sem resposta de outros órgãos e atacado por tantos policiais. Esses ataques são injustos, a maioria dos que os fazem não tem a menor ideia de tudo o que tem sido tentado na DGP/DGPAD, há anos. Não vim aqui lamentar. Quero informar que a fala do governador causou forte mal estar, por ter afirmado que a Polícia Civil não enfrenta nenhuma restrição orçamentária e que é importante o “desmentido”. Os gestores da situação, que há anos enfrentam involução orçamentária e de pessoal, que não tiveram nenhuma reivindicação institucional atendida e, ainda assim, lutam para que a Polícia Civil continue cumprindo sua missão, foram taxados de mentirosos pelo governador. As determinações de redução de despesas tiveram início em 2015, foram intensificadas em 2016 e mantidas em 2017. Enfrentamos redução orçamentária incessante desde 2015, agravada com bloqueio de expressiva parcela dos recursos aprovados. Não vou detalhar números aqui, mas asseguro, a DGP/DGPAD agiu com responsabilidade, atendendo às determinações superiores e adotando as medidas necessárias à manutenção de mínimas condições de trabalho. Os órgãos pertinentes foram informados (em expedientes e reuniões) da situação e dos riscos, desde o ano passado. Não deixamos de agir, não deixamos de pleitear, informar. Não esperamos confirmar o caos e não pegamos ninguém de surpresa. Fomos constante e sistematicamente ignorados. Hoje, apenas para atendimento das necessidades essenciais, precisamos de R$ 38 mi (a necessidade total supera 114 mi) e, até agora, não recebemos sequer os tão propalados 4 mi. Não somos irresponsáveis, mentirosos, moleques”.

O assunto tem ganhado força na categoria há pelo menos dez dias. Na semana passada, Waldir teria enviado pedido de plano de contingenciamento aos delegados até o dia 29 de julho, conforme noticiou o jornal O Estado de São Paulo. O Sindpol (Sindicato dos Policiais Civis), no dia 25 de julho, publicou a seguinte moção de apoio ao delegado-adjunto em exercício do Estado de São Paulo, Waldir Covino, confirmando a situação de calamidade por causa dos cortes de verba da polícia:

“A Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, os SIPOLs de Presidente Prudente, Bauru, São José do Rio Preto e o SINPOLSAN de Santos manifestam amplo e irrestrito apoio ao Dr. Waldir Antonio Covino Junior, Delegado Geral de Polícia Adjunto em exercício. Frente à situação calamitosa vivenciada pela Polícia Civil, cenário já denunciado pelas Entidades e pela imprensa, os casos de delegacias funcionando em condições precárias são diversos e, infelizmente, cada vez mais comuns. São relatos de delegacias com deficiências estruturais gravíssimas, o que prejudica de maneira contundente o desempenho do policial civil e, portanto, de todo o trabalho investigativo exercido nos departamentos. Dito isso, é importante frisar que o comunicado despachado pelo Delegado Geral Adjunto em exercício tem como principal objetivo a preservação das integridades física e psicológica do policial civil submetido a condições insalubres de trabalho, uma vez que condiz com a realidade e pode ser verificado em diversas delegacias da capital e do interior. A Associação ainda reforça seu compromisso com a verdade e, sobretudo, com a luta pela sobrevivência da Polícia Civil”.

O escritório de advocacia Sandoval Filho também divulgou, no dia 28 de julho, a seguinte nota comentando o caso:

Segundo Waldir Antonio Covino, delegado-adjunto em exercício da Polícia Civil de São Paulo, a corporação está sem dinheiro. Por isso, ele pediu que seja elaborado um plano de contingenciamento de verbas. A ideia do delegado é que as contas sejam verificadas e que sejam definidos os serviços que deverão ser suspensos e em quais períodos.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo divulgou nota negando a falta de recursos. A Secretaria afirmou ainda que já foi realizado um pedido de suplementação orçamentária no valor de R$ 4,1 milhões e julgou precipitado o pedido do delegado-adjunto.

O Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo, também em nota, saiu em defesa de Waldir Covino e questionou o posicionamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado alegando que, enquanto a Polícia Civil passa por cortes nas verbas, a Polícia Militar de São Paulo está prestes a receber 72 viaturas e teve a autorização para abertura de concurso público com mais de duas mil vagas.

O escritório foi procurado, mas limitou-se a informar que Waldir Covino não é seu cliente.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo enviou, por meio de sua assessoria de imprensa, a seguinte nota:

“A Secretaria da Segurança Pública reafirma que não há falta de recursos para a manutenção dos serviços da Polícia Civil, nem de qualquer órgão ligado à pasta. Apenas nos primeiros seis meses, houve elevação de 8% nos recursos empenhados pela Polícia Civil: foram R$ 380 milhões no primeiro semestre de 2017, contra R$ 352 milhões no ano passado. Esses valores estão sendo destinados para licitações de compras e contratações de serviços terceirizados. Vale ressaltar que já há complementação aprovada de verba de R$ 4,1 milhões para gastos consumo. Esses recursos estarão disponíveis nos próximos dias. Além disso, está em elaboração nova suplementação orçamentária para destinar mais recursos para custeio da Polícia Civil, que também serão disponibilizados em breve.

É importante ressaltar que os contingenciamentos citados pelo texto não atingem apenas a Polícia Civil ou a Secretaria da Segurança, mas sim a todos os órgãos governamentais, de maneira linear. A cautela com as contas públicas é fundamental para que sejam respeitados os compromissos assumidos em contrato, mesmo diante da maior crise econômica da história do país. Diferentemente de muitos outros Estados brasileiros, os servidores paulistas não sofrem com falta ou parcelamento de salários”.

Por telefone, a assessoria afirmou ainda que Covino não exerce mais o cargo de delegado-adjunto da Polícia Civil.

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