Especial Mulheres | Mulher trans supera preconceito e vive para dar oportunidades a outras

Mulher trans sobrevive às estatísticas e ajuda outras a se recolocarem profissionalmente no país que mais mata transexuais e travestis em todo o mundo

Valéria preside instituto de reinserção social e profissional de mulheres transexuais e travestis | Foto: arquivo pessoal

Valeria Rodrigues tem 38 anos, é mulher trans e precisou sair de casa ainda muito cedo. Aos 16, enfrentou a família religiosa que até hoje não consegue lidar com a identidade de gênero dela. “Deixei meus estudos ainda na quinta série por motivos de preconceito sofrido na escola, trabalhei em salões de beleza pra não passar fome. Trabalhei enquanto não transicionada em vários lugares, porém, com o passar dos anos, as coisas vão se complicando para uma travesti ou transexual”, conta.

Hoje, Valeria é presidente do Instituto Nice, que trabalha com a reinserção social e profissional de mulheres transexuais e travestis. “Tenho o orgulho de estar cursando Gestão Pública, quando eu achava que não seria mais capaz”, afirma.

Valeria já sentiu na pele o peso do preconceito, das agressões e da transfobia. Uma vez que ela temeu pela vida foi quando um homem armado fez ameaças a ela em um posto de gasolina, mesmo local em que uma vez ouviu um casal hetero conversando sobre ela e debatendo se ela era “traveco”. Nesse dia, depois de ela fazer um sinal de “não” com a cabeça, o homem a agrediu e atirou do local com socos.

Ela diz que empoderamento está em “entender as dificuldades que se passam e querer reagir para mudá-las, a mudança está dentro de cada uma e cada um de nós, ninguém tem o poder de empoderar a outro”, diz.

Quando era adolescente, ela abria as portas da própria casa para acolher amigos e amigas LGBT que eram expulsas de onde moravam pelos pais que não aceitavam a identidade de gênero e a orientação sexual deles. Mesmo ajudando na luta LGBT desde adolescente, ela afirma que o “acordar” para a militância e para a vida veio aos 33 anos. “No país em que as estatísticas dizem que uma travesti ou transexual viverá apenas até os 35 anos, estou no lucro, mas a minha luta é diária contra minha vontade de desistir de tudo”, afirma.

Valeria diz que a representatividade da população trans tem aumentado graças aos avanços ao longo dos últimos anos. Como exemplo, ela cita travestis e transexuais ocuparem a cadeira de entidade LBT (lésbicas, bissexuais e transgêneros) no Conselho Municipal de Políticas para Mulheres de São Paulo e têm caminhado “lado a lado” de mulheres cisgêneros (pessoas que se reconhecem no gênero de nascimento, ao contrário das trans, pessoas que não se identificam com o gênero de nascimento).

Um desses avanços aconteceu recentemente quando o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que pessoas transexuais e transgêneros têm o direito de alterar nomes e sexo no registro civil sem a necessidade de realizar cirurgia e apresentar laudo médico.

Também não é mais preciso ter uma autorização judicial para a mudança. Segundo Valeria, o Supremo “deu a nós o direito à dignidade”. Isso é entender “o constrangimento que nós passamos todas as vezes que íamos a um lugar que exige um documento”, pondera.

O Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Só este ano foram 33 travestis e transexuais mortas, segundo dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Para Valéria, o feminismo “é o símbolo da luta incessante de mulheres para garantir o direito à equidade.” Além disso, afirma que “é a força conjunta na luta do gênero feminino em sua pluralidade, para combater e enfrentar retrocessos que uma sociedade machista e patriarcal nos impõe”, finaliza.

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