Depoimento | ‘Peguei coronavírus cuidando dos outros’

08/05/20 por Antonio José Machado de Oliveira, especial para Ponte

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Técnico de enfermagem do Hospital Universitário da USP narra a rotina de dificuldades na pandemia: “é triste ver que as pessoas não estão levando o isolamento a sério”

Antonio José é técnico de enfermagem e trabalha no Hospital Universitário desde 1996 | Foto: arquivo pessoal

Eu me chamo Antonio José Machado de Oliveira, 43 anos, sou técnico de enfermagem do Hospital Universitário, da Universidade de São Paulo, na zona oeste da cidade. Trabalho lá desde 1996, entrei no laboratório clínico e depois, em 2011, passei para o Pronto Socorro Adulto, onde permaneço até hoje. Apesar de sempre defender o HU, hoje deixo a bandeira em meio mastro.

Meu dia a dia, sendo da área da saúde, está sendo um pouco mais preocupante por conta dessa pandemia. É uma doença nova e o que mais assusta é não ter uma vacina até o momento, porque vemos as pessoas chegando bem doentes. É complicado. 

Isso preocupa, não só a mim, mas muitos colegas da área da saúde, porque vemos o sofrimento diário das pessoas. No Brasil, infelizmente, a saúde é muito escassa, apesar de os nossos políticos divulgarem tantas informações sobre os hospitais. A gente, que tá na linha de frente, sabe que, no dia a dia, a saúde é precária.

Uma das dificuldades do HU é o descaso, principalmente em relação aos funcionários. Parece que a gente tá pedindo um favor quando a gente acaba adoecendo e precisa ter um atendimento. Como trabalhamos em um hospital de referência, conhecido, as pessoas acham que temos um atendimento privilegiado, mas infelizmente não é isso. Não vou generalizar, dizer que todos os casos são mal atendidos, mas eu diria que a maioria dos atendimentos aos funcionários é precário, somos humilhados, mal atendidos.

Sentimos que estamos vivendo em uma ditadura quando estamos doentes e precisamos de um afastamento. Muitas vezes acontece do próprio médico ligar na enfermaria e se informar em relação ao número de funcionários para dar o afastamento, mesmo o colega precisando ser afastado.

Eles não visam a nossa saúde, visam a mão de obra. Eles deveriam ser mais flexíveis, mas há anos isso vem acontecendo, não é de hoje, e a superintendência não nos dá suporte. Quando precisamos de um agendamento de laboratório ou de uma consulta, somos agendados para meses à frente.

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É difícil estar ali, no dia a dia. Não estou dizendo que a gente deva ter privilégios, mas, por conta de cuidarmos do próximo, precisamos estar bem de saúde. Como vou cuidar do próximo se a minha saúde também está debilitada? Temos que ter saúde para cuidar da saúde dos demais.

A minha rotina, na pandemia, mudou um pouco. O cuidado tem que ser redobrado. Chego em casa e deixo o sapato para fora, por exemplo. Eu acabo me isolando da minha família, por medo de contaminar minhas filhas e a minha esposa. Tenho medo de levar o vírus para casa, de abraçar elas. Muitas pessoas ainda acham que é uma simples gripe. Não, não é uma simples gripe. 

É muito triste ver que as pessoas não estão aderindo ao isolamento social. Parece que elas estão acreditando que isso não está acontecendo e que não vão ficar doentes. Elas focaram que o risco maior era em pessoas idosas ou quem tem doença crônica, mas não é isso: no dia a dia vemos pessoas com todas as faixas etárias. 

Eu não tenho nenhuma doença crônica e fui infectado. Eu me recuperei, mas as pessoas deveriam colocar a mão na cabeça e ter consciência de que é uma doença séria, com risco de morte alto. Deveriam pensar, pelo menos, no próximo. É revoltante ver que o nosso trabalho é em vão. Estamos lá no hospital para cuidar dos doentes, mas é muito triste ver as pessoas morrendo.

Eu me infectei trabalhando, apesar de todos os cuidados. A escassez dos materiais de segurança, principalmente as máscaras, me prejudicaram. No HU, a gente chega doente e, para fazer o teste, é muito complicado. Para eles não é vantagem afastar os funcionários. Atualmente, a gente passa, mesmo com todos os sintomas. Alguns casos vão colher o exame e outros, não. Vai depender muito de como está o atendimento no momento.

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No meu caso, eu já estava me sentindo mal há alguns dias, até que comecei a me sentir muito cansado e passei no gripário, como chamamos o atendimento para pacientes com crises respiratórias. Nesse dia, colhi o exame e fui afastado por 3 dias, que é o prazo para sair o resultado. Se o resultado der negativo, você volta para o trabalho e você recebe o atestado referente aos dias que ficou aguardando. Se der positivo, que foi o meu caso, o médico te afasta.

O exame que a gente faz no HU se chama PCR para Covid-19. São três cotonetes introduzidos no nariz e na garganta. Com isso, a gente colhe a secreção dessas regiões, colocamos em um frasco e mandamos para o laboratório, no caso o Instituto Adolfo Lutz, para aguardar o resultado, que geralmente pode demorar até 3 dias, mas às vezes pode demorar de 7 a 10 dias.

Eu fui afastado por apenas 8 dias. Por telefone, ele avaliou que eu estava bem e poderia voltar ao trabalho depois desse tempo. Mas, quando eu voltei, precisei passar em outro hospital para ser reavaliado. Essa médica, então, questionou o atendimento do HU, ficou indignada do médico de lá não me dar 14 dias de afastamento.

Nesse outro hospital, eu fiz outros exames e fiquei em observação por 24h. Fui liberado depois com afastamento de mais 7 dias. Até hoje, sinto que estou com sequelas. Tenho ficado cansado e com muita tosse quando eu tenho diálogos longos. Mas a gente segue trabalhando. 

O HU evita fazer a coleta dos nossos exames. Vejo outros hospitais, bem mais precários, colhendo exames de todos os funcionários. No retorno, novos testes são feitos para conferir se não tem risco de eles infectarem outros funcionários e, até mesmo, pacientes. Mas lá a gente retorna para o trabalho sem saber se está passando a doença. Os médicos dizem que não, mas qual garantia eu tenho se não houve um teste de retorno?

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O Brasil não estava e não está preparado para uma pandemia. No HU, mesmo sendo um hospital escola, também não estava preparado. A gente tinha um protocolo de como atender os pacientes com suspeita de Covid-19. Tínhamos material em abundância, mas não estava sobrando. Conseguíamos fazer um uso rotineiro. Mas, para uma pandemia, era pouco. A gente tinha o material, tínhamos a obrigação de usar avental, gorro, máscara específica e luvas. 

A medida que foi aumentando os casos de pacientes com coronavírus, a demanda do uso desses materiais aumentou. Chegou um momento que o hospital parou de fornecer a quantidade suficiente. Até hoje, temos setores em que o técnico de enfermagem recebe duas máscaras cirúrgicas para um plantão de 12h, sendo que a recomendação é usar por, no máximo, duas horas.

A orientação do Ministério da Saúde é para que, se uma pessoa está com suspeita de Covid, as outras pessoas da residência também têm que ficar em quarentena, ou seja, também tem que ficar em isolamento e o HU não fornece atestado para os outros membros da família. Muitos colegas afastados, com membros da família que também trabalham em hospitais, não têm o atestado.

Teve semana que o HU informou que tinha 6 infectados, mas, só entre mim e outros colegas, em uma semana tinha mais de 12. As outras semanas o número foi aumentando e vem aumentando cada vez mais. Se o HU realmente testar todos os funcionários terá um número alto. De que adianta fazer uma quarentena se os profissionais de saúde estão doentes? Não tem lógica. 

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Nas próximas semanas, o número de doentes vai aumentar, muito por conta de a população não estar levando a sério a quarentena. Pode ser que multiplique o número. Os hospitais já estão com capacidade de internação quase 100%, os números de vagas estão bem pequenos.

No início da pandemia, uma transferência de um paciente com Covid-19 para o Hospital das Clínicas, por exemplo, acontecia bem rápido. Agora a gente tem pacientes que ficam 24h aguardando uma vaga na UTI ou na enfermaria. Se a população não tiver consciência, o número de doentes e de mortos vai aumentar. Isso é muito lamentável.

Eu me sinto incapaz. É uma doença nova, que está sendo estudada então não há um tratamento específico. A gente nunca sabe como que vai ficar o doente. Eu tenho rezado muito para passar por esse momento. A fé tem me ajudado. Sempre peço a Deus que cuide da minha família, que me dê proteção. Peço pela saúde dos demais, que o número de doentes diminua.

Tenho vivenciado muitas histórias marcantes, principalmente ver os colegas doentes e o número de pacientes que aumenta cada dia mais. Vemos colegas de trabalho bem hoje, no dia seguinte já doente e que o quadro de saúde piorou. Muitos colegas ficaram afastados por poucos dias e, quando deveriam retornar, pioraram e acabaram indo para o Hospital das Clínicas, entubados em leitos de UTI, respirando por aparelhos. Mas, graças a Deus, alguns desses colegas retornaram para as residências.

Profissionais de outros hospitais morreram, perderam as vidas para essa doença, e isso marca muito. A enfermagem é muito ampla, mas é um mundo pequeno, porque acabamos nos encontrando em outros locais e encontramos colegas que trabalharam conosco em hospitais anteriores.

A enfermagem do pronto socorro do HU trabalha com muito equipamento precário. Somos a porta dos atendimentos, mas muitos monitores que usamos estão sem manutenção. O hospital não se preocupa em renovar esses materiais. Temos respiradores, que usamos para entubar os pacientes, com bateria ruim, que acaba no transporte dos pacientes. Não dá para confiar na qualidade. 

O HU comprou macas para os pacientes do PS Adulto, mas atualmente, boa parte das macas, precisa de manutenção e isso não aconteceu. Se a maca quebra, a gente utiliza ela quebrada. Fora que o nosso número de funcionários é pequeno. O hospital se comprometeu em fazer a contratação, mas foi um contrato precário, que dura apenas um ano. Todos os funcionários novos vão trabalhar apenas por um ano. 

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Como vamos cuidar de todos os pacientes se boa parte da equipe vai embora quando acabar o contrato? O paciente não pode ir para a rua, precisa ter atendimento. Se atualmente a gente não dá conta, futuramente, quando os colegas saírem, vai piorar ainda mais o atendimento. 

O HU não está livre da Covid-19. Quando os pacientes entram com outras queixas e vamos fazer exames, como a tomografia, detectamos a doença. O paciente é internado, operado e tratado, mas só depois acabamos colocando que ele é positivo para coronavírus. Quando ficamos sabendo, os colegas da enfermagem que cuidaram desse paciente não usaram máscara ou forneceram apenas duas para trabalhar 12h.

Para pacientes confirmados para a doença temos que usar uma máscara adequada, que é a N95 [com respirador purificador de ar, semi-facial e com filtro de partículas], e de preferência a viseira de acrílico, óculos e avental. Esse é o material mínimo e adequado para cuidar desses pacientes. Depois de detectar a Covid-19, eles são encaminhados para o Hospital das Clínicas, depois de ficar dois, três, até quatro dias no HU.

Não tivemos óbitos por coronavírus no Hospital Universitário, mas a USP registrou quatro mortes, sendo que duas são de funcionários terceirizados.

Procurado, o Hospital da USP não se posicionou até o momento de publicação.

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