Ex-morador de rua cursa direito e faz vaquinha para pagar formatura

    Errata: As informações desta reportagem estão incorretas; saiba mais aqui (atualizado em 1/3/19, às 15h05)

    Walisson se forma no final deste ano | Foto: Facebook

    Uma destino feliz fez com que Walisson dos Reis Pereira, 30 anos, ex-morador de rua, fosse um personagem diferente nessa história. O jovem, que morava há quatro anos na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, conseguiu, em 2012, retornar aos estudos. Hoje, após conseguir uma vaga pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), está no nono semestre do curso de Direito e luta para concluir o curso e participar da formatura, no final deste ano.

    Atualmente Walisson é estagiário e tem uma renda de R$ 760, dos quais gasta R$ 500 para pagar aluguel. Por isso, criou uma vaquinha virtual buscando financiar sua festa de formatura, com fotos, festa, roupa e a colação de grau.

    Para Walisson o desejo de participar da festa de formatura representa todo o esforço que o ex-morador de rua passou. “Para mim, tem o significado de igualdade, até porque tem muitas pessoas na minha faculdade que tem poder aquisitivo maior e que vão poder participar da festa. Então eu gostaria muito de poder celebrar esse momento tão ímpar e que tem um significado grandioso”, disse.

    A escolha do curso não foi à toa. Sua vivência nas ruas deu a ele um olhar sensível aos direitos das pessoas. “Algumas coisas que aconteceram me levaram a escolher o curso, para que de alguma forma eu faça com que a justiça chegue até elas. O nosso Judiciário é caro, depreciado algumas vezes, e nem todas as pessoas têm acesso. Escolhi esse curso para que eu possa tentar dar a elas a igualdade”, explica Walisson.

    A história de Walisson representa também a diferença de classe dos alunos nos cursos superiores no país. Segundo o Mapa do Ensino Superior do Brasil 2017, do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino), apenas 13,5% dos formados no ensino privado têm renda familiar de até 1,5 salário mínimo.

    Vida nas ruas

    A luta pela sobrevivência que ele viveu é um retrato do que passam todos os moradores de rua, que precisam se adequar às temperaturas, procurar algo para comer, um lugar para dormir e se desviar da violência muitas vezes encontradas nesses ambientes.

    “Ninguém está ali porque quer. Aquele lugar, muitas vezes, é a única saída para essas pessoas. E, sim, existem muitos moradores que só querem uma oportunidade para tomar um rumo diferente. Porque ali você é visto como um segregado, ninguém te respeita, os seus direitos são minorizados, as pessoas te olham torto e tem muitos moradores de rua que querem ter uma vida melhor. Só que falta oportunidade”, explica Walisson.

    Após formado, o objetivo profissional do ex-morador de rua é passar no concurso da Defensoria Pública. “Você vê muitos casos na mídia de pessoas que estão presas, à espera de julgamento, e que, muitas vezes, descobre que estão presas inocentemente, tendo o acesso à justiça negado. O defensor público é fundamental para fazer com que as pessoas de baixa renda sejam assistidas”, diz. “Quero fazer com que todos tenham acesso à justiça.”

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