Crônica | Na Favela do Amor só tem dor

01/12/19 por Willian Novaes, especial para a Ponte

Compartilhe este conteúdo:

Texto aborda desaparecimento e assassinato do jovem Lucas, de 14 anos, em Santo André. A família acusa a polícia pelo crime

Enterro do jovem Lucas, de 14 anos, que foi assassinado após uma suposta abordagem policial na favela do Amor, em Santo André | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Na Favela do Amor só tem dor e histórias tristes, o amor parece que esqueceu do seu CEP.

Na Favela do Amor só tem dor, como diria uma música triste ou uma poesia. Na Favela do Amor hoje tem revolta, frustração, tragédia, mais dor e morte. A Favela do Amor fica nas quebradas profundas e distantes de Santo André, no ABC paulista.

Lucas sumiu de casa, da escola, dos amigos, da família numa noite normal. Simples, fugaz, mais uma da sua nova e ainda produtiva ou futura vida. Desapareceu quando voltava pro lar, mesmo pobre, pequeno e com reparos a fazer, era onde vivia. Viveu uma simplória vida. Viveu naquele canto esquecido por todos e até por quem pede mais amor em São Paulo. Sumiu, desapareceu, morfou, virou fumaça, um pó que arde os olhos de quem ainda hoje chora por ti. Sumiu após ouvirem sua voz e uma viatura na porta da sua goma. Foi encontrado morto num lago, inchado e irreconhecível. 

Ninguém entendeu a rapidez do seu desaparecimento, ninguém teve tempo pra se conformar e registrar o B.O.

Nas horas que se passaram sua blusa apareceu, seu boné foi encontrado, sua alma sentida voando por cima dos seus amigos. Ele já estava sem vida, sem a possibilidade de se defender.

Não houve amor com os manifestantes e muito menos com os familiares, jogaram bomba em quem sofria aquilo tudo repentinamente. Para quem sumiu mais um na lista, mais um e pronto.

E para quem perdeu, o filho, o amigo, o vizinho, o sonso, o zueiro? O que passava amor por simplesmente existir e respirar, onde talvez exista um amor de cumplicidade, de amizade e de um cuidar dos outros, seja para proteger dos irmãos ou do sistema. 

Lucas era pobre e preto, como mais da metade dos brasileiros, não necessariamente todos os pretos são pobres, mas a maioria é sempre perseguida por olhares seja onde for. 

Na sua casa não havia comida, bebida e nem dinheiro para as passagens para os familiares chegarem e hospedarem no ABC. 

Como revolta por tudo isso, foram pra rua com sangue nos olhos, com raiva de tudo, com o amor ressentido, pisoteado, humilhado e aniquilado. 

Não ocorreu o mínimo de comoção e empatia dos fardados. Eles encararam com raiva os que gritavam e choravam por Lucas. 

Na favela do Amor que visitei algumas vezes num passado recente, havia pobreza, gente e muita fé que a vida melhoraria, como Santo André acreditava e pregava com Cristo e depois de Cristo. Até que foi crucificado numa cruz em “X ” para sofrer e morrer lentamente. 

Diferente de Lucas que morreu na mesma velocidade que sumiu. Partiu para uma melhor, sem melhor viver, sem a chance de amar uma futura esposa e os seus filhos. Silenciou sem entender o motivo. Sem jogar o último jogo e sem dizer eu te amo.

Lucas não fazia o corre, mas muitos devem achar que sim, por ser moleque, preto e pobre, se a polícia sumiu com ele, tinha algum motivo! Talvez havia mesmo, afinal ele é preto e pobre, mas a família grita que ele é inocente, mas vale até para que faz a sua correria não merece sumir, ainda existe Justiça para julgar e condenar. Na Favela do Amor só tem dor e histórias tristes, o amor parece que esqueceu do seu CEP.

Willian Novaes é jornalista, roteirista, escritor e santista

Comentários

Comentários

Compartilhe este conteúdo: