Encontro de ossadas não atrapalha rotina de lançamento imobiliário em SP

15/12/19 por Caê Vasconcelos

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Apenas um trecho da obra foi interditado desde que as primeiras ossadas foram encontradas, em outubro de 2019

Construção imobiliária em que seis ossadas foram encontradas continua normalmente | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

As ossadas encontradas em uma construção na Rua Abílio Soares, número 1.149, na Vila Mariana, zona sul da cidade de São Paulo, não irão atrapalhar o lançamento do empreendimento residencial Urbic Ibirapuera, que tem como lema “Tudo o que você precisa para viver: o essencial”. A construtora promete o prazo de 9 meses para finalização do projeto.

A reportagem da Ponte esteve no local neste sábado (14/12) e, sem se identificar como repórter, confirmou a informação sobre o lançamento com uma corretora da Urbic Vila Mariana. No local, será construído um prédio com torre única de 8 andares e 24 apartamentos.

O Urbic Ibirapuera já não conta com plantão de vendas, por já estar na fase inicial da construção. O local fica a 150 metros da sede do antigo Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), local em que integrantes da ditadura militar torturaram presos políticos. Hoje o 36º DP (Paraíso) funciona neste prédio.

Perguntada sobre as ossadas encontradas durante a obra, a corretora afirmou que as ossadas “só causariam interferência se fossem novas, não antigas” como as encontradas, e garantiu que quem já comprou um dos 24 apartamentos do empreendimento não precisa se preocupar, pois o prédio será lançado na data prevista, no segundo semestre de 2020.

Urbic é o nome fantasia da Uniq, única empresa investigada no inquérito policial. As empresas Top Solo Fundações e Líder são apenas citadas. A Urbic foi criada em 2018 e tem como sócios três engenheiros que já atuam no mercado há 40 anos.

A investigação das ossadas

O inquérito policial, aberto em 1º de novembro de 2019 pela Delegacia Seccional de Diadema, apura denúncia de destruição, subtração ou ocultação de cadáver. A Polícia Civil apura se o local era um cemitério clandestino usado para desova de corpos ou um algo mais antigo, “datado do tempo da escravidão, onde pobres, escravos e negros forros eram sepultados”.

Entre as ossadas encontradas, os funcionários da obra informaram à polícia, no termo de declaração, ter encontrado um crânio fragmentado, faltando um pedaço, ossos do peito e outros ossos mais compridos, lembrando um corpo desmontado. Algumas ossadas estariam perfuradas.

Os ossos foram encontrados em duas datas: 22 e 25 de outubro de 2019. Em ambos os dias, segundo a versão de um mestre de obras ouvido pela polícia, as obras continuaram normalmente, porque os funcionários teriam pensado que se tratavam de ossos de animais e por isso não avisaram as autoridades. Uma denúncia anônima investigada pela polícia, não comprovada, dá uma versão bem diferente, afirmando que a empresa sabia, sim, do encontro das ossadas e que, para não atrapalhar o andamento da obra, teria ordenada que fossem “desovadas” num aterro em Carapicuíba (Grande SP).

Osso encontrada na escavação do terreno; imagem foi anexada aos autos do processo | Foto: reprodução

O Grupo de Trabalho Interinstitucional Doi-Codi, formado por representantes de entidades como Instituto Vladimir Herzog e das universidades Unifesp, Unesp, Usp e Unicamp, além do Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça, lançou nota afirmando preocupação com o encontro das ossadas, revelado em reportagem da Ponte. A nota afirma que “a proximidade geográfica entre o local dos fatos e das dependências do Doi-Codi” colocou o grupo de trabalho em “estado de atenção” para um possível vínculo entre o encontro dessas ossadas e “sistemáticas violações de direitos perpetradas por aquele órgão entre 1969 e 1983”. O GT conclui afirmando que o fato reforça “a necessidade de converter o espaço em lugar de memória e consciência sobre os crimes cometidos pelo Estado brasileiro entre os anos de 1964 e 1985”.

Em 14 de novembro, o Ministério Público se manifestou contra a paralisação das obras, solicitada pela Polícia Civil. No inquérito policial, a Uniq alega que a polícia solicitou a paralisação “mesmo sem haver qualquer crime que possa ser imputado à requerente e sem que haja qualquer elemento concreto da existência de ossos humanos no local” e afirma que, desde 1908, o local era uma residência familiar e que, por isso, é “absolutamente improvável que uma pessoa tenha sido enterrada no local”.

Uma semana depois, em 21 de novembro, a Justiça de São Paulo solicitou que o DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) assumisse as investigações, mas, no dia 26, o departamento respondeu que a investigação não cabe a eles: “nesta Divisão de Homicídios, a qual, inclusive, não tem atribuição em investigar este tipo de crime, restringindo-se a apuração dos homicídios dolosos de autoria desconhecida ocorridos no âmbito da Capital do Estado”.

Em 5 de dezembro, a defesa da Uniq informou que achou mais um osso e que “nesses termos, requer seja imediatamente oficiado o Instituto de Criminalística para que, com urgência, retire o osso e realize perícia, permitindo, assim, a continuidade da obra”. No dia seguinte, segundo o inquérito, a ossada foi retirada do local e a obra voltou a funcionar normalmente.

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