Exclusivo: Leia trechos do livro ‘Minha Carne’, de Preta Ferreira

18/01/21 por Preta Ferreira, especial para a Ponte

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Novo livro da cantora e ativista é lançado nesta segunda-feira (18) pela Boitempo Editora, e traz um diário dos 108 dias que Preta passou presa

Capa do livro “Minha carne: diário de uma prisão” em que Preta Ferreira conta os dias que ficou presa injustamente | Foto: Divulgação/Boitempo

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Tenho uma ancestralidade forte, um alerta espiritual que me prepara, me protege. E, como o sensor de uma aranha, minha intuição não falha.

Uma semana antes de ser presa, passei todas as minhas senhas de acesso para uma amiga, informei onde estavam todas as minhas documentações, a senha dos meus cartões, e-mails, redes sociais etc. Eu disse a ela que seria presa, minha intuição me alertou quando passei de carro em frente a uma delegacia do Deic. Tive uma visão de tudo, só não sabia quando seria.

Nas páginas a seguir, faço um registro de tudo o que passei durante os dias em que estive presa injustamente.

A prisão não é um lugar fácil. Lá vivi dias terríveis, mas que me ensinaram algumas coisas. Aprendi e amadureci muito. Vi muita gente que se achava superior quebrar a cara.

Eu não desejo para ninguém uma vida em um lugar como aquele. Graças a Deus e a minha mãe, eu sempre soube me virar, desde cedo. Aprendi o que era humildade e a tratar gente como gente. Foi o que me salvou na prisão. Eu sempre acreditei que ninguém é melhor que ninguém, e aqui essa contestação ficou ainda mais viva.

Qualquer pessoa está sujeita a parar atrás das grades: inocente ou culpada, na cadeia, sempre tem um lugar reservado. Na cela especial não tem distinção de cor. Muito pelo contrário. No local onde fiquei, o índice menor é o de mulheres negras. Aqui não existe classe social. Todas têm um número de matrícula e são igualmente chamadas de “reeducandas”.

Dia 24 de junho de 2019. Desde essa data, muitas narrativas entraram em minha vida, meu caminho se cruzou com o de outras pessoas, inocentes como eu. Desde esse dia, acredito menos ainda na “justiça” brasileira e passei a crer cegamente na maldade do homem e na inveja.

São histórias ouvidas, de pessoas que existem.


Terceiro sábado aqui em Santana. Nossa, que dia triste. As visitas chegam, e eu fico aqui, só.

Chorei quando a mãe da Daiane chegou. Daiane é uma das minhas companheiras do dia a dia. Vim para minha cela escrever e chorar, e passa tanta coisa na minha cabeça, tudo num misto de tristeza, mágoa e raiva. Tô escrevendo com os olhos lacrimejando. Como eu queria estar na minha casa! Mas graças a pessoas mentirosas, de coração maldoso, me encontro aqui. Não vejo a hora de esse inferno acabar. Só Deus sabe como meu coração está. Não dá para ser forte toda hora; ser heroína requer muito da gente.

Vejo a família de todos, e a minha parece tão distante – o que por um lado é até bom, não acho justo eles terem que passar por essa humilhação, não é justo que me vejam assim.

Ontem os desgraçados da direção devolveram a papelada para visita às 17h, acredita? Disseram que estava errada, que faltava uma via. E eu pensei: “Que desgraçados, tiveram esse tempo todo, entreguei dois dias antes e no fim da tarde eles vêm com essa só pra não dar tempo”.

Minha irmã até veio entregar os documentos, e esses miseráveis mandaram ela retornar. Sem problemas, quando eu sair daqui eu vou contar tudo sobre eles. Deixe estar, vou lutar contra eles também, pois tenho muito a falar.

Hoje é sábado, são 16h45, e já temos que nos recolher. Toda vez isso.

Vi as visitas irem embora e, enquanto o tempo não passava, fui jogar dominó com as outras companheiras que não tiveram visita, assim como eu.

Conversei com a companheira nova: vou chamá-la de Manu para não entregar a identidade. Ela é advogada criminalista, está presa desde 2017, pegou doze anos por mandar matar o pai do filho dela. O cara era ruim, desses homens escrotos que deveriam deixar de existir. Vou contar como foi.


Depois que fui presa, nesta recente nova vida, percebi que quase toda a humanidade está mais presa que eu. Percebi também que o povo preto nunca foi livre, pois nossos direitos não são garantidos, estamos sempre lutando para sobreviver, fugir da escravidão. Com tudo isso, ainda tem pessoas piores, os escravos de suas atitudes, de suas decisões; e a verdadeira liberdade é muito difícil de ser alcançada. Liberdade e felicidade poderiam se tornar uma coisa só. A felicidade é momentânea. Vivemos em constante agonia, tristes, e entremeamos com momentos de felicidade.

Se pararmos pra pensar que nem todos os momentos são fixos, e sim passageiros, que nada dura pra sempre, podemos atravessar a dor, sofrer com esperança; se aceitarmos e encararmos de frente, o alívio virá, como um remédio de efeito imediato.

Deixar de ter esperança é angustiante, por isso devemos ter algo além de nossas forças físicas para acreditar – eu acredito em Deus e na força que emano dos meus pensamentos, Deus me dá esperança. Acredito na natureza, nos meus orixás e nos meus ancestrais. Acredito que tudo é

energia, transmissão.

A sociedade é tão cruel e exerce sobre nós uma pressão tão grande que passamos a necessitar desse embotamento pra viver, sobreviver, ser aceito em determinado grupo. Por outro lado, atrás das grades, retirados do conviver com a sociedade, somos livres dessa pressão imposta pelo modelo de sociedade, embora fiquemos trancadas em determinado horário e tenhamos as correspondências violadas, cadeado nas portas etc. Aqui passamos a entender a situação com inteligência, olhamos no espelho e não vemos espinhas, rugas, marcas de expressão; vemos nossa alma e, junto com ela, uma nova vida, a que foi trazida pela esperança (Deus).

Se bem que nem todas aqui pensam assim; algumas estão mais presas que outras. Presas no passado, na culpa, na mágoa. Ainda vivem como se fosse o primeiro dia neste lugar.


Último dia de setembro, e continuo presa.

Hoje faz 98 dias que estou aqui, e a minha vida ainda se encontra em mãos desconhecidas. No presídio, houve palestra sobre saúde mental, sobre suicídio; não sei quem foi a palestrante, não assisti à palestra, só as funcionárias viram.

Tudo ou qualquer coisa que acontece no presídio é vetado para cela especial; não nos deixam participar de nada. Não me pergunte, pois não sei o motivo. É como se quem tivesse nível superior não precisasse de mais nada. Ganhei um livro da dra. Eunice Higuchi – não das mãos dela, mas porque a palestrante pediu pra entregar a todas da cela especial.

Às vezes, quase sempre, não tenho nada pra fazer, e a Rafa fica arrancando seus matos e cuidando da sua horta. Ela diz que é terapia. Percebi vários ramalhetes de trevos de três folhas… Sempre fico procurando o de quatro, é minha terapia aqui dentro, e as meninas me chamam de louca, dizem que virou fissura, mas de vez em quando me ajudam. Disse a elas que quando eu achar meu trevo de quatro folhas, a liberdade vai cantar. Eu já achei um uma vez, eu era adolescente, boto muita fé na projeção dos meus pensamentos, acredito e confio no que quero.

Toda vez que procuro, digo que estou à procura do meu HC. Até que hoje, enquanto elas estavam na palestra, achei o bendito trevo de quatro folhas! Depois de um mês caçando sem parar, hoje, dando uma olhada básica só pra não perder o costume, achei o trevo. Eu disse que, quando encontrasse esse trevo, o HC chegaria… Agora vamos ver se funciona. O trevo está aqui, envolto em um durex, como prova da minha persistência e do acreditar na força dos pensamentos.

O trevo existe mesmo, algumas me chamaram de teimosa, outras foram procurar também. Dizem que eu dou sorte à cela especial.

Agora eu que chamo elas de loucas. Fico aqui olhando elas procurarem

o trevo delas.

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