Entregador trans é agredido e xingado a caminho do trabalho

Joaquim Souza, 23, conta que motorista o chamou de “viadinho” quando estava parado no semáforo e depois parou o veículo e lhe deu socos no rosto quando passava na ciclovia, na região do Morumbi, em SP

Joaquim Alves de Souza conta que foi agredido por motorista quando passava em ciclovia na quinta-feira (23/9) | Foto: arquivo pessoal

O entregador Joaquim Alves de Souza, 23, passava de bicicleta pela Avenida Ministro Laudo Ferreira de Camargo, na região do Morumbi, na zona sul da capital paulista quando um carro preto parou ao seu lado no semáforo, na quinta-feira (23/9). “Eu estava numa avenida que não tinha ciclovia, tinha três faixas e eu ocupava uma da esquerda para tentar acessar uma ciclovia na Avenida Eliseu de Almeida”, afirma. “O cara que estava dirigindo esse carro gritou de dentro que eu estava atrapalhando o trânsito e eu olhei para ele e disse que não estava atrapalhando em momento nenhum e exercia meu direito [de ir e vir] porque a bicicleta também é um veículo”.

Em seguida, o homem começou a insistir e passou a ofendê-lo. “Esse homem começou a me xingar de ‘viadinho’, ‘bichinha’, ‘pau no cu’ e tentando atingir a minha masculinidade. Eu só consegui olhar para a cara dele e falar: ‘eu sou tudo isso que você está falando e sou mais um pouco ainda‘”, prossegue. Quando o farol abriu, Joaquim relata que o homem “arrancou com o carro” e cuspiu no chão.

Já na ciclovia, o entregador disse que viu o carro passando. Mais a frente, lembra que um homem passou a andar pela ciclovia na direção dele. “Quando eu vi, era o cara do carro. Ele estacionou o carro dele num posto de gasolina na frente, atravessou a avenida, pulou a mureta da ciclovia e ficou parado na frente da ciclovia esperando eu passar.” Ao passar por onde o homem estava na ciclovia, Joaquim denuncia que o homem o abordou, começou a xingá-lo e deu um soco nele.

“O que eu fiz foi tentar segurar as pernas dele e ele continuou me socando”, lembra. As agressões só pararam, segundo ele, porque uma ciclista que passava começou a gritar e ameaçou chamar a polícia. “Depois que ele saiu de cima de mim, ele correu para o carro e eu fiquei falando para as pessoas que estavam no posto para pegar a placa, mas ninguém fez nada”. Joaquim conseguiu tirar uma foto do veículo em que é possível identificar a placa. Segundo ele, era um homem branco, com cabelo castanho claro, um pouco gordo e forte, aparentemente com altura entre 1,75 metros e 1,80 metros.

Identidade desrespeitada

Em seguida, ele conta que passou a acenar para uma viatura que passava no sentido contrário. Ele foi levado pelos policiais militares ao Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo), onde foi medicado e levou pontos. Ele aponta que os PMs questionaram sobre seu número de RG não apresentar o nome masculino no sistema interno de anotação de ocorrências e que teve de explicar sobre ser um homem trans.

No hospital, ele denuncia que não teve sua identidade de gênero respeitada por uma assistente social que estava auxiliando o encaminhamento para uma avaliação oftalmológica no Hospital das Clínicas, já que as agressões atingiram seu olho esquerdo. “Ela me tratava no feminino e me chamava pelo nome de registro, mesmo eu pedindo para me chamar de Joaquim e explicando que era um homem trans.”

Já por outros profissionais de saúde, afirma que não ocorreu situação semelhante: “O pessoal da residência [médica] pediu desculpas pelo transtorno”. De acordo com o entregador, a princípio não foi identificada anormalidade no olho, mas ele afirma que está enxergando uma mancha preta e que deve retornar ao hospital na próxima semana.

No 34º DP (Vila Sônia), o boletim de ocorrência feito por Joaquim tinha seu nome de registro e um campo para o nome social, mas a assinatura final do documento ele teve que escrever o nome de batismo. “Eu falei que no meu RG a minha assinatura que aparece é como Joaquim, mas o escrivão disse para escrever por extenso o nome antigo porque ‘se não teria que ir lá para cima para o cartório e vai fazer confusão’”.

O caso foi registrado como injúria e lesão corporal pelo escrivão Michael Angelo Carvalho da Luz e a delegada em questão era Christianne Quiodeto. No entanto, ele aponta que foi bem tratado pelos funcionários da delegacia, mas houve essa questão com os papéis do registro.

Para Joaquim, foram duas violências: o fato de ser ciclista e pela sua identidade de gênero. “Eu acho que foi eu ser ciclista e estar ocupando a rua e o cara me xingar achando que iria me diminuir utilizando xingamentos e eu só rebati. Foi homofobia e ‘carrocracia’”, diz. “Não sei qual foi a leitura do cara, se ele teve essa reação contra orientação sexual que é considerada ‘dissidente’ da sociedade, eu não sei o que ele faria sabendo que a minha identidade de gênero é trans. Eu estava com uma camiseta com as cores da bandeira trans, tenho cabelo rosa, uma [blusa] corta-vento rosa, e estava com uma bag [mochila para entregas] escrito ‘Fora Bolsonaro’ bem grande”.

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O advogado de direitos humanos e que representa o entregador Leandro Freire também destaca a dupla violência. “Muitos motoristas têm preconceito com quem anda de bicicleta e não conhecem o Código de Trânsito e isso reforça o preconceito de que as bicicletas não devem andar nas vias”, afirma. “O agressor não se contentou em injuriar o Joaquim por causa da bicicleta e, quando percebeu a transexualidade dele, passou a injuriá-lo com xingamentos.” Além disso, destaca que Joaquim não estava cometendo infração de trânsito por se deslocar por uma avenida sem ciclovia. “No Código Brasileiro de Trânsito, no artigo 58, diz que o ciclista deve usar a via nas ruas que não têm espaço próprio”.

Joaquim afirma que vai contar com o auxílio dos coletivos dos quais faz parte para conseguir se recuperar, já que é entregador independente.

O que diz a polícia

A Ponte procurou a assessoria da Secretaria de Segurança Pública sobre as investigações do caso e sobre os registros de ocorrências que tratem de pessoas trans e travestis. A pasta informou que só poderia responder a solicitações na segunda-feira (27/9), já que está em esquema de plantão.

O que diz o HU

Questionamos a assessoria do Hospital Universitário sobre a assistente social e aguardamos resposta.

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