Especial Trans | Coletivos pedem fim do ‘transfake’: saiba o que é isso

Coletivo T e Movimento Nacional de Artistas Trans pedem mais oportunidades na representação de personagens trans por atores e atrizes trans

O termo transfake se refere à prática de atores cisgêneros (pessoas que se reconhecem no gênero de nascimento) interpretarem personagens trans e travestis (pessoas que não se identificam com o gênero de nascimento) e remete ao blackface.

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O blackface era uma prática teatral muito usada no século 19, em que atores e atrizes brancos pintavam o rosto de preto para interpretar personagens negros. Hoje, 100 anos depois, esta prática é considerada racista.

A pesquisadora, psicóloga, professora e escritora pós-doutoranda Jaqueline Gomes de Jesus, em entrevista à Ponte, disse que, assim como acontecia no século 19 com atores e atrizes negros, hoje acontece com atores e atrizes trans. “Pessoas negras não se representavam no teatro porque eram negras e no racismo clássico se evidenciava que uma pessoa negra era inferior, desqualificada”, conta Jaqueline.

Para Jaqueline, transfake desqualifica atores trans | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

“Essa é a mesma lógica do transfake: dizer que pessoas trans não são qualificadas para atuar. É ainda mais drástico para mulheres trans e travestis porque normalmente são homens cis que interpretam. É transfóbica a ideia de considerar a mulher trans e a travesti como um homem, ou como um gay super afeminado”, completa a pesquisadora.

Criado em abril de 2017 pelo Coletivo T, o manifesto ‘Representatividade trans já. Diga não ao Trans Fake’ voltou a circular nas redes sociais depois da estreia em Belo Horizonte da peça Gisberta, de Luis Lobianco, em que o ator cisgênero interpreta a transexual brasileira Gisberta, brutalmente assassinada em 2006 em Portugal.

Entre as reivindicações do Coletivo T, primeiro coletivo formado apenas por artistas trans, e do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) estão a falta de representatividade, a invisibilização de seus trabalhos e a ausência de reconhecimento artístico na TV, no teatro e no cinema.

“Lutamos pela normalização e humanização de nossos corpos e identidades. Direitos básicos nos são negados diariamente”, diz o Coletivo T no manifesto. “Entendemos a liberdade artística de maneira ampla, geral e irrestrita, sem gênero, sem barreiras, sem amarras e sem fronteiras. Mas também entendemos a arte como instrumento libertador, questionador e símbolo de luta e resistência. E para que serve o artista, senão para refletir, questionar e falar do seu tempo? Nós artistas trans gostaríamos de conhecer de perto essa tal liberdade artística”, completa o Coletivo.

Entre os membros do Coletivo T, estão os artistas trans e travestis Ave Terrena, Lua Lucas, Leona Jhovs, Suzy Muniz, Wallace Ruy, Leo Moreira Sá, Caio Jade, Gil Porto, Dom Lino, Danna Lisboa, Veronica Valentino, Dani Veiga, Renata Carvalho e Daniela Glamour.

Mobilização do Coletivo T contra o Trans Fake | Foto: Reprodução Facebook

Para Renata Carvalho, atriz e integrante do Coletivo T, é urgente que artistas trans sejam reconhecidos e representados, para que a estigmatização em cima da população trans tenha fim. A exclusão do corpo trans, segundo a atriz, é o principal motivo para a luta do coletivo.

“O corpo trans siliconado, marginalizado, fetichizado e sexualizado passou a ter vários estigmas porque ele não estava presente nos lugares. Então, é um corpo que, quando chega em algum espaço, é desconfortável, olhado, apontado e é motivo de chacota. Nós não estamos acostumados e habituados a esse corpo, pois vivemos numa sociedade corporificada – entre corpos que são aceitos e corpos que não são aceitos”, salienta Renata.

“Quando passarmos a nos representar, legitimamos e abrimos mentes e corações. Mostramos que a população trans não é uma caricatura da mulher, e sim uma identidade. Quando passarmos a nos representar, a sermos vistas, vai aumentar a nossa autoestima; poderemos dizer ‘sim, é possível’; esse corpo passa a ser humano; esse corpo passa a ser naturalizado. E com essas presenças em estúdios e camarins, o que a gente quer é que se espalhe do micro das artes para o macro, que é a sociedade”, completa a atriz.

O ator e escritor Caio Jade, 25 anos, que também é integrante do Coletivo T, acredita a representatividade vai muito além das artes, trata-se de inserir pessoa trans no mercado de trabalho. “As estruturas da sociedade impõem que a gente não esteja vivo. Compulsoriamente somos colocados, principalmente as meninas, em lugares de marginalidade, como na prostituição; no caso dos meninos trans, eles passam muito por empregos de apagamento, como no telemarketing e nos estoques de lojas”, conta.

“Fomos acusados de censura, mas a gente é que é censurado, o nosso diálogo que é censurado. Não estamos tentando atacar individualmente trabalho de x ou y, não é sobre isso, é sobre um debate estrutural, que precisa chegar nessas pessoas e os meios pra chegar nessas pessoas estão todos fechados. Eles querem manter tudo como está, para que algumas pessoas estejam presentes no espaço das artes e outras não estejam nem nas artes nem na sociedade”, defende o ator. “Há um processo de silenciamento e apagamento histórico de vozes e expressões de pessoas que não são a norma. Por isso o nosso trabalho de conscientização é sentar junto e conversar. A gente existe e vive isso. Queremos o reconhecimento do nosso trabalho, a redistribuição dos espaços e do capital”, finaliza Caio.

‘Somos todos artistas’

Luis Lobianco na peça Gisberta | Foto: Divulgação

Procurado pela Ponte, o ator cisgênero Luis Lobianco não se manifestou. Em suas redes sociais, o ator respondeu publicamente as manifestações contra o ‘Trans Fake’. Em um dos trechos do texto, Lobianco afirma que “Gisberta foi um projeto idealizado por mim quando tomei conhecimento de sua história. Chocou-me saber que quando sua morte completou 10 anos NENHUM artista trans ou cis desenvolvia uma pesquisa teatral profissional sobre o crime no Brasil”.

Sobre o ‘Trans Fake’, Luis destacou que não cabe mais comparar atores cis interpretando personagens trans com o “Blackface”, pois “Somos todos artistas. Por que não lutar por mais espaço pra todos? Vamos gastar mesmo tanta energia contra aliados? LGBTs contra LGBTs mesmo quando há tantos inimigos lá fora torcendo pra que a gente se destrua e poupe o trabalho deles?”, enfatiza o ator.

Ausência de representatividade

Não é de hoje que personagens transgêneros são interpretados por atores e atrizes cisgêneros, dentro e fora do Brasil.  Lá fora, Hilary Swank viveu o homem trans Brandon Teena em “Meninos não choram” (1999), Jared Leto deu vida a travesti Rayon no filme “Clube de Compras Dallas” (2013) e Eddie Redmayne interpretou a transexual Lili Elbe em “A Garota Dinamarquesa” (2015).

No Brasil, já vimos Rodrigo Santoro interpretar a travesti Lady Di em “Carandiru” (2003) e, recentemente, Carolina Ferraz viveu uma travesti em “A Glória e a Graça” (2016) e Carol Duarte interpretou Ivan, homem trans da novela “A Força do Querer” (2016).

As poucas representações de artistas trans vivenciando personagens trans aconteceram nas séries “Orange Is The New Black” (2013 – atual), em que a atriz trans Laverne Cox interpreta a personagem trans Sophia Burset, e “Sense8” (2015-2016), na qual a atriz trans Jamie Clayton viveu a transexual Nomi Marks.

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