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Entregador morto por PM com tiro no pescoço sonhava ter uma moto – que ele ainda pagava

14/11/20 por Arthur Stabile

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Tio define Bruno Gomes de Lima Simon Fuentes, 23 anos, como “menino bom, esforçado” e conta que ele saiu de casa para pegar uma camiseta na casa de um amigo

Bruno publicava fotos com diversas camisas de futebol, outra paixão | Foto: Reprodução/Facebook

“Você é do tamanho dos seus sonhos. Lute, persista, mas nunca desista. Ninguém além de você mesmo pode torná-lo real”. O texto de Bruno Gomes de Lima Simon Fuentes, 23 anos, publicado no dia 3 de maio, acompanhava uma foto dele em sua Honda CG/150. A moto é a mesma que ele pilotava na terça-feira (10/11), quando morreu baleado no pescoço por um PM em Diadema, Grande SP. O policial Leandro Queiroz de Lima alega ter atirado acidentalmente enquanto “lutava” com Bruno, que teria reagido a uma abordagem.

Basta acessar o perfil do rapaz na rede social Facebook para entender sua paixão por motos. Além da sua “cinzenta”, apelido que deu para a moto que comprou nesse ano e ainda pagava as prestações, há no perfil imagens do piloto italiano Valentino Rossi, multicampeão na Moto GP.

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“Meu sobrinho amava motos. O sonho dele era comprar uma. Comprou a dele no começo do ano, ainda estava pagando”, conta Anselmo Simon Fuentes, tio do rapaz. Ele vive em Diadema há 40 anos, viu Bruno nascer, crescer e morrer no Jardim Piraporinha, bairro próximo à Rodovia dos Bandeirantes.

São 650 metros da cara onde o jovem morava, na Rua Umuarama, até a esquina das ruas Pedro José de Rezende e Maria Helena, local onde ele teria caído com a moto. Ali, o PM o atingiu fatalmente no pescoço. Segundo a família, ele teria fugido da abordagem por estar sem a carteira com os documentos.

Os amigos encaram com perplexidade a morte. Ao menos quatro muros amanheceram com homenagens entre o local da morte à casa de Bruno. Homenagens também no Facebook, com textos de despedida: “Não podemos aceitar calados a morte de um trabalhador”, “Que saudade você vai deixar aqui. Só Deus para nos confortar nesse momento tão dificil”, “Foi muito bom a convivência ao seu lado, meu irmão. Nunca vou me esquecer de você”.

Publicação em que Bruno exalta seu sonho: a moto modelo GC 150 | Foto: Reprodução/Facebook

Bruno trabalhava como ajudante em uma indústria durante o dia e, pela noite, fazia entregas para completar a renda. Vivia em uma casa com a mãe e avó, enquanto os tios moravam em outra casa, no mesmo terreno. Anselmo mora na residência logo em frente.

“Era um menino muito bom, esforçado. Nunca se meteu com polícia, com bandido, não tinha passagem. A família é toda trabalhadora”, conta Anselmo, com nítido pesar no áudio enviado por WhatsApp à Ponte.

O tio conta que o rapaz saiu naquela noite para buscar uma roupa na casa de um amigo. “Tinha acabado de chegar do serviço. Ia com a moto buscar uma camiseta, se trocou e deixou os documentos que estavam no bolso dele”, detalha.

Era por volta de 23h30 quando ele viu uma viatura da PM e fugiu. Segundo o tio, exatamente por estar sem documento e temer perder o veículo. O familiar explica que não havia nenhum problema com a moto, que estava totalmente regularizada, faltava apenas o seguro em caso de roubo ou acidente.

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A versão do policial Leandro Queiroz de Lima é que Bruno fugiu e se acidentou ao fazer uma curva. Na hora em que os PMs chegaram, ele teria ido para cima tentar pegar sua arma, que disparou sozinha. O modelo é uma Taurus.

Conforme apurado pela Ponte, não consta nenhum processo conta Leandro no Tribunal de Justiça Militar. Significa que o policial não responde a nenhum crime cometido no exercício da profissão – o caso do entregador Bruno ainda está em fase de investigação.

Ainda que conte esta versão sobre a morte, o PM não apresentou sua arma no 3º DP de Diadema. A delegada Valéria Andreza do Nascimento cobrou a entrega, mas o tenente Rojas, responsável pelo 24º BPM/M (Batalhão de Polícia Militar Metropolitano), não entregou o armamento.

O tenente nem sequer se apresentou à Polícia Civil. Chefe responsável por Leandro e os demais PMs envolvidos na ação, considerou que o caso se trata de um crime militar. Com base nisso, entende que a prova deve ficar com a corporação e não com a Civil.

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A delegada Valéria criticou a ausência da prova. Segundo a delegada Raquel Gallinati, presidente do Sindicato dos Delegados de Policia Civil do Estado de São Paulo, o ato configura “usurpação de poder”.

“Confere à [Polícia] Civil e justiça estadual atribuições de investigar e julgar crimes contra a vida praticados contra civis. Existe um não cumprimento legal da lei. É rasgar a Constituição, violar os direitos humanos e uma ação que quebra totalmente o estado democrático de direito”, afirma Raquel.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, administrada pelo general João Camilo Pires de Campos nesta gestão João Doria (PSDB), ignorou questionamentos da Ponte em relação a recusa da PM em entregar a arma do PM Leandro. Limitou-se a dizer, através de sua assessoria de imprensa terceirizada, a InPress, que “todas as circunstâncias relativas aos fatos são investigadas pelo SHPP (Setor de Homicídios E Proteção à Pessoa) de Diadema, órgão da Polícia Civil”.

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