Atiradores matam dois e ferem quatro jovens na Grande SP

Dos seis baleados, pelo menos quatro eram negros; um dos jovens mortos teve o irmão assassinado na mesma rua, há quatro anos, segundo morador

As vítimas correm e os assassinos caminham nas imagens de uma câmera de segurança, que flagrou a matança ocorrida na noite deste sábado (10/3), na Rua Manuel Bandeira, no Jardim Calux, bairro pobre na periferia de São Bernardo do Campo, na Grande SP.

No vídeo, as pessoas que estavam na rua – inclusive mulheres, inclusive crianças – saem correndo para todos os lados, em pânico. Apenas dois homens não correm. Sem máscaras, de boné, a dupla anda como se não tivesse pressa. Apenas em alguns momento os dois se viram para dar outros tiros em direção à multidão, mas sem apertar o passo. Pelo andar, nem parece que acabaram de matar dois jovens e ferir outros quatro.

Dos seis jovens baleados, pelo menos quatro eram negros. Segundo uma testemunha ouvida pela Ponte, as vítimas eram meninos da comunidade, nascidos e criados no Calux. Um deles tombou baleado diante da porta da casa da avó.

Os jovens foram socorridos pelos próprios moradores da comunidade, seus parentes, amigos e vizinhos, que levaram as vítimas em seus carros para o Pronto-Socorro Central da cidade. Eduardo Donizete Silva Santos, 25 anos, e Maxuel Nonato de Souza, 24, morreram no hospital. Conforme o relato do boletim de ocorrência, Eduardo tinha três tiros, todos no peito. Já Maxuel apresentava duas marcas de disparo no peito, duas na nuca, uma na barriga e outra na mandíbula.

Eduardo (esquerda) e Maxuel, mortos no ataque | Foto: arquivo pessoal

Os outros feridos, dois de 19 anos e um de 23, sofreram lesões leves. O sexto baleado, de 21 anos, em estado grave, foi transferido para o Hospital das Clínicas, onde passou por cirurgia.

Moradores do Calux ouvidos pela reportagem temem que o ataque tenha sido provocado por criminosos interessados em trazer de volta a ação de milícias, que já teriam dominado o bairro anos atrás. Conflito entre traficantes de drogas, ação do crime organizado? Quem mora ali não acredita. “Não tem ligação nenhuma com o crime. O modus operandi a gente sabe como funciona. O crime não sai dando tiro em todo o mundo”, disse à Ponte um morador, que pediu para não ser identificado.

“Em princípio a polícia considera que a ocorrência pode ter ligação com o tráfico de drogas. Mas é importante levarem em conta o histórico de atuação de milícias e de justiceiros naquela região de São Bernardo”, afirma o advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), que esteve hoje no local.

O boletim de ocorrência conta que os policiais militares chegaram ao local do crime depois de as vítimas já terem sido socorridas e que peritos da Polícia Civil apreenderam ali “papéis contendo anotações alusivas a contabilidade do tráfico de drogas”, além de projéteis e estojos de pistola .380.  Os crimes serão investigados pelo Setor de Homicídios de São Bernardo.

“Fica fácil exterminar”

“Estão noticiando por aí que era um baile funk, mas não era.  Era uma noite de sábado, agradável, estava todo mundo na rua, curtindo. Era só o lazer de quem quer ficar num boteco tomando uma cerveja, como em toda periferia. Estava tendo um lazer. Alguns ouvindo forró, rap, funk, samba. Periferia é isso. Aí esses caras chegaram e já atiraram”, contou um morador. Ele acredita que a dupla tenha passado um tempo misturada às pessoas na rua ante de começar a disparar.

Maxuel (esquerda) e Eduardo | Foto: arquivo pessoal

Um amigo de Maxuel contou que ele foi o terceiro irmão, da mesma família, a morrer vítima de homicídio. “Ele viu os dois irmãos serem brutalmente assassinados, um deles há quatro anos, na mesma Rua Manuel Bandeira que ele morreu ontem”, conta.

O morador começa a falar sobre possíveis ligações das vítimas mortas com o tráfico de drogas, mas para e diz que esse tipo de informação não ajuda em nada. “Agora é fácil falar: ‘ah, os moleque tava no tráfico’. É como deixar uma carne exposta ao sol e reclamar porque ela apodreceu. O sistema empurra as pessoas para o crime e depois fica fácil para exterminar”, afirma.

E o morador prossegue:  “Está tendo um genocídio muito grande há muito tempo e ninguém fala nada. E não é um problema só do Jardim Calux, é um problema crônico do Brasil. A juventude está morrendo assassinada. Entra prefeito, sai prefeito, entra governador, sai governador, e nada muda. Enquanto o sangue está correndo para baixo do tapete, beleza, mas uma hora o barril de pólvora vai explodir”.

Os tiros que puseram fim ao sábado de lazer no Calux ocorreram na Manuel Bandeira, uma rua da comunidade que já recebeu o sangue de dois irmãos e tem nome de poeta pernambucano. Poeta que um dia escreveu sobre o silêncio que encerra as festas, o qual o fazia perguntar “onde estavam os que há pouco dançavam, cantavam e riam ao pé das fogueiras acesas?”, pergunta que ele mesmo respondia concluindo que “estavam todos dormindo, estavam todos deitados, dormindo, profundamente”.

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