Em Nova Holanda, enquanto falta lazer e saneamento, sobra esgoto e enchente

4 minutos atrás

Comunidade da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, convive com piscinas plásticas nas ruas aos fins de semana; sem esgoto tratado, valões com dejetos dominam a paisagem e enchem com as chuvas

Ruas da comunidade são fechadas com as piscinas, a diversão da criançada | Foto: Reprodução/Facebook/Favela Nova Holanda

Três crianças brincam com a água de uma piscina. Uma delas, de cerca de quatro anos, está com metade do corpo para fora, prestes a mergulhar na fonte da diversão. É uma rua simples na Comunidade da Nova Holanda, zona norte do Rio de Janeiro. Ali, outras tantas piscinas de plástico no meio da viela garantem a alegria da comunidade. Afinal, esta é a opção mais próxima da realidade de quem mora na região.

São cerca de 130 mil moradores vivendo no Bairro da Maré, segundo dados do Censo de 2010, onde fica a Nova Holanda. Ao longo dos 800 mil metros quadrados do local, quem quiser se banhar na diversão tem apenas três opções: ir para o Piscinão de Ramos, uma caminhada de dois quilômetros; caminhar um quilômetro até a Piscina da Vila Olímpica; ou, então, encher de água uma piscina em frente à sua casa.

“No fim de semana é normal ver esses corredores de piscinas nas ruas, até porque muitas vezes não dá pra colocar nas lajes porque elas podem não sustentar”, conta à Ponte Cadu Barcellos, cineasta e coordenador da página Maré Vive. E a prática tem se espalhado, como conta o fotógrafo Naldinho Lourenço. “Hoje, nas favelas, é comum ver rua com piscina. É algo que vem aumentando de uns 15 anos pra cá”, relata.

Mas a prática difundida na comunidade que criou esses espaços públicos de lazer e convivência foi colocada em suspeição pelo jornal carioca Meia Hora, que na semana passada estampou a capa com a manchete “Piscinas suspeitas na Maré”. A reportagem aponta uma suposta ligação do tráfico de drogas na Maré com as piscinas e, consequentemente, com o divertimento de moradores e seus filhos. Após divulgação da notícia, a Polícia Civil do Rio de Janeiro iniciou investigações para apurar a denúncia. Anteriormente, não havia nenhum indício ou averiguar esta possível ligação.

“Os agentes da Unidade tomaram conhecimento dessa denúncia pela imprensa e partir desta, iniciaram as investigações para saber se estas informações são fidedignas”, explicou a Polícia Civil fluminense, em nota para a reportagem.

Fato é que, na Comunidade, a quantidade de piscinas públicas contrasta drasticamente com os valões. Valões são uma espécie de fosso à seu aberto. Sem saneamento básico, a solução encontrada pelos moradores é escavar estas valas para o esgoto escoar até o rio mais próximo ou baia, como a Baía de Guanabara, por exemplo. “A Baía de Guanabara recebe cerca de 18 mil litros de esgoto por segundo”, conta o gestor ambiental Sérgio Ricardo, da ONG Baía Viva.

Capa do jornal Meia Hora sobre as piscinas na Maré | Foto: reprodução

O Governo do Rio de Janeiro, assim como o Governo Federal, prometeram despoluir a Guanabara antes mesmo de a Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, acontecer. A promessa ficou nisso: nas palavras. Somente na Comunidade da Nova Holanda, seis valões levam os dejetos humanos para esta baía. Comparado com as piscinas públicas, são três vezes mais valas do que espaços públicos para a população, que não se cala.

“Sempre que chove aqui, as ruas alagam. Em 2017, eu vi pelo menos uns 12 alagamentos”, conta a faxineira Rosilene Nunes, de 36, todos vividos inteiramente na comunidade. A moradora encontrou uma forma de protestar ao mesmo tempo por mais locais de lazer e contra a falta de saneamento. Quando chove e as ruas alagam, ela se joga de cabeça no problema: tomar banho nas águas das enchentes. A postura de resistência a fez ganhar o codinome Dama da Enchente.

Segundo estudo da USP (Universidade de São Paulo) feito em 2013, investir em saneamento básico e saúde tiveram a maior efetividade na redução da pobreza em todo o país. Na Maré, contudo, isto não acontece. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, os gastos sociais na comunidade entre 2009 e 2015 representaram metade do custo em ocupação militar – R$ 303,6 milhões frente a R$ 600 milhões com as forças armadas, que ficaram 15 meses no local.

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