‘Fala de coronel mostra que governador não comanda a polícia’

Após Doria afastar coronel por convocar tropa para manifestação golpista, especialistas ouvidos pela Ponte afirmam que ideologia bolsonarista nas PMs é muito forte: “Não é de hoje que as PMs são uma caixa de pandora que governadores não querem acessar”, diz tenente-coronel e doutor em psicologia Adilson Paes de Souza

PMs posam para foto com bolsonarista em manifestação pró-Bolsonaro em 2018 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

As publicações feitas por oficiais da Polícia Militar de São Paulo no último final de semana comprovam a força do discurso bolsonarista no comando das tropas e o enfraquecimento do poder dos governadores dentro dos quartéis. Essas demonstrações de insurgência ocorrem em um momento delicado no cenário político nacional e às vésperas de uma mobilização de cunho golpista programada para ocorrer dentro de duas semanas.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afastou o coronel Aleksander Lacerda, chefe do Comando de Policiamento do Interior-7 (CPI-7), depois que ele fez postagens em suas redes sociais a favor dos atos do próximo dia 7 de setembro, favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “Liberdade não se ganha, se toma. Dia 7/9 eu vou”, postou o Coronel em sua conta no Facebook.

Em entrevista coletiva na manhã desta segunda-feira (23/8) o governador paulista se pronunciou, em entrevista coletiva, sobre o caso, afirmando não tolerar esse tipo de publicação por parte de agentes públicos. “Aqui no estado de São Paulo nós não teremos manifestações de policiais militares na ativa de ordem política”.

Além do coronel da ativa, outro integrante do governo paulista proveniente da Polícia Militar, o coronel da reserva Paulo Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, atual diretor-presidente da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), também por meio das redes sociais,declarou apoio a manifestação pró-governo e contra ministros do Supremo Tribunal Federal Marcado para o próximo mês. 

“Nós, a Polícia Militar, a Força Pública, nós devemos nos unir e, no dia 7 de setembro, todos os veteranos estar (sic) presentes na Avenida Paulista”, declarou Araújo em um vídeo em que se dirige para os policiais da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), batalhão que ele mesmo já comandou. 

“A Polícia Militar do Estado de São Paulo participou dos principais movimentos do nosso País. Já lutamos em Canudos, as revoluções, 1932 e 1964, sempre estivemos presentes. Não podemos nesse momento em que o país passa por essa crise, em que percebemos o comunismo querendo entrar, de forma lenta, trabalha ao longo dos anos no nosso país”, afirmou em outro trecho do vídeo.

Polícia cada vez mais política em São Paulo

Diante de ataques cada vez mais contundentes contra instituições e colocando sempre em xeque o futuro da democracia no Brasil, Jair Bolsonaro enxerga em policiais militares de diferentes estados uma base aliada e armada que estará ao seu lado em um cenário de caos social e ruptura democrática. Analistas avaliam que essa adesão das polícias militares ao discurso do governo federal representa um grande risco à estabilidade política no país.

Especificamente no estado de São Paulo, esse apoio por parte de comandantes da ativa e da reserva ao presidente é visto como uma reação dos militares por se sentirem traídos pelo governador, que durante o segundo turno a campanha de 2018 utilizou a figura de Bolsonaro para angariar votos junto à corporação e hoje se coloca como oposição ao governo federal.

“Quando foi eleito, o discurso do Doria em relação à atuação dos PMs era a mais severa possível. Atirar para matar, pagar os melhores advogados para os policiais em caso de júri. Depois ele abandonou esse discurso tendo em vista o seu futuro político”, comenta Adilson Paes de Souza, doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em direitos humanos e tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo.

Pretensões políticas futuras não são uma exclusividade do governador de São Paulo. Segundo o professor da Fundação Getúlio Vargas e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, falas direcionadas a policiais, como a do coronel Araújo, mostram um interesse eleitoral por trás.

“Um policial da reserva não pode fazer esse tipo de convocação, pedindo para que se usem símbolos da PM, como ele fez. Isso é inaceitável. A Polícia Militar não é de membros da reserva, ela é da sociedade. Provavelmente ele será candidato nas próximas eleições e está usando isso em benefício eleitoral.”

A perda do controle dos quartéis

Em maio deste ano, em um ato contrário ao governo Bolsonaro e sua condução da pandemia, a Polícia Militar de Pernambuco dispersou os manifestantes com tiros de balas de borracha. Duas pessoas foram atingidas no olho. O governo de Pernambuco declarou à época que não deu ordens para a ação e exonerou o comandante da PM, coronel Vanildo Maranhão, que teria ordenado o ataque.

Em fevereiro de 2020, policiais militares do Ceará fizeram um motim que teria sido facilitado pelo alto comando da corporação. No mês passado, três tenentes-coronéis foram denunciados pelo Ministério Público do Ceará acusados de não impedirem a invasão de quartéis durante a mobilização dos PMs. Na época, o senador Cid Gomes chegou a ser baleado no peito quando tentou invadir um dos batalhões usando uma retroescavadeira.

Os dois casos ocorridos no nordeste, junto às declarações dos oficiais paulistas, mostram a adesão das corporações ao discurso bolsonarista, ao mesmo tempo que expõem a falta de controle dos governadores sobre as suas tropas. Adilson Paes de Souza garante que os chefes dos executivos estaduais temem em fazer mudanças profundas nas polícias, deixando que elas ajam da mesma forma dos tempos da ditadura.

“Não é de hoje que as polícias militares são uma caixa de pandora e que os governadores não têm e não querem ter acesso. Eles têm medo de tratar sobre essas questões. Quando um comandante fala o que o coronel Lacerda falou, mostra o grau de ruptura e o quanto o governador não comanda a polícia.”

Para o advogado, especialista em direitos humanos e segurança pública pela PUC- SP e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Ariel de Castro Alves, que esteve reunido com o ouvidor da Polícia de São Paulo, Elizeu Lopes, ainda não são todos os membros da PM que estão dentro do bolsonarismo.

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“As atitudes dos dois coronéis não representam o comando geral da PM, nomeado pelo governador João Doria, mas representam alguns oficiais e muitos praças da corporação, que são suscetíveis às influências bolsonaristas, que defende um país governado por militares e com liberdade para policiais cometerem abusos, corrupção, flagrantes forjados e assassinatos”.

Mas segundo Rafael Alcadipani, os fatos mostram que esses levantes a favor do bolsonarismo dentro dos quartéis não são atos isolados. “As polícias militares de todos os estados têm um quê bolsonarista muito forte. Existe uma associação ideológica muito clara e isso é um risco dentro das tropas. Não acredito que eles sozinhos são capazes de um golpe, mas em um cenário de caos social é muito fácil que eles reprimam com mais força movimentos de esquerda. Caso haja uma invasão ao STF, como houve ao Capitólio nos EUA, é capaz que eles se omitam também como fizeram lá.”

Outro lado

A reportagem procurou a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública e da governador João Doria para comentarem sobre a indisciplina na Polícia Militar de São Paulo e aguarda resposta.

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