Entenda o colorismo: por que Fabiana Cozza foi criticada pelo papel de Dona Ivone Lara

Negros de pele clara teriam privilégios num país onde a discriminação aumenta quanto mais escura for a cor da pele

Dona Ivone (à esq.) e Fabiana Cozza | Foto: Divulgação

“O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro.” Com essa frase, a cantora Fabiana Cozza renunciou ao papel da sambista Dona Ivone Lara, morta em abril, aos 97 anos. O anúncio da escolha de Fabiana para o papel protagonista do musical “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro” gerou reações das redes sociais e colocou em pauta o colorismo.

Colorismo é a tese de que o sistema racista dá a negros de pele mais clara certos privilégios em relação aos negros de pele retinta. Também é chamado de pigmentocracia, um conceito que aponta dentro do movimento negro as dinâmicas da desigualdade racial. E, assim, busca combater o racismo de forma conjunta.

“O racismo se refere ao preconceito de raça. O colorismo é preconceito de cor, pigmento. Parece a mesma coisa mas não é”, explica o youtuber Spartakus Santiago à Ponte. “Por isso, negros retintos têm menos oportunidades de emprego, são menos aceitáveis aos padrões de beleza, enquanto negros de pele clara sofrem menos discriminação da branquitude”, continua.

Santiago se denomina um negro de pele clara. Segundo ele, há espaços em que ele entra sem tanta dificuldade quanto um negro retinto. “Por sermos mais aceitáveis aos olhos, muitas vezes conseguimos mais likes e visualizações. A maior youtuber negra do Brasil, a Nátaly Neri, é negra de pele clara. As campanhas publicitárias escolhem negros de pele clara porque os acham mais ‘bonitos'”, analisa.

A forma com que o preconceito se apresenta é exemplificada pelo também youtuber AD Junior. “Nos Estados Unidos, a discriminação é por relação de sangue: se tem avô preto, não adianta ter cara branca ou parecer branco. A pessoa continua sendo negra. No Brasil, a discriminação é fenotípica, aqui se discrimina por cor: quanto mais preto, mais discriminado. O preconceito se dá assim e o privilégio também”, explicou. “O colorismo existe, é uma realidade nas nossas vidas e uma questão muito específica da negritude, uma discussão dentro da nossa casa. É muito difícil uma pessoa não negra entender do que se trata. É uma questão que ninguém estava prestando atenção porque o Brasil deseja se embranquecer”, continuou.

AD coloca em discussão o embranquecimento de figuras negras importantes na história do Brasil, como Machado de Assis, frequentemente retratado como branco. “Todo mundo quando morre e morre lá no alto, vira branco. É essa a discussão que a gente está fazendo: todo preto quando morre vira branco. O negro retinto não estava podendo nem representar outro negro retinto. Nossa cor é a menos desejada”, disse, citando o colorismo como um processo histórico diretamente ligado às políticas adotadas pelo Estado para embranquecimento da população após a abolição da escravatura.

Branqueamento como política de estado

Na raiz do colorismo estão a eugenia (busca do “aprimoramento” das raças) e o racismo científico. Nelas, o conceito do branqueamento aparece como política de Estado posta em prática inicialmente na Europa, entre o fim do século 19 e o início do século 20, e depois trazida para o Brasil. Para isso, o governo investiu na vinda de imigrantes europeus para ocuparem o lugar dos negros libertos após a abolição. Com a vinda dos europeus, o objetivo era branquear a população.

“Estabelecida a realidade de que os negros iniciavam sua vivência na sociedade brasileira como homens e mulheres finalmente livres, sentiu-se a necessidade de frear possíveis influências que esta imersão negra poderia resultar”, explica a  advogada Tainan Maria Guimarães Silva e Silva, formada pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e pesquisadora de povos e comunidades tradicionais. “As tentativas de branqueamento incluíam políticas de exclusão do negro nas suas tentativas de relações interraciais, assim como impedimentos para os senhores brancos, caso se manifestassem no intuito de relacionar-se com negras”, continuou.

Artistas retrataram esta tentativa de embranquecer a população. No quadro Redenção de Cam, o espanhol Modesto Brocos retrata três gerações de uma mesma família: a avó negra, a mãe parda e o neto branco. Na imagem, a avó aparece agradecendo aos céus pelo neto ser mais claro. A obra é de 1895.

Quadro “Redenção de Cam”, de Modesto Brocos | Foto: Reprodução

“O Brasil passou por um processo histórico de embranquecimento, o plano era ser embranquecido. Pensando ser uma política de Estado, significa estar implícito que a invisibilidade das pessoas também é um processo politico. Basicamente, é nesse processo que se dá o colorismo. A pessoa negra retinta é mais invisibilizada e sofre de racismo com mais violência e de forma maior”, pontua a influenciadora digital e empresária Ana Paula Xongani.

Negra retinta, Ana Paula explica que ela passou por um processo de entendimento sobre o colorismo ao crescer. Agora, vê com outros olhos os preconceitos que a filha de 4 anos enfrenta. “Ela tem pele escura, cabelo crespo, e a violência que ela passa por ter esse tom de pele vem de muito nova. Uma vez ela foi rejeitada no parquinho por estas características, mas, se tivesse uma pele mais clara, fosse cacheada, teria mais chance dela ser acolhida. Há uma proximidade maior. Por ser escura, é outro processo. Com minha filha, vejo de fora o processo pelo qual eu passei”, exemplifica a empresária, que conta ser perguntada de forma recorrente se é africana. “Nossa representação é tão pequena que sequer acreditam que tem mulher como eu no Brasil. Cai no processo de invisibilidade. É extremamente dolorido.”

Ana Paula fez um vídeo sobre a questão de Fabiana Cozza interpretar Dona Ivone Lara e colocou em debate a questão do colorismo. Nele, ela cita o caso da a atriz americana Amandla Stenberg, que recusou um papel no filme Pantera Negra por considerar que o longa-metragem “merecia atores com pele mais escura”. Ela decidiu se retirar dos testes de elenco. “Foi um desafio para mim e para o meu ativismo: eu sou capaz de recusar uma oportunidade se ela não é certa para mim? Eu não me arrependo. Eu reconheço que existem espaços que eu não deveria tomar de outras pessoas”, argumentou Amandla à emissora CBC.

A exemplificação do colorismo

Anteriormente, Spartakus Santiago, AD Junior e Nátaly Neri fizeram vídeos em seus canais do YouTube debatendo o colorismo e suas origens. Nátaly apontou três mitos sobre a mulher negra na sociedade que exemplificam a questão. Os mitos foram repassados pela filósofa Djamila Ribeiro, em um curso.

“O primeiro é o da mulher negra forte, barraqueira: a que se impõe, não leva desaforo para casa e não só tem uma condição psicológica forte o suficiente para aguentar apanhar, a fome e tudo, como também tem um corpo muito forte; o segundo mito é o ligado à mãe preta: a mulher negra senhora que cozinha, é subserviente, abaixa sempre a cabeça, a ama de leite que cuida da casa, a tia Nastácia; por fim, o terceiro é o da mulata exportação: a que serve para satisfazer os prazeres, não é para casar, serve para gringo ver e mostrar lá fora que somos um país de ‘mulheres fogosas’, somos ‘da cor do pecado’. Esses são os mitos”, pontuou, puxando para a questão do colorismo.

“Os dois primeiros, da mulher negra barraqueira e da tia Nastácia, pelo que se pode analisar como difundido na sociedade, ambos são ligados à ideia de mulher negra de pele escura. Quando se pensa nesses ideais, pensa em uma mulher retinta, pobre”, diz. “Já quando se pensa no mito da mulata exportação, é a negra de pele clara, magra, a mais embranquecida possível. E não quer dizer que essa mulher não sofra racismo”, prosseguiu Nátaly.

No vídeo, com mais de 462 mil visualizações, Nátaly diz que se considera uma mulher negra de traços finos e magra, padrão que a faz ter privilégios e ser encarada como uma “negra apreciável”, “tolerável”, enquanto uma negra de pele escura não é. “É muito importante para nós, negros de pele mais clara, termos consciência do que é o colorismo para saber dos privilégios que a gente tem e como não podemos fazer uso deles, mas sim negá-los”, argumenta.

Há um caso vivido por Nayara Justino, escolhida como Globeleza pela Rede Globo em 2013. Um ano após assumir o papel de simbolizar o samba na principal emissora de TV do país, Nayara, negra retinta, acabou demitida. Antes e depois dela, as outras representantes do papel foram negras com tom de pele mais claro. “Depois de um tempo, eles entraram em contato comigo e me comunicaram que eu não seria mais Globeleza. Eu me senti usada. Quando eu apareci, eu meio que dei uma levantada no título (de Globoleza), e depois me tiraram do posto. Não tenho revolta por terem me tirado, mas o problema é que eu não pude me defender das ofensas que recebi”, declarou, à TV Record. “Antes de a minha vinheta ir ao ar, eu recebia muitos telefonemas de empresários. Depois, todos sumiram. Até hoje eu sinto que perdi muitos trabalhos por isso”, disse.

‘Eram muito amigas’

A questão da representatividade assertiva ou não em Fabiana Cozza interpretar Dona Ivone Lara colocou inclusive a família da sambista na questão. André Lara, neto de Ivone, saiu em defesa da cantora e atriz. “Isso que fizeram com a Fabiana foi um absurdo. É uma total falta de respeito. Para a gente, ela é negra. Além de ser uma artista incrível, ela e minha avó se conheciam há mais de 20 anos, eram muito amigas”, afirmou, em entrevista ao G1. “Fabiana também tem conhecimento profundo de todo o repertório da Dona Ivone e consegue interpretá-lo como ninguém”.

Produtor do musical, Jô Santana explicou os motivos da escolha. “Em respeito a indicação da Família de Dona Ivone Lara, a única atriz convidada para o espetáculo foi Fabiana Cozza, os outros 21 atores foram selecionados via audições. Ao pensar em Fabiana, pensamos na representatividade que a artista teve em toda sua trajetória e a ligação pessoal entre a artista e a homenageada e sua família”, sustenta o produtor, em carta. “Aceitamos as demandas, nos reconhecemos nestas, porém, não podemos comungar com reações violentas que foram levantadas na última semana contra a artista e contra este coletivo de trabalho formado por artistas de reconhecimento internacional”, seguiu.

Em sua carta de renúncia ao papel, Fabiana desabafou. “Renuncio porque falar de racismo no Brasil virou papo de gente ‘politicamente correta’. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias”, escreveu em seu perfil no Instagram. “Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas”.

A questão do colorismo, de acordo com Spartakus Santiago, é impreterivelmente analisada conjuntamente ao racismo. “Eu acho o colorismo só vai deixar de ser uma questão quando o preconceito acabar. Enquanto o colorismo estiver fazendo retintos não terem oportunidades, esse debate vai ser sempre necessário”, conclui, analisando o caso específico de Fabiana e Dona Ivone. “Mas eu também acredito que o debate foi distorcido, como se Fabiana fosse culpada de algo. Os culpados do colorismo não são os negros de pele clara e sim a branquitude que nos trata de forma diferente”, ponderou.

AD Junior concorda. “Conversar sobre colorismo, no momento, é muito perigoso porque tem gente que pode achar que foi inventado com a Fabiana Cozza, mas não foi. Tivemos avanço das pautas do movimento negro e ele não tem nada a ver com a branquitude, que decide se meter na nossa conversa. São 130 anos em que os brancos falaram e a gente não avança nem um pingo”, critica.

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