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Entre as artes marciais e a música, o importante para Rute Fiuza é nunca parar de lutar

08/03/21 por Caê Vasconcelos

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Mãe de Davi, morto por 17 PMs em 2014, Rute encontra nos discos e no jiu-jitsu a vontade de viver: “Ninguém pode apagar os momentos de felicidade”

Rute encontrou nas artes marciais sua força para seguir | Foto: Arquivo pessoal

Rute Fiuza nasceu em primeiro de junho de 1968, ano em que o Ato Institucional 5 (AI-5) foi instaurado no Brasil, e na mesma cidade onde nasceu o guerrilheiro e deputado Carlos Marighella, Salvador, capital da Bahia. A dureza da Ditadura Militar permaneceu na vida de Rute, mas em outras formas.

Em outubro de 2014, Rute sentiu a imensa dor de perder seu único filho, Davi Fiúza, na época com 16 anos, levado por 17 PMs de São Cristovão, em Salvador. Em 2018, a polícia baiana concluiu que os policiais eram responsáveis pelo desparecimento e morte de Davi. Rute é mãe de mais três meninas.

Criada em um lar de mulheres, pela bisavó e pela avó, Rute aprendeu desde cedo a proteger seu coração dos homens, já que via suas ancestrais passando pelo mesmo problema: o abandono. Foi com essas mulheres que Rute aprendeu a ser forte.

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“Talvez por isso eu aprendi a me proteger dos homens. Eu tive alguns relacionamentos, mas nunca deixei nenhum homem me abandonar, fui eu que larguei eles, porque eu não ia passar pelo que elas passaram”, pensa alto, em conversa com a Ponte. “O Brasil sempre foi muito escroto com as mulheres. Se todos os homens engravidassem, o aborto já seria legalizado“.

Rute precisou lidar com a morte desde muito jovem. A primeira perda foi aos 5 anos de idade, quando sua bisavó, Maria Brito, faleceu. “Eu só vim superar depois de adulta, porque a minha bisavó era uma mulher marcante, acolhedora e eu lembro que um período da minha infância que ficou muito na minha memória foi o falecimento dela”.

“Eu lembro tudo, do mingau que ela fazia até o velório. Eu adoeci muito na época, achavam que eu poderia não sobreviver. Naquela época não se falava em depressão, mas eu estava. Eu ia na casa dela com esperança de que ela fosse voltar”, diz, interrompendo a fala em meio às lágrimas.

Até os 18 anos Rute foi criada pela avó, sua mãe trabalhava como empregada doméstica em casas de família e só conseguia estar presente a cada 15 dias. “Foi a figura da minha avó que ficou comigo”.

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Dona Clarice era analfabeta, porque nunca teve oportunidade de aprender, mas foi Rute, aos 9 anos de idade, que a ensinou a ler e escrever o próprio nome. Rute sabia que sua avó tinha vergonha de apresentar o documento de identidade porque no lugar da assinatura tinha uma digital.

“Eu disse para ela comprar um caderno e uma cartilha do alfabeto que eu iria ensinar. A primeira palavra que ela escreveu foi ‘sofá’ e ela ficou muito feliz. Ela não aprendeu muito, mas o necessário. Quando ela foi fazer um novo RG ela escreveu o nome dela. Ela era altamente inteligente, tinha um gosto musical muito diverso”.

No rádio, Rute cresceu ouvindo as referências da avó. “Todo ano saia um LP dos artistas e todos os anos minha vó comprava do Benito di Paula, do Jorge Ben e do Ney Matogrosso. Minha avó adorava o Ney Matogrosso e o Secos & Molhados. Ontem eu estava escutando o LP favorito de minha vó, que chama Seu Tipo“.

“A primeira vez que eu ouvi Zé Ramalho foi a minha avó, a primeira vez que eu ouvi Oswaldo Montenegro foi a minha avó, a primeira vez que eu ouvi Rita Lee foi a minha avó. Minha avó foi a pessoa que me influenciou a gostar de música e a música na minha vida é essencial”.

Rute foi crescendo, cheia de sonhos, mas vendo poucas possibilidade de realizá-los. Viu uma tia morrer de tristeza dois meses depois de dar à luz seu primo, Pedro, após ser abandonada pelo namorado. Apesar dos momentos difíceis, Rute reconhece: “Eu tive uma infância boa. Nunca passei fome, por exemplo, porque o meu avô, mesmo indo embora, dava uma pensão para a minha avó”.

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Rute conta que nunca sonhou em ser nada grandiosa, porque isso estava muito longe de sua realidade. “O meio que eu vivia não tinha alguém que eu me inspirasse. Mas eu tinha música e queria fazer alguma coisa que tivesse a ver com isso”.

“Eu não tenho voz bonita, Deus não me deu esse privilégio, então nunca quis ser uma mega estrela. Mas eu queria escrever música, queria tocar um instrumento. Mas onde que pobre toca piano? Era isso que eu queria, mas acordei porque a minha realidade era outra”, lamenta.

Ela lamenta ainda mais a desvalorização dos brasileiros aos compositores. “O intérprete passa a emoção, mas é o compositor que escreveu aquilo, com a emoção dele, a genialidade dele. Talvez por isso eu sofri muito quando o Aldir Blanc morreu, como há muito tempo eu não sofria. Eu fiquei muito comovida com a morte dele porque sempre o vi como um dos maiores compositores do país”.

O sonho de tocar um instrumento, como o violão, nunca acontece, confessa, porque ela não tem lá muita paciência para aprender. “Eu sou geminiana né? Então a paciência não é uma das minhas maiores virtudes”, brinca. Aliás, tem bastante gêmeos no mapa astral de Rute: mercúrio e vênus em gêmeos e ascendente em capricórnio.

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Rute nunca gostou de filmes como Drácula, mas se apaixonou pelas obras cinematográficas de Bruce Lee, por quem se apaixonou como artista. “Enquanto todas as meninas queriam ser professoras ou manequim de revista, eu queria lutar como Bruce Lee”.

Na década de 1980 foi atrás do sonho, apesar de ouvir que só homens podiam fazer isso. “Só tem uma coisa que pode nos salvar e me salva: a arte. Seja musical, teatral ou arte marcial. Dos sonhos que eu tive, o que eu realizei foi justamente a arte marcial”.

O primeiro emprego de Rute foi em uma academia de caratê. “Arte marcial nunca foi barata e nem tinha incentivo. Eu fiquei juntando dinheiro porque sabia que era isso que eu queria”. Mas não foi no caratê que Rute se encontrou, mas o primeiro lugar para ela foi no taekwondo. Para ela, a luta foi o seu antidepressivo em diversos momentos. Quase sempre era a única mulher dos espaços.

Rute durante evento depois da morte do filho | Foto: Arquivo pessoal

Na adolescência, queria revolucionar o mundo, mudar as coisas. Frequentava os bailes de Salvador que tocavam Michael Jackson, artista que só traz boas memórias para ela. “A arte dele me proporcionou muita alegria, me traz felicidade”.

Depois vieram os primeiros namoros. Aos 19 anos, Rute engravidou da primeira filha, mas o relacionamento não deu certo. O pai de Davi e das outras duas filhas veio de um segundo casamento.

“Ninguém pode apagar os momentos de felicidade, eu acredito que não acaba aqui. Tudo está muito ligado. Quem perde mãe é órfã, quem perde marido é viúva, mas uma mãe que perde um filho não tem palavra, porque é muito mais profundo do que uma palavra”.

Davi era o único filho de Rute, mãe de outras três filhas | Foto: Arquivo Ponte

Ela comemora a chegada das filhas na universidade. “Eu não pude acessar, mas elas conseguiram. Isso é uma felicidade, apesar de saber que é uma luta permanecer nesses espaços. O que importa é não estar vencido, é vencer todos os dias”.

Rute parou de fazer artes marciais em 2006, mas com a morte de Davi, adquiriu síndrome do pânico e percebeu que precisava voltar para o seu remédio. “Eu chorava de medo da rua, tinha medo de dormir. Eu tinha medo dos remédios me fazerem dormir, aí voltei para as artes marciais”. Foi quando conheceu o muay thai.

O choro e o medo foram embora com a entrada desse novo amor, trazendo a alegria. Depois de seis meses, o professor sugeriu que ela migrasse para o jiu-jitsu, mas ela foi resistente. “Eu falava que não iria me agregar em nada, a visão que eu tinha era muito diferente, eu dizia que parecia sexo selvagem e não queria isso, queria algo para dar porrada”.

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“Mas daí eu fui fazer o teste e amei. O jiu-jitsu foi a minha cura para muitas dores. No tatame o que vale é treinar bem, tem pessoas de todas as profissões, classes sociais”, conta com um sorriso no rosto. “O jiu-jitsu não é para atacar, ele é uma defesa. Para mim, ele combateu a ansiedade e a síndrome do pânico. Eu vou ficar velha, mas no jiu-jitsu“.

Na pandemia, com o isolamento social, Rute precisou abrir mão dos treinos, que têm feito falta diariamente em sua vida, mas a proximidade com os colegas tem ajudado. “Assim que começou a pandemia, dois colegas vieram me visitar, ficaram de longe, só queriam saber como eu estava. Me trouxeram máscara e álcool em gel. Parece pouco, mas isso significa muito”.

Turma de jiu-jitsu marcial de Rute | Foto: Arquivo pessoal

Outro momento importante na vida de Rute foi conhecer Debora Silva, fundadora do movimento Mães de Maio. “Quando aconteceu o sequestro do Davi, acionamos a Anistia Internacional, fui para o Rio de Janeiro com outras mães e a Debora ia chegar tarde da noite. Como eu tinha medo de dormir, estava acordada e vi quando ela chegou”.

Naquele encontro, Rute pegou o microfone e desabafou. As palavras saíram da alma, o que tocou muitas mães, incluindo Debora. “Eu comecei a falar do desaparecimento, do Davi e a dor atingiu a minha alma. As mães choraram muito e lembro de três que vieram me abraçar: Mônica Cunha, do Rio, Nair Mattos, de Pernambuco, e a outra foi Debora. Elas choravam de um jeito que eu nem queria mais chorar”.

Rute e Debora não trocaram contato naquela ocasião, mas a vida as aproximou. “Quase um ano depois eu reencontro Debora em São Paulo. Quando a gente se viu, parecia que éramos íntimas. Nunca mais nos largamos”.

Debora Silva e Rute nunca mais se desgrudaram | Foto: Arquivo pessoal

“Todos os dias eu falo com ela. Ela sempre fala que somos a dupla treta e tretinha, porque eu sou muito amorosa, mas deveria ser mais… e eu falo ‘vamos devagar’. A Debora é uma mulher inspiradora. Ela tá nessa luta por amor à luta, por justiça e pela memória”.

Inspirada por Debora, Rute lançou as Mães de Maio no nordeste em 2018. “Eu poderia colocar qualquer outro nome, ‘Mães de Outubro’, ‘de Novembro’, ‘de Dezembro’, porque a gente perde os nossos o ano inteiro, mas maio é o mês das mães. Então é muito simbólico para mim. Eu já tinha esse plano, mas foi repentino, decidi lançar no evento. A Debora chorou tanto que ficou vermelha. Foi só alegria”.

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Para Rute, Debora não tem um egoísmo comum em alguns movimentos ou lideranças. “A Debora não tem isso. Ela quer que todo mundo ocupe os espaços que ela ocupou, ela tem uma empatia com as mães. As duas vezes que eu sai do Brasil foi articulação da Debora”.

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