Família de jovem negro condenado a 15 anos de prisão pede que Justiça reavalie provas

Igor Barcelos Ortega está preso há dois anos acusado de participar de tentativa de latrocínio contra um PM na Grande SP, em 2016; no ano passado, foi condenado a mais de 15 anos de prisão

Igor Barcelos Ortega está preso desde novembro de 2016 | Foto: Reprodução Facebook
Dona Isalina passava pano na mesa da cozinha como se fosse por o lugar para mais um sentar. Era um pouco mais das 13h e canções de louvor e fé de um CD antigo tomavam conta da casa no Jardim Corisco, periferia da zona norte da capital paulista. A senhora de 77 anos já se antecipava na explicação: “ouvir a palavra de Deus me faz ficar mais forte”, ela sorria.

A relação da religiosidade também é traçada na carta escrita pelo neto, que relembra trechos da canção “Restitui”, da banda gospel Apascentar de Louvor, e a descreve como “louvores que gosto e que falam muito comigo”.

Os planos que foram embora
O sonho que se perdeu
O que era festa e agora?
É luto do que já morreu
Não podes pensar que este é o teu fim
Não é o que Deus planejou
Levante-se do chão, erga um clamor
Restitui
Eu quero de volta o que é meu
Sara-me e põe teu azeite em minha dor
Restitui e leva-me as águas tranquilas
Lava-me e refrigera minh’alma
Restitui

No envelope, todo preenchido com frases, inclusive com um recado ao carteiro para bater palmas quando chegar ao endereço e tomar cuidado com o cachorro, ele deixa um aviso à mãe Elizabeth, a quem descreve como “a joia mais rara que tenho”: “fala pra vó e pro vô que eu estou bem e amo eles”.

Elisabeth lê a carta mais recente que o filho escreveu | Foto: Jeniffer Mendonça/Ponte Jornalismo

Há dois anos Igor Barcelos Ortega, 21 anos, está preso. Há um ano está na Penitenciária de Irapuru, no interior paulista, e enfrenta superlotação: a unidade tem capacidade para 844 pessoas, mas abriga 1.976. No ano passado, ele foi condenado a 15 anos e seis meses de prisão por ser acusado de participar de uma tentativa de latrocínio contra um policial militar, em Guarulhos, na Grande São Paulo, em novembro de 2016. Para a família, a Justiça não considerou provas que indicariam a inocência do rapaz.

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Desde então, dona Isalina sonha em voltar a abraçar o neto. “Às vezes, eu tenho medo de não conseguir voltar a vê-lo”, emociona-se. Quem percorre os quase 700 km que separam o presídio da casa da família é Elizabeth Barcelos, 37 anos. “Meus pais são idosos e não têm condições de ir. Antes, eu conseguia levar minha filha pequena de oito anos ao CDP (Centro de Detenção Provisória) de Guarulhos, que era grudada com o Igor, mas no presídio não dá para entrar criança e nem temos como levar todo mundo”, conta. Além de Igor, ela é mãe de dois jovens e uma menina.

No envelope, Igor escreve para mãe que ela é a “joia mais rara” que ele tem | Foto: Jeniffer Mendonça/Ponte Jornalismo

No entanto, nos últimos quatro meses, Elizabeth não tem conseguido dar continuidade às visitas por estar desempregada e chegou a lançar uma “vaquinha” online para arcar com as despesas. Antes, trabalhava como auxiliar de limpeza. “Viajo geralmente de sexta à noite e é gasto muito grande porque você paga passagem, paga pousada, tem que levar a comida de sábado e pagar no lugar para cozinhar o jumbo [donativos que familiares podem levar aos presos em dia de visita que vão desde alimentos até produtos de higiene] de domingo, paga para tomar banho. Fora o tempo de viagem, são quase 10h. Não é fácil”, explica.

O irmão Natanael, 19 anos, que estava com Igor quando foi atingido no tornozelo, relembra da situação com revolta. “A gente jogava muita bola, empinava pipa todo o dia. Ele gostava de sair, cantar funk com os moleques”.

Nesse momento, Elizabeth pegou o celular e mostrou um vídeo do filho com amigos num salão de cabeleireiro do bairro, em outubro do ano passado, cantando uma composição própria sobre morar na periferia. “Ele gostava de cantar sobre a vida dele, onde ele cresceu, queria ser MC. Ele gosta muito de festa e as comemorações do ano a gente até faz, mas não é a mesma coisa porque falta a presença dele”, conta Elizabeth. “Mas a gente tem que ser forte, seguir lutando para que a justiça seja feita. Chega de lágrimas e noites em claro”.

Novas provas

A defesa entrou com embargos de declaração (tipo de recurso para que o juiz esclareça pontos da decisão) solicitando que o tribunal reconsidere a perícia que a família contratou sobre o ocorrido na avenida Szefredo Fagundes, na zona norte de São Paulo, onde Igor foi baleado. A tentativa de latrocínio contra o PM aconteceu na rua Pedro Toledo, na vizinha Guarulhos. A alegação da defesa é que não seria possível Igor estar nos dois locais ao mesmo tempo por causa da distância entre os dois locais. No boletim de ocorrência, o policial Felipe aponta que foi abordado às 5h40 do dia 2/10/2016. O prontuário do Hospital Luiz Gonzaga, distante 12km do local da ocorrência, indica que Igor deu entrada no local às 5h44 do mesmo dia.

Outro ponto levantando pela defesa é a posição dos tiros. O laudo do Instituto de Criminalística indica que o automóvel que ficou lado a lado com o veículo do policial tinha marcas de tiros do lado direito, na porta direita e no banco passageiro enquanto a motocicleta e a perna de Igor foram atingidas do lado esquerdo. De acordo com ele e Natanael, eles passavam de moto pela rua Szefredo quando Igor foi atingido no tornozelo por disparos de arma de fogo.

Contra Igor, pesa o reconhecimento por fotografia feita por uma outra vítima de roubo, que afirmou que por volta das 4h25 do dia 2/10/2016 foi abordada por quatro pessoas na rua Monsenhor Paulo e teve o carro e o seu celular levados.

Os desembargadores José Raul Gavião de Almeida e Ricardo Tucunduva, da 6ª Câmara de Direito Criminal, seguiram o voto do relator Machado de Andrade em rejeitar os embargos. Porém, na decisão do colegiado enfatiza que “a prova nova trazida nos embargos não obsta sua análise na revisão criminal, pois o momento não é propício para reexame fático”, o que significa que pode haver uma reapreciação do material levantado pela família.

Babiy, Marcelo e Igor: familiares dos três questionam as prisões | Foto: Jeniffer Mendonça/Ponte Jornalismo

Neste quinta-feira (13/9), o caso de Igor, além de outros dois envolvendo prisões que, segundo familiares, são injustas, será a motivação de um protesto que acontece no centro de São Paulo, em frente ao Tribunal de Justiça. O chamado “Ato Unificado” também vai protestar contra a condenação da modelo Bárbara Querino, 20 anos, a 5 anos de prisão por participar de um assalto em uma data que, segundo a defesa dela, Babiy – como é conhecida – não estava em São Paulo, e o educador Marcelo Dias, preso acusado de tráfico de drogas. Ele estava perto de uma sacola abandonada por suspeitos que estavam dentro de um táxi e acabou sendo abordado por policiais.

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