Estado do Rio de Janeiro teve 16 tiroteios por dia em 2017

4 minutos atrás

Parede de casa perfurada por tiros no Complexo do Alemão. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto

Dados estão no relatório anual do Aplicativo Fogo Cruzado. Cidade de Deus e Complexo do Alemão foram os locais com mais registros de disparos de arma de fogo dentre os bairros da capital

Parede de casa perfurada por tiros no Complexo do Alemão. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto

“Rio, cidade desespero”. Esse epíteto, criado pelo grupo Planet Hemp em 1997 para a música Zerovinteum se mostra atual mais de duas décadas depois. Em seu relatório anual, o aplicativo Fogo Cruzado, que mapeia de forma colaborativa a violência armada na região metropolitana do Rio de Janeiro, mostra que foram registradas 5.993 notificações de tiroteios ao longo do ano passado, uma média de 16 por dia.

A capital foi a cidade com mais registros: aproximadamente 4 mil tiroteios. Esse número é seis vezes maior que o segundo município da lista, São Gonçalo, que teve 589 registros. Os bairros de Cidade de Deus e Complexo do Alemão foram os campeões de registros, com 175 notificações de tiroteios cada. “ E tudo indica que vá continuar essa tendência, pois já tivemos vários tiroteios esse ano”, disse à Ponte o DJ TR, coordenador da “Embaixada Hip Hop“, na Cidade de Deus. Segundo os dados do Fogo Cruzado, a localidade já viu cinco ocorrências desde o dia 1 de janeiro.

Crédito: Foto Cruzado

Do total de registros da capital, foi possível identificar a origem de 1.656 dos casos, de acordo com o Fogo Cruzado. Em 41% dos casos ocorreu ou uma operação policial, com 346 registros, ou confrontos entre polícia e criminosos, com 334. Para DJ, a própria geografia da Cidade de Deus pode ter contribuído para esses números. “Aqui não tem becos e vielas, e sim ruas que passam dentro da comunidade”, comenta, ao ponderar que a miséria acaba sendo uma possível causa para que muitos jovens ingressem no mundo do crime. “Na própria Cidade de Deus há locais extremamente desiguais entre si. Tem lugares aqui que se você chegar com um prato de chuchu com sal, as crianças vão brigar pra conseguir comer”.

O Balanço Anual 2017 tem ainda uma série de outros indicadores, tais como: bairros e municípios com mais notificações de tiroteios e disparos; índices de mortos e feridos; presença policial durante tiroteios; áreas com mais mortes de agentes de segurança pública; horários com maior incidência de disparos; ranking de áreas com UPPs que registraram tiroteios e disparos; mês com maior índice de vítimas; ocorrências em shopping centers; registros com 3 ou mais mortos civis; fechamento de escolas/ suspensão de aulas e até o número de animais atingidos por armas de fogo no período.

Para Cecília Oliveira, gestora de dados do aplicativo, o objetivo dessa ferramenta é permitir que o cidadão seja um agente do mapeamento colaborativo da violência armada. “Qualquer um pode saber o que acontece em sua volta e com que frequência”, diz.

Mas o aplicativo é apenas um de uma crescente leva de ferramentas mobile para ajudar os cidadãos a discutirem a participarem ativamente a segurança pública na cidade do Rio. Para Victor Ribeiro, da Rádio Mutirão e Witness Brasil, é imprescindível lembrar como o uso dos celulares ajuda na denúncia de atos violentos praticados pelo Estado. “O vídeo de celular, o live de facebook, tudo isso ajudou o Coletivo Papo Reto a comprovar que a PMERJ estava invadindo residências no Complexo do Alemão”, explica.

Já Guilherme Pimentel, do Defezap, aplicativo que recebe vídeos-denúncias, acredita que aplicativos desse tipo são uma possibilidade de exercer a cidadania. “ Essas tecnologias e ferramentas já são usadas por mais da metade da população brasileira”, afirma. Segundo Pimentel, a utilização dessas ferramentas consolida uma cultura cada vez mais colaborativa, que constrói e se pauta através dessas novas fontes de informação. “Cabe às autoridades entender isso de maneira saudável e incorporar esses números nas formulações de políticas públicas e não temer isso, como geralmente acontece”.

A Ponte questionou, por e-mail, a Secretaria da Segurança Pública do Rio de Janeiro, especialmente no que diz respeito aos tiroteios envolvendo policiais, mas, até o momento, não obteve resposta.

Comentários

Comentários

Colabore com a Ponte!

Enviar um comentário

Contribua com a Ponte

Clique para doar

Catarse

feito por F E R A