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Em um único asilo, seis idosos morrem e 22 são infectados pela Covid-19

26/06/20 por Victor Hugo Viegas Silva, especial para Ponte

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Até o momento, sete funcionários do abrigo localizado em Aparecida de Goiânia testaram positivo para a doença

Área externa da Casa Silvestre Linares | Foto: Victor Hugo Viegas Silva/Ponte Jornalismo

Seis idosos falecidos e 29 confirmados com a Covid-19, além de sete funcionários infectados pela doença. Essa é a situação da Casa Silvestre Linares, em Aparecida de Goiânia, localizado na região metropolitana da capital goiana. “Nós soubemos da situação dia 7 de junho quando uma idosa nossa não estava passando bem. Levamos para a unidade de pronto atendimento (UPA), depois para o hospital e ela foi detectada positiva”, explica Jordânia de Almeida, assistente social do asilo.

A partir desse caso, a Secretaria de Saúde foi acionada. “Eles vieram aqui no dia 10 de junho pra realizar o exame em todos. Dois dias depois, soubemos o resultado e foi um choque: a maioria dos moradores detectados”, lamentou.

As visitas já vinham sendo restringidas desde o início da pandemia. A maioria dos funcionários que fazem contato direto com os idosos teve diagnóstico confirmado e é bem provável que aumente para oito positivados em breve, de acordo com a assistente social.

Os idosos forram separados por blocos (positivos e negativos) de acordo com orientação da Secretaria de Saúde de Aparecida. Eles estavam acompanhando por telefone e chegaram a mandar um médico ao local. Mas funcionários do lar de idosos afirmam que a Secretária de Saúde não ajudou com os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Isso foi conseguido com doações de voluntários e grupos parceiros. Desde março, quando começou a pandemia, o abrigo não contava com EPIs adequados para Covid-19. 

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Trabalhadores do SUS (Sistema Único de Saúde) da região centro-sul nos relatam que vêm recebendo várias chamadas de abrigos de idosos da região de Aparecida de Goiânia. Depoimentos recolhidos na Casa Silvestre confirmam que, de fato, o Samu (Serviço Móvel de Urgência) está em alerta para qualquer situação no local.

A Ponte questionou a Secretaria de Saúde de Aparecida de Goiânia sobre o surto de Covid-19 na Casa Silvestre, a falta de EPIs e os atendimentos, mas a pasta nos comunicou que “não tinha ninguém para responder a reportagem”. 

Outro problema apresentado é a quantidade de funcionários da casa. “Estamos com um déficit muito grande e a Secretaria de Saúde não nos ajuda com um profissional especializado em coronavírus de fato. Apenas apoio emergencial”, afirma Jordânia.

Eles estão sem funcionários para repor os afastados em decorrência da contaminação pela doença. Do lado de fora do abrigo, a reportagem flagrou o descarte de remédios, fraldas e luvas inadequadamente.

Remédios misturados ao lixo comum | Foto: Victor Hugo Viegas Silva/Ponte Jornalismo
No detalhe, luvas jogadas fora da lixeira | Foto: Victor Hugo Viegas Silva/Ponte Jornalismo

Lixo: um vetor de contaminação

Marília Janete, responsável pelo administrativo da Casa Silvestre, respondeu que o lixo hospitalar da Casa Silvestre é lacrado e descartado por uma empresa terceirizada. “O nosso descarte desde sempre é separado entre material comum e infectante”. O conteúdo do segundo é incinerado pela referida empresa, que ela não informou o nome.

Questionada sobre as imagens de luvas e fraldas usadas na lixeira a céu aberto, ela disse apenas que era lixo comum. “Fraldas são descartadas como lixo comum, ao contrário de agulhas, jalecos, máscaras”, afirmou.

Marília afirma que, muitas vezes, os lixos são rasgados e têm que ser ensacados novamente por causa da demora da coleta municipal.  

A médica veterinária Danny Moraes, doutoranda em doenças infecciosas emergentes nas universidades Federal do Mato Grosso e do Porto, explica que as fraldas, as luvas e os lixos orgânicos descartados incorretamente “com certeza são um risco de ser um foco interno e depois de disseminação, porque os funcionários transitam pela cidade”.

Além disso, representa um risco “aos garis e lixões” que têm que recolher o material. “Fraldas devem ser tratados como lixo hospitalar, na verdade”, explica Danny. “O lixo hospitalar tem um saquinho branco específico. Caso não haja esse, deve ser utilizado um saco preto reforçado. A mesma coisa com os remédios, que são tão ruins quanto”, declarou ao olhar as cartelas descartadas fotografadas pela reportagem.

Um estudo preliminar afirma que esse lixo pode ficar até 5h no ambiente, mas isso não considera a presença de matéria orgânica – a matéria orgânica pode estender o período por tempo indefinido. Além disso, “todas as secreções/excreções são potenciais transmissores” da Covid-19.

Um funcionário do SUS que não quis se identificar confirmou que houve 22 chamadas de emergência do abrigo recentemente. A informação bateu com a que um funcionário nos deu na entrada do abrigo. O encontro das gripes e viroses comuns do inverno e o pico da Covid-19 poderá ser trágico. Na população idosa, esse quadro é ainda mais grave. “Eles já têm o sistema imunológico comprometido e quase sempre tem comorbidades: pressão alta, diabetes, problemas cardíacos, outros problemas respiratórios”, diz Danny. “Mas o principal fator que aumenta a vulnerabilidade é o aumento da seca e do frio”.

A vulnerabilidade maior no período, no entanto, tem a ver com o muco do nariz. “O sistema respiratório tem um muco mais espesso que ele fica mais próximo da célula e um muco mais líquido que fica na parte que a gente chama de lumen que segura partículas que vem do ar”. O lumen protege a pessoa de partículas de poluição no ar. “No período da seca no Brasil você tem a perda desse muco líquido e aí o muco mais espesso, que fica mais na base, não consegue conter esse material particulado e, por isso, as infecções aumentam”.

Além disso, os idosos tendem a ficar mais agregados e ter contato mais próximo no frio. O lugar espaçoso e ventilado pode se tornar mortal se o descanso for coletivo, como ficou demonstrado em várias casas de cuidado no Canadá, onde 81% dos mortos de covid-19 morreram em suas instituições, espaços de longa permanência e cuidado.  

De acordo com as estatísticas oficiais: 217 mortes confirmadas em Goiás são de idosos dentro de 303 totais – ou seja, 71% das mortes confirmadas até agora são de pessoas de 60 anos pra cima, ou seja, são de idosos. O Brasil segue quadro parecido: de acordo com consórcio de empresas de comunicação, a distribuição dos óbitos com Covid-19 por sexo e faixa etária mostra que homens entre 50 e 90 anos são as maiores vítimas.

Após denúncia, asilo corrige prática de descarte

O Aconchego e Lar doce Lar, no Setor Jaó, estava com práticas perigosas de descarte. Após acionamento do Ministério Público de Goiás, mesmo sem resposta oficial, foi possível retornar aos espaços de coleta de lixo desses lugares e deu pra ver que eles não estavam mais economizando em sacos de lixo, nem descartando cartelas de remédios, luvas ou dejetos a céu aberto.

Fraldas descartadas sem qualquer acondicionamento do lado de fora do abrigo; a prática foi denunciada | Foto: Victor Hugo Viegas Silva/Ponte Jornalismo
Lixeira em contêiner fechado e com acondicionamento correto após denúncia | Foto: Victor Hugo Viegas Silva/Ponte Jornalismo

Danny alerta que as luvas, importante EPI no combate à transmissão do coronavírus, podem se tornar vilãs, porque dão a falsa sensação de segurança. “As luvas devem ser trocadas sempre que sai de um manejo ao outro e por exemplo, se tiver num quarto com determinado idoso, ao sair desse quarto já deve ser feito todo o protocolo de desinfecção”.

Muitas dessas instituições voltadas para o cuidado ao idoso trabalham praticamente com caridade do público em termos de alimento, insumo e materiais de limpeza. Por isso é importante que além das denúncias, também haja iniciativas de solidariedade para preservar também os trabalhadores dos idosos, pois muitos estão sem sequer conseguir sair das instituições para comprar seu álcool gel. Na Inglaterra, de acordo com o NOS (Departamento Nacional de Estatísticas), as taxas de morte entre trabalhadores do cuidado é o dobro da taxa de mortes na população em geral

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Também são essenciais para ajudar na sobrevivência dos abrigos de idosos pobres as campanhas de doações de alimentos e insumos para os próprios idosos. Essas campanhas são oportunidades de diálogo e conhecimento das condições em que essas pessoas estão vivendo, de construção de vínculo e responsabilização coletiva pela manutenção da vida.

Segundo a Lancet, na Inglaterra foi registrado um aumento de 20 mil mortes em casas de cuidado de pessoas idosas e com necessidade especiais em 2020 na comparação com o mesmo período em 2019. Nos Estados Unidos, segundo reportagem da Forbes, 42% das mortes pela Covid-19 aconteceram com os 0,6% da população que vive ou trabalha em instituições de longa permanência. No dia da publicação, os EUA tinham acabado de ultrapassar 100 mil mortes — isso quer dizer que pelo menos 42 mil dessas mortes registradas aconteceram em instituições de cuidado para idosos e pessoas com necessidades especiais.

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